Homenagem

Rapper Emicida ganha título de Doutor Honoris Causa da Ufrgs pelo seu som e sua trajetória de impacto social

Com 40 anos, artista tem carreira movimentada atuando em várias frentes, sempre com foco nas questões das periferias

AmarElo, de Emicida, é um disco que convence em sua afirmação mais desafiadora, que fica como mantra e compromisso: “Este ano eu não morro"
AmarElo, de Emicida, é um disco que convence em sua afirmação mais desafiadora, que fica como mantra e compromisso: “Este ano eu não morro” | Crédito: Foto: Mídia Ninja

O quarentão paulista Leandro Roque de Oliveira nascido no dia 17 de agosto de 1985 veio de família pobre, filho de Dona Jacira. Trabalhou muito, botou a cabeça para funcionar, escolheu bem as parcerias e agora está se tornando Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), um dos mais jovens a receber o título. A decisão foi do Conselho Universitário. Quase ninguém o conhece por Leandro. Ele é simplesmente Emicida, rapper, cantor e compositor, um dos maiores em popularidade Brasil afora. A entrega do título será no dia 29 de novembro, um sábado ao final da tarde.

Afinal, por que Emicida? Onde surgiu este nome? O artista começou a escrever rimas ainda na adolescência. Em 2006, venceu a primeira edição da Batalha do Santa Cruz, tradicional evento do hip hop paulistano, que revelou diversos MCs. Foi ali que recebeu o nome artístico Emicida – uma junção entre “MC”, que significa mestre de cerimônias, apresentador, e o sufixo “cida”, um neologismo que simboliza o poder da palavra como arma de transformação e resistência.

A Ufrgs alega que a homenagem a Emicida no mês da Consciência Negra é um reconhecimento ao trabalho e a trajetória do artista. Diz que o artista ultrapassa as fronteiras da música e que o seu trabalho e trajetória configuram um projeto intelectual, educativo e de impacto social, especialmente relevante para a juventude negra e periférica. O Parecer n. 248/2025 da Ufrgs destacou ainda a obra de Emicida como expressão de uma pedagogia contemporânea, que inspira o debate público sobre a luta antirracista na universidade e se consolida como referência de pesquisa acadêmica em diferentes áreas do conhecimento.

Considerado uma das maiores revelações do hip hop do Brasil a partir dos anos 2000, a homenagem nasceu de uma proposta pelo Coletivo de Estudantes Negros da Pedagogia (Cenp), em parceria com o projeto Ufrgs Negra, Movimento Negro Unificado (MNU) no RS e o Diretório Central de Estudantes (DCE), sendo encaminhada ao Consun pela Faculdade de Educação (Faced). No Parecer 248 ressaltam-se a potência transformadora da cultura hip hop, a legitimidade dos saberes produzidos na diáspora africana no Brasil e o papel fundamental da juventude negra e periférica na construção de um país mais justo. Dezenas de pesquisas acadêmicas (entre teses, dissertações e trabalhos de conclusão de curso) têm Emicida e sua produção poética como objeto de estudo. Na própria Ufrgs, a cultura hip hop é tema recorrente em ações de ensino, pesquisa e extensão, com diversos trabalhos de graduação dedicados à obra do músico.

Em 2023, por exemplo, no bacharelado em História foi apresentado um trabalho de conclusão intitulado Tudo que nóiz tem é nóiz: rap como construção de identidade coletiva negra em Amarelo, de Emicida, reforçando o reconhecimento de suas criações artísticas como campo fértil de reflexão sobre identidade, cultura e educação.

Carreira

O rapper fez suas primeiras composições gravadas a partir de 2005, quando lançou sua primeira faixa na internet, Contraditório Vagabundo. Em 2008, lançou o single Triunfo, publicado junto ao videoclipe que após 10 anos de sua publicação possuía mais de 10 milhões de visualizações nas redes. Em 2009, apresentou a sua primeira mixtape (ferramenta de promoção para artistas que buscam experimentar novos sons), chamada Pra quem já Mordeu um Cachorro por Comida, até que eu Cheguei Longe. O álbum possui 25 faixas do início de sua carreira. Em 2011, apresentou no seu canal do Youtube o clipe da música Então Toma, vista como uma resposta à música citada antes.

