Na região oeste de Santa Maria (RS), marcada historicamente pela presença de movimentos sociais, da luta por moradia à resistência indígena, passando pelos assentamentos do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), está localizada a Vila Resistência. Nas ruas de chão batido, onde vivem 53 famílias, a arte não apenas colore os muros e casas, mas fortalece histórias, memórias e sonhos.
A ocupação, que completa nove anos em novembro, segue resistindo contra reintegrações de posse e reafirmando o direito à moradia. No dia 9, a comunidade inaugura sua escolinha comunitária, símbolo do esforço coletivo e da persistência de quem não abre mão de existir com dignidade.
“Tudo aqui foi feito por mutirão. Sempre foi assim: a gente tem uma necessidade, se organiza e faz. A pracinha, o campinho, a escolinha, o ateliê… tudo foi construído coletivamente. Luz, água, ruas, espaços coletivos, tudo nasceu do trabalho da comunidade junto com apoiadores”, afirma a artista visual e arte-educadora Rusha, integrante da Vila Resistência e do Ateliê Griô, espaço dedicado à arte e à cultura comunitária.
Um dos apoiadores é o militante do assentamento Carlos Marighella Eduardo Moreira dos Santos. Ele explica que a ocupação multiplicou a diversidade vegetal da área. “O processo de ocupação e de vida das famílias aqui multiplicou a diversidade vegetal. A gente até usa isso como argumento no processo jurídico, porque valorizamos a área verde.”

O militante destaca que há uma valeta, um córrego, que existe por causa da umidade do solo. “Fizemos uma horta, cada casa tem árvores, e hoje vamos plantar mais. Onde tem árvore, tem passarinho, tem bichinho, tem vida. Já realizamos até um observatório e uma pesquisa com a universidade sobre as espécies de pássaros da região”.
Santos lembra do passado da área. “Eu sou do assentamento Marighella, que fica a seis quilômetros daqui. Quando a gente ocupou, e eu digo ‘a gente’ porque estávamos juntas nesse processo, nasceu também o grupo Guandu Agroecologia, com o propósito de resgatar a luta pela agroecologia, origem do assentamento, com mais de 25 anos.”
Ele explica que o assentamento foi pensado como agrovila, com moradias ao redor e produção coletiva no centro. “Isso durou cerca de quatro anos e acabou se individualizando. Ainda assim, deixamos um legado de cultura e resistência, com o Centro de Cultura, uma biblioteca e atividades culturais. Quando ocupamos aqui, trouxemos essa mesma perspectiva: construir um espaço cultural e educativo. A educação é o centro que sustenta a coletividade e o apoio mútuo. As crianças e famílias participam de atividades culturais e educativas, é isso que mantém o território vivo.”
O Brasil de Fato RS visitou a ocupação no dia 13 de outubro, onde fomos recebidos por Rusha, Santos e a artista visual Mariri.

Um território vivo de resistência
A zona oeste de Santa Maria é uma região de grande efervescência social, onde convivem diversos povos e experiências de resistência: a Ocupação Santa Marta, a aldeia indígena, assentamentos da reforma agrária, hortas comunitárias. “É um território de alianças entre o campo e a cidade”, afirma Santos.
Antes da Vila Resistência, havia outra ocupação, com mais de 210 famílias, que foi despejada. “Depois desse despejo, um pequeno grupo, umas seis ou sete famílias, decidiu ocupar este campo. Foi assim que nasceu a ocupação Vila Resistência, retomando a luta digna por moradia na zona oeste”, explica.
Ao caminhar pelas ruas da ocupação, Rusha conta quem são os moradores do local. “Tem de tudo um pouco. Muita gente trabalha como pedreiro, catador, reciclagem, várias famílias vivem só disso. Também há quem trabalhe como doméstica. Pensamos em montar uma cooperativa de reciclagem, porque são mais de cinco famílias envolvidas, mas a prioridade eram as moradias. Aqui há muita gente autônoma, que faz um pouco de tudo para viver. É isso: somos uma comunidade cheia de parentes.”

