Na terça-feira (28), o Rio de Janeiro assistiu à maior operação policial de sua história recente, realizada nos complexos da Penha e do Alemão. O saldo oficial, que variou ao longo dos dias, foi sendo atualizado de maneira vertiginosa: as primeiras contagens falavam em 64 mortos (60 civis e 4 policiais) e 81 presos; depois, listas oficiais divulgaram ao menos 117 mortos identificados; reportagens internacionais e nacionais consolidaram o número de 121 mortos e milhares de moradores sob pânico, com escolas fechadas, corpos espalhados e relatos de violações de domicílio e de direitos elementares.
Não surpreende que, diante do horror, a sociedade tenha se dividido — e, em parte, apoiado a operação. Pesquisas publicadas nos dias seguintes indicaram maioria favorável: um levantamento apontou 69% de apoio; outro registrou que 52% consideraram a ação “adequada” (contra 46% que a julgavam “excessiva”); um terceiro mostrou aprovação à narrativa de que as operações ajudam a reduzir a criminalidade. Esses números, por sua vez, aparecem acompanhados de um traço importante: a adesão cresce no próprio Estado do Rio.
Ao mesmo tempo, ruas e becos das favelas se encheram de gente em protesto. Moradores e movimentos denunciaram a operação como massacre, exigindo investigação independente e o fim da militarização do território. A indignação irrompeu sob chuva, a partir da Vila Cruzeiro, e percorreu a cidade; organizações de direitos humanos, especialistas e veículos investigativos detalharam episódios de terror doméstico, destruição e abandono de corpos em áreas de mata — imagens que jamais deveriam compor o cotidiano de uma democracia.
Não há nada de novo no argumento securitário que sustenta intervenções desse tipo. Há, sim, a sua radicalização periódica. Aquilo que Achille Mbembe conceitua como necropolítica — a gestão desigual da morte e da vida — é o que vimos no Rio: a prerrogativa estatal de decidir quais corpos podem morrer, legitimada pelo discurso de combate a facções e pela estetização midiática da guerra urbana. Quando autoridades afirmam que “as únicas vítimas verdadeiras foram os policiais mortos”, reordenam o campo do luto público, definindo quem merece compaixão e quem merece esquecimento.
Esse reordenamento tem história no Brasil. Como nos ensinou Abdias Nascimento, o genocídio do negro brasileiro não é metáfora: é uma estrutura que atravessa séculos, reinventando-se na República e alcançando a contemporaneidade sob o signo da “segurança pública”. Clóvis Moura já descrevia as “barragens de peneiramento” sociais que filtram, controlam e eliminam excedentes humanos (a mão de obra tornada descartável), enquanto o Estado negocia, direta ou indiretamente, as fronteiras do ilícito. E, se olharmos o dossiê recente do Ministério Público que associa a expansão do Comando Vermelho a uma escalada de homicídios na metrópole fluminense, veremos que a tragédia é continuamente convertida em justificativa para sustentar a própria lógica que a produz: a resposta é sempre mais força, mais morte, mais luto seletivo.
A pesquisa de opinião que mede “apoio” à operação inscreve-se nesse circuito. Charles W. Mills chamou de contrato racial o pacto tácito que organiza hierarquias de humanidade e racionaliza a violência. Quando 52%, 53% ou 69% aprovam a operação tal como foi conduzida, não estão apenas “querendo segurança”; muitas vezes, estão aderindo a um imaginário onde certas vidas — as vidas negras, periféricas, faveladas — são contabilizadas em bloco como ameaça e, portanto, sacrificáveis.
Cobertura midiática
É aqui que a mediação comunicacional se torna central. Muniz Sodré há muito diagnostica a “sociedade midiática” (e sua deriva incivil), na qual a cobertura jornalística não apenas narra eventos, mas fabrica ambientes de opinião. Introduzo a expressão “Democracia Cosmética” para descrever este cenário: uma democracia que se apresenta visualmente — com helicópteros, invocações de soberania estatal e apelos à ordem —, mas que permanece intelectualmente e materialmente vazia nos territórios periféricos, onde a vida negra permanece à margem da proteção estatal.
A espetacularização da operação — helicópteros, fuzis apreendidos em filas didáticas, “mapas do crime” com design de videogame — compõe um repertório imagético que transforma complexidade social em storyboard de guerra. Trata-se do que chamo, em ‘Maioria Minorizada’, de tecnologia de minorização: dispositivos discursivos e visuais que reduzem populações inteiras à condição de problema público, eclipsando suas histórias, direitos e projetos de vida.
A cobertura predominante, sobretudo nas primeiras 48 horas, operou uma pedagogia rápida: nomeou os mortos como “suspeitos”, classificou antecedentes criminais como prova pós-mortem de culpabilidade, normalizou o desequilíbrio letal como “efeito colateral” e premiou a performance bélica com a estética do “dia histórico”. Em contraponto, veículos públicos e independentes — como o próprio Brasil de Fato, além de organizações de direitos humanos — amplificaram as vozes dos moradores, cobraram investigações e problematizaram o paradigma da chacina como política. Esse choque de enquadramentos, típico da disputa hegemônica, ajuda a explicar por que pesquisas registram apoio simultâneo à operação e percepções de “excesso”: a mídia produz ambivalência dirigida, na qual o medo e o desejo de ordem suplantam, no curto prazo, a empatia e o compromisso com direitos.