Emicida vendeu cerca de treze mil cópias do disco no “boca-a-boca. A sua carreira foi só sucesso e o seu público sempre aumentando. O artista foi indicado ao Video Music Brasil 2009, prêmio musical brasileiro organizado pela MTV, onde concorreu nas categorias “Melhor Grupo/Artista de Rap”, “Aposta MTV” e “Videoclipe do Ano”, com Triunfo, mas acabou derrotado por MV Bill, Vivendo do Ócio e Sutilmente, de Skank, respectivamente.

No ano seguinte, Emicida lançou o segundo single da sua carreira, intitulado Avua Besouro, incluído na sua segunda mixtape. No fim de janeiro do mesmo ano, veio o seu segundo trabalho, o EP Sua Mina Ouve Meu Rap Também, com referência para a canção Sua Mina Ouve Meu Rap Também, de MC Marechal, com quem mantém afiliações.

Ainda em 2010, Emicida gravou seu terceiro single, com o título de Emicídio, música essa que relata sobre as dificuldades que o Rapper encontrou para chegar onde está. Junto com a canção foi anunciado através do MySpace o lançamento de sua segunda mixtape para 15 de setembro, intitulada Emicídio.

Na edição de 2011 do Rock in Rio, na cidade do, Emicida subiu duas vezes aos palcos do evento, participando do show da banda NX Zero na canção Só Rezo 0.2 e de espetáculo com a banda Cidade Negra e o sambista Martinho da Vila. Foi também da TV Cultura, onde ingressou no elenco do programa Manos e Minas, como repórter, entrevistando diversas celebridades do mundo musical. Realizando diversas apresentações pelo Brasil, Emicida foi convidado a participar da Virada Cultural de 2010, onde se apresentou junto com Ellen Oléria e foi considerado um dos destaques do evento, ao lado de Mallu Magalhães.

Reforma agrária na música

Emicida concorreu ao Video Music Brasil 2011 em 3 categorias: “Hit do ano”, “Clipe”, e “Artista do ano”. Nesse ano a MTV inovou na escolha dos ganhadores, deixando os votos para críticos musicais, cineastas e VJ’s. Sendo assim, não poderia ser diferente, Emicida teve seu talento reconhecido e faturou clipe do ano Então Toma, e artista do ano. Nas palavras do rapper: “Estamos promovendo uma reforma agrária na música brasileira”.

Participou também de diversos álbuns. O primeiro foi Doozicabra. Seguiram-se outros trabalhos em videogames, clipes, singles e no seu canal na internet. No ano de 2013, seu álbum O Glorioso Retorno De Quem Nunca Esteve Aqui, diferente dos anteriores que eram mixtapes. Esse é o primeiro álbum de estúdio do Emicida, que lhe rendeu o prêmio de disco do ano pela revista Rolling Stone.

Viajou para a África para aprender novos ritmos e inspirações em 2015. A partir daí também gravou clipes com críticas ao racismo e injustiças sociais, abusos contra empregadas domesticas, violência policial. Também lançou o segundo álbum de estúdio Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa. Entre tantas outras coisas da sua agitada carreira participou da trilha sonora do filme O menino e o mundo, lançou marca de roupas, gravou DVDs, escreveu livros infantis, entre eles Amora com a sua filha, realizou o seu maior projeto AmarElo, de natureza social, gravado no Complexo do Alemão com moradores da região. Apresentou também o documentário AmarElo – É tudo para Ontem no streaming Netflix, contando a história do negro, do samba e do rap no Brasil.

Vida pessoal

Emicida cresceu com uma vida simples no bairro Jardim Cachoeira, na Zona Norte paulistana. O rapper é filho de Dona Jacira e tem duas irmãs e um irmão, o também cantor Evandro Fióti.

Emicida vem de uma família com histórias complexas. Sua avó paterna foi assassinada pelo seu avô, que comprou a esposa em uma fazenda quando ela tinha 12 anos. O pai de Leandro morreu enquanto tentava separar uma briga onde outro parente estava envolvido, Leandro tinha apenas seis anos na época. O rapper tem duas filhas: Estela, nascida em 2010, do relacionamento com Carolina, sua ex-esposa, e Teresa, que nasceu em 2018, da união com a apresentadora Marina Santa Helena, sua atual esposa.

Editado por: Vivian Virissimo

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