ENTREVISTA

No Rio de Janeiro, Cidinha da Silva lança livro sobre o que aprendeu com Sueli Carneiro

Obra faz parte das comemorações dos 75 anos de nascimento de Sueli Carneiro, filósofa e fundadora do Geledés

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Cidinha da Silva
A escritora Cidinha da Silva | Crédito: Nuno Biazzo

A primeira vez que tive contato com a literatura de Cidinha da Silva foi por meio do livro “Parem de nos matar”, que ganhei autografado de um amigo querido, Fernando Assumpção, que me disse “tem que conhecer e tem que ler”. Desde então, acompanho o seu trabalho com fervor e um dos seus livros que me marcou foi “Um Exu em Nova York” que chamou minha atenção pelo título e, ao final, da leitura, precisei recuperar fôlego com tamanha intensidade. E repito o mesmo gesto que meu amigo fez comigo com outras pessoas e digo: Cidinha, tem que ler, distribuindo seus livros de presente. Agora, aos 58 anos, Cidinha da Silva, lança “Só bato em cachorro grande, do meu tamanho ou maior: 81 lições do Método Sueli Carneiro”, pela Editora Rosa dos Tempos. No Rio de Janeiro, a escritora passará pela Casa das Pretas (rua dos Inválidos, 122, Lapa), no dia 05/11, quando ministrará uma oficina de formação política; e na Casa Amo Cordel (rua Buenos Aires, 27, Centro) em parceria com a Revista Brejeiras (publicação feita por e para lésbicas) e o Grupo de Leitura Trema, na quinta-feira (6), às 19h.

O livro faz parte do ciclo de comemorações dos 75 anos de Sueli Carneiro. Cidinha conheceu Sueli, em 1988, durante uma sessão do Tribunal Winnie Mandela, ação coordenada pela filósofa enquanto dirigente do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, voltada para atividades do Centenário da Abolição.

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Vencedora de mais de trinta prêmios com sua produção literária, incluindo os prestigiosos prêmios da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA) e o da Biblioteca Nacional, Cidinha relata 39 anos de convivência com Sueli Carneiro, filósofa e fundadora do Geledés Instituto da Mulher Negra. Num gesto de generosidade, a escritora sistematiza lições que toda mulher militante gostaria de ter aprendido durante ou antes da militância. Terminei a leitura e pensei que queria ter lido há décadas esse livro para me livrar de tantas armadilhas. Ao mesmo tempo, me firmo na sabedoria de Neusa das Dores “tudo tem um tempo”. E esse tempo mostrou que a escrita de Cidinha promove uma ética de quilombo que ultrapassa o espiralar do tempo. Ela narra histórias, inclusive as divergências com Sueli, de maneira grandiosa, retratando a sua humanidade e uma humanidade coletiva negra. Essa não é somente a história de ensinamento político de Sueli Carneiro, como também de Cidinha da Silva, uma jovem negra que migrou de Belo Horizonte para São Paulo, que se viu desempregada e encontrou emprego, abrigo e colo em Sueli.

Cidinha é taurina que se inspirou na biografia de Tim Maia para parte do título: “Método Sueli Carneiro” e tem como seu livro favorito “Niketche: uma história de poligamia”, de Paulina Chiziane. Quando perguntei sobre sua música predileta, ela escreveu “Travessia”, de Milton Nascimento. A escrita de Cidinha da Silva é travessia; conta um caminho de pedras, mas aponta como podemos sonhar.

Como iniciou a sua militância? E como foi assumir a presidência do Geledés?

Cidinha da Silva: Sempre atuei politicamente, desde criança, na escola tinha liderança junto aos colegas, fui líder de turma no ensino fundamental e membro de “centro cívico escolar” (depois, grêmio). Participei de discussões do PT quando adolescente, de processos eleitorais fazendo campanha política. Fui também fiscal de apuração quando os votos ainda eram impressos; fui de grupo de jovens de igreja, de diretório acadêmico na universidade. A política, para mim, era vital desde criança. Em termos de organizações negras, entrei para o Geledés – Instituto da Mulher Negra em 1991 e cheguei à Presidência em 2000. Ser presidenta foi a realização difícil de um sonho. Na primeira tentativa, numa conversa franca com Sueli (Carneiro) fiquei sabendo que só teria o meu voto e o dela. Ela me convenceu a esperar mais um pouco. Eu entendi que as colegas de diretoria me viam para realizar tarefas duras na rua, mas não me queriam presidenta. Na vez seguinte, acho que só me elegeram por falta de outra candidata, só mesmo Sueli me apoiava. Fiquei na presidência apenas por um mandato porque eu mesma não quis o segundo, como era (é) tradição na instituição.

O que move a sua escrita, Cidinha?

Minha vontade de criar mundos por meio da palavra. Mundos criados, quero compartilhá-los.

Como foi o processo de produção do livro e o resgate de memórias de tantas décadas? Teve dificuldades, desafios?

O livro se baseia na minha cabeça e no meu coração, são memórias bem pessoais. Não consultei meus muitos cadernos, cadernetas e agendas, tampouco outras pessoas. É provável que o faça para escrever outros livros de memórias que sejam centrados nas minhas histórias. Veja, o “Cachorro Grande” está ancorado nas minhas memórias pessoais, mas a centralidade é Sueli e o que aprendi com ela. Quando for consultar meus cadernos vou contar minhas histórias, enfocando a minha vida. As dificuldades foram para decidir o que manter no texto e, nesse aspecto, minhas quatro leitoras e dois leitores críticos me ajudaram a decidir o que não precisava entrar. Cortar na medida certa foi desafiador.