Patricia Hill Collins nos alerta para as “imagens de controle” — estereótipos que administram percepções sobre grupos oprimidos e legitimam práticas repressivas. No Brasil, tais imagens cruzam raça, classe e território: o “bandido”, o “elemento”, o “suspeito abatido em confronto” formam um mosaico que dispensa evidências e bloqueia o luto. Sueli Carneiro descreveu esse processo como epistemicídio: a anulação dos saberes e da fala de sujeitos negros, inclusive quando estes são as únicas testemunhas de seu próprio sofrimento. Quando moradores relatam corpos abandonados na mata, casas arrombadas e escolas fechadas, mas o telejornal prioriza o “arsenal apreendido” e a “lista de foragidos”, vemos a máquina da desumanização em pleno funcionamento.
Poder, território e a política do possível — com o corpo marcado
Precisei de tempo para absorver a mais esta tragédia, refletir e me expressar textualmente e verbalmente, não foi uma semana fácil. Meu dia teve início com o grupo de Whats App da minha família clamando a dor e a tristeza pelos meus sobrinhos que estavam na rua, de familiares passando mal, e da incerteza do retorno para casa com vida, numa região conflagrada. Como carioca, nascido e criado no bairro do Rio Comprido — bairro que já ganhou a alcunha de “bairro proibido” — carrego no corpo as marcas e cicatrizes desta guerra urbana permanente: já perdi familiares (pai, tio, primos), muitos amigos, vizinhos que hoje são cifras ou lembranças angustiadas. Essa geografia não é neutra; é terreno que forjou meu olhar enquanto artista-ativista, pesquisador, docente, militante. E reconheço que a “Chacina do Complexo da Penha e do Alemão” não é um desvio da normalidade: é a normalidade quando o contrato racial manda.
Diante de uma operação que o próprio governo estadual vendeu como “sucesso” — com a alegação de “ano de investigação” e alto número de mortos com antecedentes —, cabe perguntar: sucesso para quem? O paradoxo brasileiro é que a militarização do cotidiano coexiste com a permanência (e, às vezes, o fortalecimento) das redes criminosas. Especialistas voltaram a insistir, nos últimos dias, em alternativas sabidas e ignoradas: inteligência financeira para asfixiar fluxos de dinheiro e armas; integração federativa; responsabilização por letalidade; políticas sociais territorializadas e participação comunitária. Nada disso rende o mesmo espetáculo de um comboio de blindados que dão início a campanha eleitoral de 2026, mas é precisamente o que funciona.
É também por isso que milhares de pessoas foram às ruas do Brasil — não apenas para condenar um evento, mas para disputar o futuro do território. O ato público que saiu da Vila Cruzeiro, os protestos que reaglutinaram moradores e movimentos, e as denúncias apresentadas no Parlamento e em organismos internacionais recolocam o debate no lugar certo: segurança pública é política de direitos, não licença para matar.
Como pesquisador do campo da comunicação e das relações étnico-raciais, e como alguém comprometido com uma pedagogia de “educar para reparar”, proponho três deslocamentos urgentes:
- Da contabilidade de corpos à responsabilização de agentes. Mortes não podem ser indicador de eficiência. É preciso perícia independente, controle externo da atividade policial, cadeia de custódia transparente e responsabilização por execuções e abusos. Isso inclui rever protocolos operacionais, metas e incentivos institucionais.
- Da estetização da guerra à pluralidade informativa. É tarefa do jornalismo público e dos meios comprometidos com direitos humanos contra narrar o espetáculo bélico, iluminando vítimas, litígios e contextos. Isso exige ética da fonte (ouvir moradores não como “opinião”, mas como testemunhas), jornalismo de dados sobre letalidade, e pedagogia comunicacional que desfaça as imagens de controle.
- Da política do medo à política do cuidado. O medo pode gerar apoio conjuntural a operações de altíssima letalidade — como revelam as pesquisas —, mas o que fortalece comunidades e reduz violência é investimento estável em educação, cultura, saúde mental, urbanismo social e renda — combinado com inteligência policial e enfrentamento a redes financeiras do crime. O apoio momentâneo não deve se converter em cheque em branco para a manutenção do necropoder.
A operação nos complexos, sob o granulado de “Democracia Cosmética”, não é um episódio isolado; é o manifesto da estrutura racial-política que subordina corpos negros à lógica da exceção. Quando a maioria minorizada é convertida, pela mídia e pelo Estado, em matéria-prima de narrativas de guerra, o que se mata não são apenas pessoas; mata-se também a possibilidade do comum, do dissenso democrático, do futuro. Que a dor engasgada dos moradores, a coragem dos que marcharam sob chuva e a insistência de jornalistas e juristas por investigação se tornem, enfim, ponto de inflexão — não para que se repita a mesma aula de violência, mas para que, enfim, se aprenda a lição que recusamos há décadas: segurança é sinônimo de vida digna, e vida digna não se produz com sangue.
*Richard Santos, também conhecido como Big Richard, é professor da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), pioneiro da cultura Hip Hop no Brasil. Coordena o grupo de pesquisa Pensamento Negro Contemporâneo (UFSB/CNPQ). Está lançando seu novo livro- Comunicação em Disputa: A Luta pelo Imaginário da América Latina na Era Trump (Editora Telha, 2024), no qual analisa os desafios da soberania simbólica latino-americana frente ao colonialismo midiático e digital.
** Este é um artigo de opinião e não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.
