Um gabinete de governo sem a presença de nenhum representante indígena e o reestabelecimento de relações próximas com os Estados Unidos foram as primeiras medidas adotadas pelo novo presidente da Bolívia, Rodrigo Paz. A reaproximação com Washington vem sendo criticada no país pela possibilidade de, alegando combater o narcotráfico, ocorrer a criminalização de territórios bolivianos redutos de rivais políticos de Paz.
“É uma aproximação péssima porque já estão falando de trazer de volta a DEA [a agência anti-drogas dos Estados Unidos, na sigla em inglês], o que é problemático por ser uma tentativa de criminalizar toda uma região boliviana”, disse ao Jobana Moya, integrante do Comitê Brasileiro de Solidariedade ao Povo Boliviano, se referindo ao estado de Chapare, no centro do país, região produtora da folha de coca.
Ao Brasil de Fato, ela argumenta que Chapare é reduto político do ex-presidente Evo Morales, adversário político da atual administração. E que a folha de coca é elemento tradicional da cultura do país, muito antes de ser matéria prima cobiçada pelas narinas de estadunidenses, que a consomem na forma de cocaína.
“A folha de coca é sagrada para nós, tem conotação espiritual, religiosa e usos medicinais. . É preocupante porque o discurso que vem dos EUA é reproduzido pela imprensa tradicional e muitos na Bolívia acreditam que na região só tem narcotraficantes, o que não é verdade, Além disso, em Chapare se produz muita fruta e piscicultura, por exemplo.”
Potencial de instabilidade
Nesta segunda-feira (10), o subsecretário de Estados dos EUA, Cristopher Landau, disse que seu país já está ajudando economicamente a Bolívia a comprar combustível e medicamentos. A Bolívia havia rompido relações com Washington em 2008, quando o então presidente Evo Morales expulsou o embaixador estadunidense no país após a descoberta de um complô da direita.
A vitória do direitista Paz representa uma mudança drástica na política externa boliviana, após o domínio do Movimento ao Socialismo (MAS), liderado por Evo Morales – no poder entre 2006 e 2019 – e depois por seu sucessor, Luis Arce.
Moya diz não acreditar que o novo governo permaneça politicamente estável por muito tempo, dada as diferenças entre o presidente e seu vice, Edman Lara. Ex-policial com forte presença em redes sociais, sua entrada foi fundamental para a consolidação da chapa, mas os dois não parecem viver em grande harmonia. Após o primeiro turno presidencial, e, setembro, Lara declarou que “eu sou a garantia. Se Rodrigo Paz não cumprir, eu o confrontarei”, disse Lara.
“Paz chega ao poder com o voto maciço em Lara, mas dava para ver que as propostas dos dois não são convergentes, são diferentes”, afirma ela.
Mensagem anti-indígena
No dia da posse, domingo (9), Rodrigo Paz, nomeou seu gabinete, no qual não estão representados os setores indígenas e populares que foram protagonistas nos últimos 20 anos de governos socialistas. As gestões de Evo Morales (2006-2019) e Luis Arce (2020-2025) se caracterizaram por nomear dirigentes camponeses como ministros.
Segundo o último censo de 2024, 38,7% dos 11,3 milhões de habitantes da Bolívia são indígenas, principalmente quéchuas e aimarás. Mas Paz colocou em ministérios-chave colaboradores vinculados à atividade privada e tecnocratas: José Luis Lupo (Presidência), Fernando Aramayo (Chancelaria), Marco Antonio Oviedo (Governo), Gabriel Espinoza (Economia) e Mauricio Medinacelli (Hidrocarbonetos e Energia).

“É um momento de dar espaço à meritocracia, à eficiência, à transformação do Estado para prestar serviço ao povo”, disse ele, tentando justificar a medida. A posse também marcou diferenças em relação aos governos de Morales e Arce. A juramentação foi feita diante de uma Bíblia e um crucifixo, que foram substituídos por símbolos indígenas durante os mandatos do MAS.
O novo mandatário também optou por retirar a bandeira multicolor “wiphala”, que representa os povos indígenas e, em particular, os aimarás, da fachada do palácio de governo,
“Acredito que Paz esteja sinalizando que deseja retroceder ao que a Bolívia era antes da entrada de Evo Morales, que levou os indígenas ao poder, valorizou saberes, deu mais espaço horizontal para organizações políticas. Paz parece querer apagar tudo o que Evo representa”, diz Jobana Moya. As medidas do novo presidente também foram criticadas por Morales.
“Retirá-la [a wiphala] do Palácio é uma ofensa ao movimento indígena originário camponês e uma tentativa de apagar a memória coletiva. De um Estado de inclusão passamos a um de exclusão”, afirmou Morales em X.
O ex-presidente se encontra desde 2024 em Chapare devido a uma ordem de captura em um caso de tráfico de menores que ele nega.
