O encontro entre o líder da região de Taiwan, Lai Ching-te, e uma delegação de mais de 200 representantes do Comitê Estadunidense de Assuntos Públicos Israelenses (AIPAC, na sigla em inglês), expõe as dificuldades da ilha em estabelecer vínculos com a administração Trump e danifica reputação internacional, é o que avalia Shen Yi, professor da Escola de Relações Internacionais e Assuntos Públicos da Universidade de Fudan.
“Este evento deve ser visto como parte de uma série de movimentos de Lai Ching-te e outros separatistas que consideram os Estados Unidos como seu principal apoiador na busca pela ‘independência de Taiwan'”, afirmou Shen Yi em entrevista ao Brasil de Fato, sobre o jantar oferecido por um dos principais órgãos do lobby sionista, em 27 de outubro em Taipei.
O especialista em relações internacionais avalia que, sob forte pressão da China continental e sem conseguir vínculos significativos com o presidente Donald Trump, as autoridades da ilha buscam intermediários. “Eles acreditam que podem usar a influência do grupo de lobby pró-Israel em Washington para construir uma conexão com Trump”, disse.
Mas a estratégia pode ter o efeito contrário. “A julgar pela reação nas redes sociais, o encontro prejudicou ainda mais a reputação de Lai”, observou. “Muitos usuários online comentaram [sobre o encontro] ‘Uma Só China‘. Por quê? Porque a imagem internacional de Israel é atualmente muito negativa; está sendo vista como perpetradora de massacres, violações de direitos humanos e crimes de guerra”, disse Shen Yi.
“Visitas pagas” e a aceleração do processo de reunificação
O professor Shen Yi comparou a visita da AIPAC a episódios anteriores, como a viagem da então presidente da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, Nancy Pelosi, a Taiwan em 2022. “Relatórios públicos revelaram que sua visita foi financiada por organizações de lobby com sede em Taiwan, que atuam nos EUA”, afirmou.
Segundo Shen Yi, tais gestos trazem pouco benefício substantivo para as autoridades da ilha e servem principalmente como “consolação para o campo pró-independência”.
“Essas provocações só levam a um resultado: a China continental acelerará o processo de reunificação nacional”, concluiu Shen Yi. “Em dois ou três anos, ou no máximo dentro de cinco, vocês testemunharão ações importantes e mudanças significativas”, anunciou o especialista.
A posição da República Popular da China é a defesa da reunificação pacífica, mas tem reafirmado que não renuncia ao uso da força e que se reserva o direito de tomar todas as medidas necessárias contra atividades separatistas e interferência externa.
Anúncios visam escalada
Durante o jantar de gala, Lai Ching-te anunciou planos de aumentar o orçamento de defesa dos atuais 3,32% previstos para 2026 para 5% do PIB até 2030.
Ele também afirmou que, inspirado no Domo de Ferro de Israel, e no Domo de Ouro anunciado por Donald Trump este ano, Taiwan instalaria um sistema de defesa aérea chamado de Domo-T. “A determinação e capacidade de Israel para defender seu território fornece um modelo valioso para Taiwan”, afirmou Lai durante o evento.
Sobre a AIPAC
No papel, a AIPAC é uma organização sem fins lucrativos. Foi fundada em 1954 e opera através de quatro estruturas: a AIPAC em si, focada em lobby no Congresso estadunidense; o AIPAC PAC, seu Comitê de Ação Política que contribui diretamente para candidatos pró-Israel; o Projeto Democracia Unida (UDP, na sigla em inglês), um “Super PAC”, figura que tem permitido arrecadar e gastar valores ilimitados em campanhas eleitorais; e a American Israel Education Foundation (AIEF), braço educacional que organiza viagens de congressistas e assessores a Israel.
O atual candidato a prefeito de Nova Iorque, a maior cidade dos EUA, Zohran Mamdani, tem sido crítico de esquemas de megadoações políticas como o Super Pac. “Eles estão gastando mais do que eu lhes cobraria em impostos”, disse Mamdani recentemente sobre os financiadores de seu oponente, também do Partido Democrata, Andrew Cuomo.
Como organização 501(c)(4) (um número de registro para entidades na Receita Federal dos EUA), a AIPAC não é obrigada por lei a divulgar eventuais doadores a campanhas políticas, já que esse código é para organizações de assistência social isentas de impostos.
Segundo a organização AIPAC Tracker (uma entidade dedicada a monitorar e promover transparência sobre as atividades da AIPAC), o comitê funciona como “braço não oficial de Israel em Washington”. O AIPAC Tracker argumenta que a organização deveria estar sob a alçada da Lei de Registro de Agentes Estrangeiros (FARA), que exige que qualquer pessoa atuando como “agente de um principal estrangeiro” se registre no Departamento de Justiça.
A organização crítica o fato de que a AIPAC mantém escritório em Jerusalém desde 1982, financia viagens frequentes de legisladores à Palestina ocupada, e alinha sistematicamente a política estadunidense com a agenda israelense, incluindo o apoio a legislações anti-BDS (Boicote, Desinvestimentos e Sanções).
Chegada de Lai Ching-te acirrou problemas com China continental
Embora Pequim não tenha emitido declaração específica sobre o encontro com a AIPAC, o Escritório de Assuntos de Taiwan do Conselho de Estado da China tem mantido críticas constantes às ações das autoridades da ilha, que assumiram em maio do ano passado e pertencem ao o Partido Democrático Progressista (PDP).
Em coletiva de imprensa recente, o novo porta-voz desse escritório, Peng Qing’en, afirmou que “a causa raiz da atual situação complexa através do Estreito é a recusa das autoridades de Lai em reconhecer o Consenso de 1992, que incorpora o princípio de uma só China”.
Peng citou relatório do centro de estudos estadunidense RAND Corporation que alertou Washington a não permitir que as autoridades taiwanesas tomem medidas provocativas sob o pretexto de apoio dos Estados Unidos. “Mais pessoas na comunidade internacional estão reconhecendo que Lai é um criador de problemas e um sabotador da paz”, citou o porta-voz.
