Nas eleições locais finalizadas nesta terça-feira (4) nos Estados Unidos, candidatos do Partido Democrata conquistaram vitórias importantes em estados-chave, o que alguns analistas vêm chamando de “onda azul”. É o que explica Marcos Sorrilha, professor de História das Américas na Universidade Estadual Paulista (Unesp), em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato. Segundo ele, “aconteceu o que os americanos chamam de ‘blue wave’, uma onda azul, a cor do Partido Democrata; o vermelho é a cor do Partido Republicano.”
Entre os resultados mais relevantes, Sorrilha destaca a eleição de Abigail Spanberger na Virgínia e de Mikie Sherrill em Nova Jersey, onde as pesquisas apontavam disputas acirradas para as novas governadoras. “Nos dois cenários, as pesquisas apontavam para eleições acirradas, o que não aconteceu. Na Virgínia, os democratas expandiram a vantagem que eles tinham na Câmara dos Deputados, então foi algo surpreendente”, observou.
Outro ponto decisivo foi a aprovação da Proposição 50, na Califórnia, que muda o sistema de zoneamento eleitoral em resposta à ofensiva republicana em estados conservadores. Para Sorrilha, o resultado tem um peso nacional. “A vitória dessa proposição dá força para que [o governador] Gavin Newsom, de fato, se lance candidato [à presidência] em 2028”, indicou.
Nova York com Zohran Mamdani
Já eleição do progressista Zohran Mamdani para a Prefeitura de Nova York marca um avanço da ala ligada a figuras como o senador Bernie Sanders e a deputada Alexandria Ocasio-Cortez. Segundo Sorrilha, essa renovação acontece dentro dos próprios quadros partidários. “Nós temos, de fato, uma ala mais progressista que representam essa necessidade de mais reformas, fugir um pouco desse perfil mais de centro, alinhado com os interesses financeiros”, analisou.
Mamdani defende o congelamento dos aluguéis, o transporte público gratuito e o aumento de impostos sobre bilionários e grandes corporações. Mas, segundo o professor, há obstáculos. “O município não pode criar essas taxas por conta própria e boa parte do transporte é metropolitano. Ele vai ter que garantir que essas leis sejam aprovadas pela Câmara dos Deputados do Estado de Nova York”, explicou.
O perfil jovem e imigrante do novo prefeito também cria um embate direto com o presidente Donald Trump, especialmente por ocorrer na sua cidade natal. “Ele é um muçulmano, vindo de outro país. Tudo isso acaba incorporando um discurso de rivalidade”, avaliou Sorrilha. Para ele, Mamdani “pode ser alguém que traga um certo conforto para essas minorias” que voltaram a se aproximar do Partido Democrata nesta eleição.
Por outro lado, o professor faz um alerta: o fenômeno não é automaticamente reproduzível em todo o país. “Mandani é alguém que traz novas ideias, é um novo rosto, mas os Estados Unidos são uma realidade bastante diversa”, ponderou Sorrilha.
Abigail Spanberger na Virgínia
Enquanto Mamdani simboliza uma renovação progressista, Abigail Spanberger representa outro movimento, indica Sorrilha: uma candidatura de centro que dialoga diretamente com o cotidiano da população. “Ela possui mais afeição do mainstream do partido. Soube abordar as temáticas relacionadas ao custo de vida, o que eles chamam de basics”, apontou.
Para o professor, “o partido ficou extremamente feliz com a vitória da Abigail porque ela representa um candidato mais ao seu feitio, mais à sua imagem e semelhança, apostando numa postura centrista, mas uma pauta que dialoga com as necessidades básicas do trabalhador.”
No geral, ele vê que essas eleições recolocam temas como custo de vida, moradia e distribuição de renda no centro do debate político, pressionando o Partido Democrata a se reposicionar diante de um cenário de polarização crescente no país.
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