“Aqui é acolhimento, não é só moradia”
Carina da Silva é uma das moradoras do local. Ela vive na vila há sete anos com o marido e três filhos, a mais nova nasceu e foi registrada na própria comunidade. Coordenadora da ocupação, orgulha-se do trabalho coletivo que transformou o território em espaço de convivência, solidariedade e geração de renda.
“Além de ter um local para morar, a comunidade é muito acolhedora. Não temos muitos problemas entre vizinhos e conseguimos desenvolver vários projetos, que beneficiam não só os moradores, mas também o pessoal do entorno”, conta. Entre as iniciativas, destaca a Escolinha Comunitária e o Ateliê Griô, que acolhe artistas e oferece oficinas de arte.

Como coordenadora, Silva organiza doações e prioriza quem mais precisa. “Atendemos primeiro mães, depois idosos, pessoas com deficiência e, por último, os solteiros. É uma forma de priorizar quem mais precisa.” Ela participa também da Feira Internacional de Cooperativismo (Feicoop), na área de limpeza. “Já faz três anos que trabalho na feira. No ano passado levei várias mulheres da comunidade comigo, e muitas hoje estão empregadas com carteira assinada. Isso é oportunidade de trabalho e dignidade.”
A Vila Resistência se distingue por valorizar o cuidado coletivo e o uso responsável dos recursos. “Temos responsabilidade com água, esgoto e iluminação. Todas as ruas estão iluminadas com luzes que ligam e desligam automaticamente. Não desperdiçamos.”
Na fachada de sua casa, Silva expressa a identidade coletiva da comunidade. A pintura, feita no projeto Resistinta, traz imagens da família: “Meu filho pediu um índio, eu e minha filha escolhemos beija-flores. Um amigo fez o desenho e também já pintou outras partes da casa.”
“Aqui não tem perigo. Um vizinho cuida do filho do outro, um ajuda a cuidar das coisas do outro. Posso sair e deixar meus filhos com o pessoal da frente, que sei que estarão bem. Todo mundo se ajuda.”

“A arte possibilita que a gente transborde o que não consegue dizer”
Zezé Vivian, morador há dois meses, integra o Circo Sem Teto, o Ateliê Griô e a Companhia Trevas. O coletivo Circo Sem Teto nasceu da união de artistas de malabares nas sinaleiras da cidade, levando o circo para as comunidades periféricas.
“O circo começou com artistas que queriam trazer arte e cultura do circo para a vila e região periférica. A proposta sempre foi ocupar espaços públicos e aproximar a arte da vida cotidiana.”
Para Zezé, a Vila Resistência se tornou território fértil de produção cultural. “Aqui tem muitos artistas, de diferentes linguagens. Parte veio do Centro de Artes e Letras (CAL) da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), e muitos são moradores da periferia. Essa mistura fez a arte borbulhar.” Ele cita Mariri, artista visual reconhecida na cidade, integrante do circuito cultural da vila.

O artista defende que arte e política pública caminham juntas. “Quando falamos de política pública, temos que falar de arte também. A arte não deve nada a ninguém, mas nos ajuda muito.”
Recentemente, participou de oficina literária na Escola Adelmo Simas, no bairro Juscelino Kubitschek. “A arte tem o poder de comunicar o que muitas vezes não conseguimos falar. Nas periferias, há muita coisa engasgada, e a arte possibilita que isso transborde.”
“Se morar é um direito, ocupar é um dever”
Jonathan, mais conhecido como Riscado, morador há quatro anos, se define como “arteiro” e descreve seu cotidiano: “Tenho uma trajetória de movimento constante. Morei, saí, voltei… vivo nessa transição, saindo e voltando. Há mazelas, mas também busca por aproximação. As pessoas aqui são mais próximas, se cumprimentam, diferente de lugares centrais, onde cada um fica trancado. Claro que há conflitos, são processos humanos.”
Um desses conflitos diz respeito a questão do saneamento do local. Rusha lembra que, há anos, a rua Engenheiro João Forgiarini foi pavimentada, mas o esgoto continuou a ser despejado na vila. “Avisamos: ‘isso não pode, é questão de saúde pública’. A prefeitura prometeu conexão à tubulação até a avenida Brasil, mas nunca foi feito. Ano passado, com as enchentes, entrou literalmente merda nas casas. Denunciamos, mostramos a urgência, e essa luta continua. O direito ao saneamento é básico, se a prefeitura não garante, vamos construir, como sempre fizemos.”
Como o mutirão agroflorestal que também nasceu da comunidade. “Todas as árvores foram plantadas por nós. Neste mutirão, vamos plantar mais de 200 mudas, nas ruas e na pracinha. Árvores frutíferas, para que as crianças possam colher frutas na rua, acessíveis a todos.” No dia da visita outro mutirão de agroflorestamento foi realizado.

