Vitor Ramil está de volta a Porto Alegre trazendo um sucesso de 25 anos atrás. Explica-se: Tambong, seu álbum gravado logo após Ramilonga – A Estética do Frio (1997), que está fechando um quarto de século, transformou-se em um espetáculo remoçado e uma celebração daquele momento que é um dos mais importantes da sua discografia. Nele, além das canções do disco de 2000, traz algumas músicas de outros dois álbuns, o anterior À beça e o posterior Longes.
Marcado para o Teatro Simões Lopes Neto (*) com estreia na próxima sexta-feira (7), às 20h, o show inclui principalmente obras de autoria do próprio Vitor, como Estrela, Estrela, mas também as versões que fez para Gotta serve somebody e You`re are a big girl now, ambos originais de Bob Dylan.
Nesta entrevista por e-mail, ele discorre sobre Tambong e a tarefa de musicar poetas como Fernando Pessoa, Allen Ginsberg e Angelica Freitas. Também transita brevemente sobre suas memórias da ditadura e o atual estado de coisas no Brasil pós-Bolsonaro e no mundo sob Donald Trump.
Brasil de Fato RS: Tambong foi teu primeiro álbum gravado em Buenos Aires e também teve suas canções versionadas para o espanhol. Uma delas cantada por Mercedes Sosa. Juntou nomes brasileiros como Lenine e Chico César e argentinos como Pedro Aznar e Santiago Vásquez. A impressão que passa é que tua obra passa a atuar como uma ponte, um amálgama em termos de cultura entre o Brasil e nossos vizinhos do Uruguai e da Argentina. É música brasileira, mas não deixa de haver certo estranhamento quando se pensa naquilo que é identificado comumente como a “música brasileira”… Como é para ti?
Vitor Ramil: Com Tambong eu quis fazer valer a ideia de não estarmos à margem de um centro, mas no centro de uma outra história, conforme expus na palestra com que apresentei a estética do frio em Genebra. Pensei na minha própria produção, mas também no significado que teria para o Rio Grande do Sul assumirmos essa posição “central”. Escolhi um produtor argentino muito conhecedor de música brasileira e músicos de lá e cá, como disseste. O resultado não é o que o senso comum identifica como música brasileira, mas, curiosamente, é meu disco considerado mais “brasileiro”.
Haverá alguma mudança no espetáculo Tambong de 2025? Arranjos? Acréscimo de canções?
Sim. Haverá recuperação de algumas sonoridades originais e novidades nos arranjos. Tocaremos duas músicas que não estão no disco: A resposta, de À Beça, disco anterior ao Tambong, que de certa forma foi sua matriz, e Longe de Você, do Longes, disco imediatamente posterior, também produzido por Pedro Aznar e também gravado em Buenos Aires.
O Dylan é também muito visual. O que ele fez com o country sempre será um ensinamento para o nosso regionalismo mais retrógrado
Tu és autor da letra e melodia das tuas canções, mas também colocaste música em poemas como aconteceu com obras tão distintas entre si como as de Angelica Freitas, Paulo Leminski, Fernando Pessoa, Allen Ginsberg, João da Cunha Vargas, Emily Dickinson e outros. Como funciona isso para ti? É mais prazeroso criar e desenvolver uma canção integralmente ou oferecer uma outra dimensão a um poema até então apenas lido e não cantado?
As duas coisas são prazerosas. Não sei dizer qual aprecio mais. Me absorvem de modo diferente em momentos diferentes.

Outra particularidade são as versões do Bob Dylan. Tambong, por exemplo, traz duas delas. Em que medida a musicalidade e a poética do Dylan se harmonizam com a tua obra aqui no Sul do mundo?
Tenho hoje em dia cinco versões para músicas do Dylan. A mais recente e inédita é Balada do homem de bem (Ballad of a thin man). É comum ouvirmos elogios às letras do Dylan e queixas sobre suas músicas. De minha parte, o que sempre me interessou foram as músicas, seu poder de síntese.
