“Os vizinhos contaram que eles começaram a gritar pedindo socorro, disseram que estavam desarmados. Eles pediram para não morrer. Meu filho levou cinco tiros.” Esse é o relato de Rosenilde Costa, que perdeu o filho no dia 12 de abril deste ano após uma operação policial em Águas Lindas, cidade localizada no estado do Goiás.
Por volta das 16h daquele dia, os jovens Vítor Hugo Martins de Melo, Edson dos Santos Guedes e Pedro Henrique Costa de Araújo estavam em um apartamento quando a Companhia de Policiamento Especializado (CPE) da Polícia Militar chegou ao imóvel para uma ação que resultou na morte dos rapazes.
A corporação afirma que as vítimas reagiram em um confronto armado e que houve troca de tiros. Quase sete meses depois do assassinato, as famílias dos jovens seguem sem respostas. Na segunda-feira (10), o deputado estadual Mauro Rubem (PT) protocolou no Ministério Público do Goiás (MPGO) um pedido de denúncia formal.
A manifestação enviada ao órgão, ao qual o Brasil de Fato DF teve acesso, rebate a tese de confronto da Polícia Militar e sustenta que “houve execução, omissão médica deliberada, falsidade documental e violação da cadeia de custódia”. O documento aponta que as provas coletadas revelam um cenário incompatível com confronto armado: “não há vestígios de disparo nas mãos das vítimas”.
“Além disso, todas as trajetórias dos projéteis são posteriores e descendentes, o que demonstra que os disparos foram efetuados pelas costas e de cima para baixo, sobre pessoas já em posição de submissão”, diz um trecho.
Segundo o deputado Rubem, as famílias ainda clamam por justiça. “O Estado não pode ser conivente com execuções praticadas por quem deveria zelar pela segurança da população. O que buscamos não são versões ou conveniências, e sim a verdade real, que é o que dá sentido à Justiça e legitimidade às instituições. A verdade não enfraquece o Estado; ela o purifica. É o que separa a legalidade da arbitrariedade e mantém viva a confiança da sociedade nas suas instituições”, afirma.

No requerimento ao MPGO, o deputado também cita testemunhas do caso. Uma delas confirmou que “as vítimas imploravam para não serem mortas” antes dos disparos. Segundo a versão dos policiais, os três feridos foram a óbito no hospital. No entanto, esse contexto também apresenta contradições.
Em um primeiro momento é mencionado que houve tentativa de reanimação, em outro, prontuários médicos elaborados no mesmo turno e assinados pelo mesmo profissional afirmam que os jovens já chegaram mortos, sem qualquer menção às manobras médicas.
Também são apontados outras incongruências no curso da investigação, como a insuficiência nos laudos cadavéricos, divergência balística e contradições entre as versões policiais e falsidade documental. Além do pedido de denúncia, o parlamentar solicitou oitiva protegida de testemunhas, perícia complementar e balística, e perícia integral no celular das vítimas.
Ao Brasil de Fato DF, a assessoria de imprensa do MPGO afirmou que as investigações do caso avançaram, mas as “informações não podem ser repassadas porque o procedimento tramita em sigilo”.
Letalidade policial no Goiás
Segundo dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2024, o Goiás registrou 517 mortes por intervenção policial. Em relação a 2023, houve uma diminuição de 4,1%. No entanto, o estado é o quarto em número absoluto de mortes por ações policiais, ficando atrás apenas da Bahia (1.699), Rio de Janeiro (871) e Pará (525).
Em termos proporcionais, o cenário é ainda mais alarmante: 32,2% de todas as Mortes Violentas Intencionais (MVIs) registradas no estado em 2023 foram causadas por intervenções policiais. Esse percentual coloca Goiás entre os três estados onde 1 em cada 3 mortes violentas foi causada pela polícia, junto com Sergipe (33,3%) e Amapá (33,7%).
Mães pela Paz
Na última sexta-feira (7), uma carta do coletivo Mães Pela Paz do Estado de Goiás enviada ao MPGO denunciou a letalidade policial na região. No texto assinado por mais de 100 mães, o grupo afirma que tem trabalhado no diálogo para a implantação de câmeras nas fardas dos policiais há alguns anos para garantir transparência nas operações policiais.
O coletivo também pede justiça pelas execuções sumárias ocorridas em Águas Lindas neste ano. “Queremos que esses policiais sejam punidos de alguma forma, que entrem em um tribunal e vão a julgamento, porque o que eles fizeram não foi só destruir três vidas. Por trás desses jovens que eles executaram, existem três mães e existem três famílias. Hoje convivemos com a dor da perda”, desabafa a mãe de uma das vítimas, Rosenilde Costa.
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*Atualizada 9h40 no dia 12 de novembro com a resposta do MPGO.