Resistinta: o museu a céu aberto
Andando pela comunidade, Rusha vai explicando que os murais da vila trazem símbolos da luta e da ancestralidade. “Tem várias mãozinhas, símbolos e punhos representando luta, ancestralidade, microfone, que remete à música, hip hop, arte, pipa, brincar, bandeira, tambores, espiritualidade. Tudo conta a história da vila, com palavras de ordem como ‘Se morar é um direito, ocupar é um dever’ e o artigo da Constituição sobre o direito à moradia.”
“Quando começamos a ocupação, a maioria das famílias vivia a escolha impossível: comer ou pagar aluguel, água e luz. A ideia de ocupar veio do direito de existir, de garantir vida e moradia. Toda periferia da cidade é resultado de ocupações, famílias organizando-se para garantir um direito básico que é negado.”

Santos explica que o projeto Resistinta valoriza identidades e memórias da comunidade. “Criamos um museu a céu aberto, dando cor e cara artística à vila. Cada casa tem elementos escolhidos pelas próprias famílias. Foi um processo bonito, com pesquisa e contato direto com cada morador.”
Mariri acrescenta: “Convidamos cerca de 40 artistas muralistas, grafiteiros, para fazer pinturas nas fachadas. Toda a comunidade participou, trazendo seus simbolismos. Cada pintura conta um pouco da história da família e das crianças.”
Para Rusha, o Resistinta cria outro imaginário sobre a comunidade, enfrentando invisibilidade, marginalização e preconceito. “Para crianças e famílias, morar num lugar colorido fortalece o sentimento de pertencimento. Aqui se constrói pertencimento, entre moradores, entre famílias, se sentindo em casa, ligados ao território. É tudo circular.”

Espaço de arte e resistência
Em uma das entradas da comunidade entre árvores e um caminho feito de telhas, fica o Ateliê Griô, e também onde moram Rusha e Mariri. “A arte e a cultura que fazemos no Griô vêm do entendimento do griô como mensageiro, guardião de histórias. Resgatamos ancestralidade, entendendo arte e cultura como ferramentas de transformação, construção de novos imaginários e modos de viver o mundo”, expõe Rusha.
O Griô articula diversas linguagens de artes plásticas, hip hop, slam, grafite. “Tem uma parede que vira palco para apresentações e teatro com crianças. Ampliamos o espaço e cada vez mais gente chega com trabalhos artísticos.”
O foco é ocupar espaços públicos e levar arte às escolas, quilombos e territórios indígenas. “O ateliê só existe porque está no território, e isso é fundamental. Ele corre riscos constantes por reintegrações e especulação imobiliária.”

Há quatro anos no Griô, construindo o espaço junto com Rusha e o coletivo, Mariri destaca que nada se constrói sozinha. ‘Dividimos funções, colaboramos, mantemos a cultura viva, fomentando música, poesia, dança, teatro, circo. Geramos experiências, encontros e afetos.”
Grande parte da sua criação é feita com material reciclado. “Minha pesquisa foca em escultura e meio ambiente. Transformar resíduo em matéria-prima, falando sobre ancestralidade, cultura brasileira, fé, espiritualidade e fauna nativa. A arte é a linguagem para comunicar o que acreditamos e nos move.”
Mural, poesia e música dão voz à nova geração
Entre os murais que se destacam na vila esta o primeiro mural em braille da América Latina, que nasceu da participação das jovens moradoras Raíssa, de 15 anos, e Larissa, de 18. “A construção do mural só existe porque existem as gurias, e elas sabem a importância que têm para nós. Elas sempre se apresentam nos palcos aqui da vila, cantam, escrevem. Acho que elas vão se apresentar hoje”, conta Rusha.
O mural celebra a origem indígena das famílias das jovens e representa, no centro, a mulher como guerreira, homenageando as mulheres da comunidade. Tímidas diante da entrevista, Raíssa e Larissa se soltam quando chegam aos palcos da vila.
O despertar artístico começou de forma inesperada. “A gente nem era muito interessada por cantar. Eu gosto mais de escrever, porque tenho o sonho de ser jornalista”, conta Larissa. A jovem mantém até hoje um canal no WhatsApp, Reflexão e Poesia com Larissa Argentina, onde compartilha textos inspirados por sua vivência e por amigos de outros países. Desde os nove anos, Larissa se dedica ao jornalismo: “Assistia jornais desde cedo, anotava tudo em pastas e, anos depois, levei minhas reportagens para jornalistas que admirava. Tudo que eu escutava no jornal, eu escrevia do meu jeito. Guardava tudo e, mais tarde, levei para o Diário, pra mostrar meu trabalho”, recorda.