À época, durante a sua convivência com Sueli, você tinha a dimensão que estavam em processo profundo da construção de uma pedagogia orgânica de formação política?

Não. O que sempre percebi foi a disposição incansável de Sueli de ensinar e de corrigir. Isso eu saquei desde o começo da relação dela comigo em especial, embora ela tenha ensinado a quem quis aprender, não só a mim. À medida em que amadureci e me distanciei dela é que foi ficando nítido na minha cabeça o processo formativo. Enquanto trabalhava com ela, eu apenas vivi, experimentei aquele convívio e aprendizado. Depois é que entendi como ele aconteceu.

Preciso dizer algo pessoal que me emocionou muito e me aproximou demais do seu livro que é o encontro de gerações. Ano passado, comecei um trabalho com a Casa das Pretas em que vou todas as segundas-feiras à casa de Neusa das Dores mostrar arquivos e fotos à medida que vou legendado com as informações. Neusa, aos 80 anos e eu aos 40, nesse encontro que frutificou a minha dissertação de mestrado “Lesboescrevivências com Neusa das Dores”. Atualmente, vemos como a memória é perdida e até mesmo ignorada de maneira ativa. Qual a importância de valorizar os passos que vieram antes de nós?

É muito importante ouvir as mais velhas, numa paráfrase ao podcast de Sueli e Neca Setubal, senão por outros motivos, porque a vida fica mais fácil se a gente se beneficia da experiência de quem veio antes. Costumo dizer isso às mais jovens.

Foram décadas de convivência com Sueli, se você pudesse destacar apenas uma das lições. Qual seria?

Destaco duas, a mais importante para mim, o meu mantra de vida aprendido com ela é a lição 29, “não alimente ilusões”. O que ela acha mais importante de ensinar, por sua vez, é a lição 17, “faça o que precisa ser feito”.

Como surgiu a proposta do livro? Ao final, ficou contemplada?

A ideia do Método Sueli Carneiro (Método SC) surgiu durante a leitura da biografia de Tim Maia, quando me deparei com o “Método TM”, cunhado pelo biógrafo. Tim, como todos sabemos, tinha cabeça e vida anárquicas e libertárias, seu método, por suposto, não era formal, também não o é, este Método SC, fruto da minha interpretação da maneira peculiar de ensinar, transmitir conhecimentos e de orientar para a atuação política, praticados por Sueli. O Método SC, portanto, inspirado no Método TM, se exime de rigores científicos e outros atributos dos métodos de pesquisa. É fruto da errância de uma memória específica, minha “ilha de edição” (ideia de Wally Salomão). A manufatura deste Método é arte de Exu, é exuzilhamento que não cabe em moldes, em procedimentos padronizados e replicáveis. Em 2014 escrevi uma crônica sobre a relação de aprendizado e também de gratidão a Sueli no livro “Baú de miudezas, sol e chuva”. Naquela oportunidade, discorri pela primeira vez, em público, sobre o Método SC. Ela gostou do texto, e disse: “eu sou aquilo ali mesmo”, ajuizou. Me animei, afinal, eu a conhecia. Fiquei muito feliz por ter concluído e publicado esse livro. Trata-se do meu livro mais importante, até o momento.

Como Sueli recepcionou o livro?

Olha, acho que houve três estágios de recepção: no primeiro, quando eu dizia que estava fazendo o livro, ela me incentivava e depois passou a me cobrar porque dizia que eu estava demorando muito, isso foi de 2018 até 2024. No momento de recepção do livro pronto, em junho de 2025, quando fui até a casa dela entregar um exemplar e ela o folheou e tal, mostrou-se emocionada e agradecida. Depois de ter lido o livro que ela nunca admitiu ter lido integralmente, fez duas ou três críticas de coisas que ela considera que “se ela ensinou mesmo, eu não aprendi direito” e a mim não emitiu outras opiniões sobre o livro em si, passou a tratá-lo de maneira evasiva. Acho que isso tem muito a ver com uma característica forte dela, a de não gostar de cultos a personalidades e nem insuflá-los.

Você afirma no livro como é bem-vinda às casas de Sueli. Que passos da sua vida foram fundamentais para esse assentamento?

A honestidade e ética, nossa relação é muito franca e eu a honro, não faço nada que a leve a se envergonhar de mim.

Em uma das lições, você menciona uma história sobre sua entrevista a um emprego na ONU e finaliza aventando cenários sobre as reações de Sueli ao ler. Como foi? Afinal, ligaram para ela ou não?

Ela não me disse nada, o que talvez indique a correção da minha hipótese. Se fosse de todo descabida e se ela tiver lido essa parte (não sei se leu), me chamaria de idiota e pronto. Não chamou. Eu também não puxei esse assunto numa conversa ao vivo, eu disse no livro, se ela quisesse conversar, falaria sobre isso. Não falou, até hoje, não.

Que conselho você daria para uma jovem militante?

Leia meu livro e bora aprender com Sueli Carneiro.

Qual o seu sonho?

Poder dedicar a maior parte do meu dia, os períodos mais qualitativos do dia, aos meus projetos de escrita.

*Camila Marins é jornalista, mestre em políticas públicas em direitos humanos pela UFRJ e editora da Revista Brejeiras (@camilam

Editado por: Vivian Virissimo

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