Versionar essas canções me permite trabalhar com um material de aparência bruta em que o fluxo de pensamento parece plasmado de modo automático ou resultante de um jogo enigmático. É como sua forma dissesse: venha me lapidar, explorar minhas inúmeras possibilidades. Quando escrevo uma letra minha faço algo parecido, mas com minhas imagens mentais, que são sempre muito plásticas, visuais. O Dylan é também muito visual. O que ele fez com o country sempre será um ensinamento para o nosso regionalismo mais retrógrado.
Um levantamento publicado pela Billboard Brasil das 10 músicas mais tocadas pelas rádios no Brasil em 2025 enumera as seguintes canções: 1) Tubarões; 2) Arruma um bão; 3) Opa, cadê eu; 4) Ai, que vontade; 5) Mentirosa; 6) Me ama ou me larga; 7) Vai lá; 8) Solteiro sofredor; 9) Castelo de sonhos; 10) Fiu fiu. Conheces essas músicas? Ainda escutas rádio?
Não conheço nenhuma. Escuto rádio às vezes, mas não música.
O rádio foi um veículo fundamental para a divulgação da música popular de variados gêneros. Hoje, porém, 90% das emissoras tocam apenas sertanejo e pagode. Há alguma saída para isso?
A rádio sempre funcionou assim, com raríssimas exceções, focada nos sucessos. Então as gravadoras começaram a comprar espaços e programadores para forjar seus sucessos. Depois os sertanejos compraram as próprias rádios… Considerando-se o modo de funcionamento da nossa sociedade, não há boa saída à vista.
Havia sempre uma atmosfera sinistra (na ditadura), mas quando comecei a gravar já estávamos entrando num clima de abertura
Tu és um compositor que também se expressa na literatura e um escritor que compõe música, o que não é muito comum, com as exceções de praxe como Chico Buarque. No que, nesses dois fronts, estás trabalhando agora?
Nos dois. Estou escrevendo um longo ensaio, A estética do frio, mas tenho viajado tanto com a música que é difícil avançar no texto.
Tu és de 1962 e pertences a uma geração que passou a infância e a adolescência sob a ditadura. Ou seja, toda a fase de formação. Quando ela acabou, em 1985, eras um adulto de 23 anos. Já tinhas gravado teu primeiro disco, Estrela, Estrela. Daquele período – do qual existem muitos saudosistas – o que ficou para ti? Dito de outro modo: qual é a tua lembrança pessoal mais marcante daquilo?
Lembro dos meus irmãos submetendo músicas à censura. Eu mesmo tive que fazer isso. Minha percepção do estado de coisas se dava muito pela ação da censura sobre artistas que eu acompanhava, Chico [Buarque], Milton [Nascimento], ambos gravaram discos sem as letras. Lembro de, nas minhas primeiras composições, tratar de dizer coisas de modo cifrado, porque aquilo me parecia algo inescapável. Com Semeadura na Califórnia senti alguma hostilidade, pois o (José) Fogaça, meu parceiro na canção, era considerado comunista pelos reacionários, coisa que nunca foi. Havia sempre uma atmosfera sinistra, mas quando comecei a gravar já estávamos entrando num clima de abertura.
Tivemos em 2022/23 uma tentativa de retorno aqueles tempos de 1964 que acabou frustrada. Acontecimentos recentes, porém, indicam que o risco permanece. Como artistas são vistos como a antena da espécie qual a tua percepção do que ainda teremos de enfrentar?
Os com e os sem antenas sabem bem o que nos espera dentro do Brasil, em seu entorno, na América Latina e no resto do mundo. Os bárbaros idiotas e os idiotas bárbaros cruzaram o Rubicão. Boto todas as minhas fichas nos justos, mas no fundo sou pessimista, acho que eles nunca terão a audácia dos canalhas.
(*) Tambong vai acontecer nos 7, 8, 9 de novembro (sexta e sábado, 20h, e domingo, 18h). O ingresso ocorrerá pela porta principal do Multipalco Eva Sopher, pela rua Riachuelo, 1089.