Raíssa, por outro lado, sonha em ser cantora. “A música tem um potencial, ela me anima, eu gosto muito de cantar. Desde pequena, eu cantava na escola, no balanço, ficava lá cantando. Canto até hoje, e não vou parar”, diz, lembrando das primeiras experiências musicais com amigos e da participação ativa na composição das canções da comunidade.
Patrícia dos Santos Leão compartilha a história de vida e cuidado com suas filhas. Minha família tem essa origem indígena. Tenho três filhas, sendo duas com deficiência visual”, conta.
Criar as meninas, segundo Patrícia, foi um grande desafio. “Foi uma batalha praticamente sozinha. Elas nasceram com glaucoma congênito. Me separei quando eram pequenas, comecei a trabalhar para mantê-las, levava-as a Porto Alegre para cirurgias. Depois conheci o pessoal da comunidade, e quando começamos a montar a vila, elas já foram recebidas com muito carinho”, lembra.
Há cerca de cinco anos, a família se estabeleceu na Vila Resistência. “Todo mundo é apaixonado por elas. Cantam, participam de várias atividades e são sempre muito bem tratadas. Foi alegria total quando viemos morar aqui”, diz Patrícia.
Sobre morar na comunidade, Patrícia resume: “É maravilhoso. Se você precisar de um abraço, tá todo mundo ali te apoiando. É muito bom.”

Escolinha comunitária da Vila Resistência será inaugurada durante os nove anos da ocupação
A comunidade se prepara para inaugurar a nova estrutura da sua escolinha comunitária durante as comemorações de nove anos da ocupação. O espaço, que existe desde 2019, representa um sonho coletivo construído a muitas mãos.
“A construção do nosso espaço foi feita em mutirão. Todas as famílias participaram, com doações, vaquinhas online, ajuda de materiais. Ficamos um tempo parados, sem recursos, mas depois conseguimos apoio de um fundo internacional, que permitiu concluir a obra. Agora, em novembro, vamos inaugurar esse espaço, a nossa escolinha comunitária, que é mais que uma escola: é também um centro cultural, com cozinha e biblioteca comunitária. Estamos muito felizes por realizar esse sonho coletivo”, destaca Santos.
Rusha complementa: “Para nós é uma alegria enorme estar com ela quase finalizada. A escolinha é um projeto comunitário que atende as crianças e famílias da vila, mas também recebe jovens de fora. Ela nasceu da necessidade de oferecer outras perspectivas de vida e de mundo às nossas crianças, resgatando saberes, histórias e ancestralidades.”

Segundo ela, o espaço foi pensado para valorizar a identidade e as origens das famílias da periferia, enfrentando o preconceito que atinge as crianças negras e moradoras de ocupações. “Queremos que elas cresçam conscientes da potência que existe na periferia, que é um centro de saber, de fazer, de criatividade e inventividade.”
A nova estrutura contará com uma cozinha comunitária, uma biblioteca popular e salas amplas para oficinas diversas, como capoeira, percussão, reforço escolar e alfabetização de adultos. “Tudo que fortaleça a autonomia, a consciência racial e social, e que ajude nossas crianças a sonhar e acreditar em si. Aqui a gente bota fé um no outro. Acreditar e incentivar faz parte da nossa forma de construir um amanhã possível”, diz a artista.
A cozinha solidária também terá papel central. Além de servir refeições durante as atividades, funcionará como um espaço de trocas entre os moradores, semelhante a um armazém comunitário. “Se uma mãe tem leite e precisa de arroz, a ideia é que possa trocar. Isso fortalece os laços e cria uma rede de proteção e cuidado dentro da comunidade”, explica.

