Sentem na pele

‘Para alguns é teoria, para nós é vida real’: países em desenvolvimento cobram ação rápida na Cúpula do Clima

Expostas aos eventos extremos, nações insulares têm discursos contundentes no encontro de líderes antes da COP30

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'Não estamos no caminho certo para limitar o aquecimento a 1,5 °C', diz presidente do Palau, Surangel Whipps Jr.
‘Não estamos no caminho certo para limitar o aquecimento a 1,5 °C’, diz presidente do Palau, Surangel Whipps Jr. | Crédito: Isabel B./COP30

No segundo e último dia da Cúpula do Clima, encontro que antecede a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), líderes e representantes dos integrantes da Aosis (Associação dos Pequenos Países-Ilha), todos eles em desenvolvimento, usaram o espaço para cobrar ação rápida na contenção da crise climática.

Nas falas, os representantes dos governos lembraram que, nesses países, as populações já sofrem com os diversos eventos climáticos extremos, embora nenhuma dessas nações ocupe o topo da lista dos grandes emissores de gases do efeito estufa.

“O aumento do nível do mar, a erosão costeira, inundações, destruição da infraestrutura primária e insegurança alimentar são reais, afetam seriamente a nossa população e minam o desenvolvimento sustentável e o futuro das gerações atuais”, declarou Ilza Maria dos Santos Amado Vaz, ministra dos Negócios Estrangeiros, Cooperação e Comunidade de São Tomé e Príncipe, na África Central. “O que para alguns é teoria científica, para nós é vida real”, disse.

A Aosis é formada por 39 nações insulares espalhadas pelos oceanos Pacífico, Atlântico e Índico. Algumas dessas regiões correm risco de desaparecer ou perder parte dos seus territórios devido ao aumento do nível do mar. É o caso de Tuvalu, onde as águas do Pacífico avançam e ameaçam a moradia dos cerca de 11 mil habitantes do país.

Nesse cenário alarmante, em 2021, o então ministro da Justiça, Comunicação e Relações Exteriores de Tuvalu, Simon Kofe, fez, de dentro do mar, um discurso para a COP26. Agora, na véspera da COP30, o apelo se repete.

“O meu país e o meu povo nas futuras gerações não podem continuar a sofrer o impacto das mudanças climáticas enquanto os principais emissores mundiais acreditam que podem continuar a poluir a atmosfera com total imunidade”, declarou Maina Vakafta Talia, ministro dos Assuntos Internos, Mudança Climática e Meio Ambiente de Tuvalu. “Isto é imoral e inaceitável”, disse o representante do pequeno país.

Se os efeitos da crise climática não forem contidos ou revertidos, Tuvalu será o primeiro país a desaparecer. Além de perder as terras, os habitantes daquele lugar perderão parte da sua história e cultura.

“O nosso futuro depende do relatório de síntese dos NDC [Contribuições Nacionalmente Determinadas] de 2025. E sabemos que ele mostra claramente que não estamos no caminho certo para limitar o aquecimento a 1,5 °C”, lamentou Surangel Whipps Jr., presidente do Palau, outro integrante da Aosis.

Em sessão sobre o Acordo de Paris, realizada nesta sexta-feira na Cúpula do Clima, o presidente Lula alertou para o risco de que os países não alcancem as metas do Acordo de Paris e o aquecimento global supere os 2ºC nos próximos anos. “O planeta ainda caminha para um aquecimento de cerca de 2,5ºC”, disse Lula.

“Depositamos a nossa fé no Acordo de Paris há 10 anos e trabalhamos incansavelmente para cumprir o seu compromisso”, declarou o ministro de Relações Exteriores das Ilhas Marshall, Kalani Kaneko, outro integrante dos Aosis.

O ministro destacou que, embora o país esteja longe de ocupar o topo da lista de maiores poluidores globais, o governo está comprometido com as metas climáticas. “As Ilhas Marshall entregaram a NDC em fevereiro. E submetemos o nosso plano nacional de adaptação há dois anos”, disse.

Para o presidente do Palau, a meta é construir um futuro “onde as nossas ilhas não são símbolos que afundam, mas faróis que se elevam de inovação, justiça climática e esperança”.

Crítica direta aos Estados Unidos

Em uma das falas mais incisivas do dia, Maina Talia, do Tuvalu, apontou a falta de comprometimento dos Estados Unidos com a contenção da crise climática.

“De forma previsível, o maior emissor histórico mundial de gases de efeito estufa se retirou do Acordo de Paris”, disse, sobre a decisão de Donald Trump de deixar o tratado. “Eu estava na Assembleia Geral da ONU quando o presidente Trump dedicou uma quantidade considerável de seu discurso a todos os líderes, desencorajando fontes de energia renovável e desafiando o consenso científico sobre as mudanças climáticas”, disse, sobre a reunião realizada em setembro de 2025.

O ministro das Relações Exteriores das Ilhas Marshall, Kalani Kaneko, lembrou da devastação do seu país causada pelos Estados Unidos, com testes de bombas nucleares realizados na região em 1954. “Muitos dos meus povos já demonstraram uma tremenda resiliência. Quando os Estados Unidos explodiram 67 bombas nucleares sobre as Ilhas Marshall, fomos subitamente atingidos”, disse, em seu discurso na Cúpula do Clima. “Casas envenenadas, aumento de casos de câncer, comunidades vivendo no exílio. No entanto, nós resistimos. A luta contra as mudanças climáticas é uma luta para garantir que a história não se repita”, disse.

Editado por: Maria Teresa Cruz

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