Após a suspensão, em 5 de novembro, do retorno à Terra de três astronautas chineses em missão espacial, a Agência de Engenharia Espacial Tripulada da China (AEETC) reforçou que equipes terrestres estão realizando testes de segurança.
A interrupção do retorno da missão Shenzhou-20 ocorreu devido ao risco de avaria na aeronave, causado por um fragmento de detrito orbital. A tripulação estava programada para regressar quatro dias após a chegada da nova equipe da Shenzhou-21 à estação espacial Tiangong, seguindo o protocolo padrão de rotação.
A AEETC informou ainda que a estação espacial tem capacidade suficiente para abrigar as duas tripulações simultaneamente. Durante o período estendido, os seis astronautas estão trabalhando em conjunto nas pesquisas científicas em andamento na Tiangong.
Programa Shenzhou: de Yang Liwei à operação permanente
O programa Shenzhou marcou a história espacial chinesa em 15 de outubro de 2003, quando a missão Shenzhou-5 levou Yang Liwei ao espaço, tornando a China o terceiro país a enviar um humano ao espaço de forma independente, após União Soviética e Estados Unidos. Yang permaneceu em órbita durante 21 horas, completando 14 voltas ao redor da Terra.
Atualmente vice-chefe designer do Programa Espacial Tripulado da China, Yang Liwei disse em entrevista ao Brasil de Fato em abril de 2024 que o rápido desenvolvimento aeroespacial chinês se deve, em parte, à “vantagem dos recém-chegados”, conceito que se refere à possibilidade de modernização mediante importação de tecnologias existentes, reduzindo custos em pesquisa e desenvolvimento.

Pesquisas científicas na Tiangong
Na estação espacial Tiangong, os taikonautas, como são chamados os astronautas chineses, conduzem pesquisas em ciências da vida, física de microgravidade, astronomia espacial e desenvolvimento de novas tecnologias, segundo informações da agência de notícias Xinhua.
Entre os projetos em andamento estão estudos sobre desenvolvimento de mamíferos no espaço, comportamento de materiais em microgravidade, combustão em ambiente espacial e detecção de raios cósmicos de alta energia. As tripulações também realizam cerca de 90 experimentos em áreas que vão da medicina à física, além de tarefas de manutenção e reforço da proteção contra resíduos espaciais.
Do banimento da ISS à estação própria
A China iniciou a construção da sua estação espacial Tiangong em órbita em 2021, com o lançamento do módulo central Tianhe. Este marco foi o culminar de uma estratégia espacial independente, adotada após a sua exclusão do programa da Estação Espacial Internacional (ISS) na década de 1990, uma decisão política liderada pelos Estados Unidos. Esta exclusão foi posteriormente codificada em lei estadunidense em 2011 através da Emenda Wolf, que proibiu oficialmente a cooperação bilateral entre a Nasa e o governo chinês.
A criação de uma estação espacial própria era a terceira fase do Projeto 921, que estabeleceu em 1992 o Programa Espacial Tripulado da China. A primeira fase previa o envio da primeira missão tripulada ao espaço, concretizada em 2003 com Yang Liwei. A segunda fase focou em avanços na tecnologia de atividade extraveicular e no acoplamento de veículos espaciais.
A estação alcançou sua configuração básica em forma de “T” durante a missão Shenzhou-14 (2022), quando os módulos Wentian e Mengtian foram acoplados ao módulo central Tianhe. Desde então, a Tiangong mantém tripulação permanente com missões semestrais.
Principais marcos do programa e metas gerais
Segundo o Jornal de Divulgação Científica chinês (Kēpǔ Shíbào), o programa registra outros marcos significativos: a primeira caminhada espacial chinesa realizada por Zhai Zhigang (Shenzhou-7, 2008), a primeira aula espacial em tempo real ministrada pela taikonauta Wang Yaping (Shenzhou-10, 2013) e a primeira rotação de tripulações em órbita (Shenzhou-15, 2022).
A missão Shenzhou-13 (2021) estabeleceu recorde de permanência de seis meses no espaço com a tripulação verificando tecnologias-chave para a operação da estação.
Em 2024, a China realizou feito inédito ao enviar a sonda Chang’e-6 ao lado oculto da Lua, que retornou à Terra com 1.935 gramas de amostras lunares. Parte dessas amostras foi oferecida à comunidade científica internacional.
Ironicamente, em novembro de 2024, o Congresso estadunidense propôs a primeira exceção à Emenda Wolf, autorizando a NASA a estudar as amostras lunares coletadas pela missão Chang’e-5.
Wu Weiren, membro do Comitê Permanente da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês e principal idealizador do programa de exploração lunar chinês, revelou em março de 2022 que a quarta fase do programa de exploração lunar da China planeja realizar múltiplos pousos no polo sul lunar antes de 2030, com as missões Chang’e-6, Chang’e-7 e Chang’e-8. O objetivo é construir um modelo básico de uma Estação Internacional de Pesquisa Lunar no polo sul lunar até 2035.
Segundo Wu, a China planeja alcançar a exploração da periferia do sistema solar até 2049, realizando missão de retorno de amostras de Marte antes de 2030 e atingindo a marca de 100 unidades astronômicas, equivalente a 15 bilhões de quilômetros de distância da Terra.
*Com informações da Xinhua e Diário de Ciência e Tecnologia.