A metodologia da escolinha será baseada em uma educação antirracista, multicultural e inclusiva, construída coletivamente. “Não será uma escola formal. Queremos uma educação com autonomia, baseada no afeto e no cuidado, algo que muitas vezes falta em outros espaços”, completa.
A fachada da escolinha ganhou um mural do artista DS Lima, parceiro da comunidade há anos. A obra retrata crianças plantando, jogando pipa e tocando tambor. O artista já havia participado do projeto Resistinta, que vem transformando as casas da vila em telas coloridas que contam histórias e memórias da resistência.
“Nossa ideia é transformar a Vila Resistência em um patrimônio artístico e cultural do estado. Porque a base de tudo aqui sempre foi arte, cultura, afeto e cuidado.”
Força coletiva
Para Santos, a Vila Resistência é mais do que um território de moradia: é um espaço de encontro entre saberes, movimentos e povos. “A Vila Resistência é mais um desses territórios que têm potencial para fazer muita coisa. Tem muita ciência, tem muita sabedoria, tem muita técnica aqui dentro. Aqui é o que a gente chama de um celeiro da resistência dos movimentos. Tem o pessoal da luta por moradia, da reforma agrária, tem os indígenas. A gente está numa região muito potente e de referência de luta social”, afirma.
Ele destaca também o papel da comunidade na articulação da Teia dos Povos. “Por ser uma referência dentro do Urbana, a gente tem essa aliança que a gente faz entre os povos a partir da Teia dos Povos. Então, todos os eventos que a gente faz, os mutirões, a gente conecta e mobiliza todos esses povos.”
A vila, que completará dez anos em 2026, segue sendo símbolo de esperança e coletividade. “Acho que não tem como não falar que dez anos de uma ocupação que tem tanto movimento, que tem tanta atividade, é pra nós o que a gente precisa, que é esperança. Acho que é um processo de nos fortalecer enquanto indivíduos, sujeitos, e mostrar que a coletividade é possível nesse mundo. Acho que é isso que simboliza os dez anos”, resume.
Para Rusha, o território é a prova viva da força do povo organizado. “Para nós, e falar da vila me emociona muito, porque justamente esse território só existe porque existiu muito afeto, muita organização, muita luta e muita resistência. Para hoje essas 53 famílias morarem aqui foi porque sempre existiu coletividade, sempre existiu muita gente que depositou muita esperança e sonhou muito nesse lugar.”

Ela lembra que a Vila nasceu após um processo violento de despejo. “A Vila Resistência foi ocupada dia 21 de outubro de 2016, uma semana após a gente sofrer um processo violento de reintegração de posse, onde as nossas famílias deixaram do nada de ter um lugar para morar. E o nome foi decidido numa reunião: uma companheira falou pra botar Resistência, Vila Resistência, justamente dessa resistência na luta por moradia e por vida digna.”
Rusha recorda ainda um episódio que marcou a trajetória da comunidade. “A gente tinha uma ameaça de reintegração pra ser cumprida, a gente tinha dez dias pra sair daqui. Então a gente se reuniu, desesperado porque não tinha pra onde ir, e decidiu que ia ocupar a prefeitura. Foi uma das primeiras vezes que a prefeitura de Santa Maria foi ocupada, e foi justamente pelos moradores. Levamos as famílias, as crianças, e dissemos que só íamos sair quando fosse assinado um documento suspendendo a reintegração. E só saímos no final do dia, quando assinaram o documento.”
Hoje, a luta da comunidade é pelo reconhecimento do território e pela segurança de permanência. “Existe um processo judicial desde o início, e o que a gente está na luta é pra conseguir a concessão de uso para fins de moradia da comunidade e pra ter esse reconhecimento da vila enquanto patrimônio artístico e cultural”, explica.
