IMPRENSA

Jornalistas pretos apresentam manual de boas práticas antirracistas para a comunidade digital

Evento online da Ufrgs será no dia 3 de dezembro e debaterá adversidades e questões raciais destes profissionais

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Apenas 20% dos profissionais do jornalismo se autodeclaram negros e o número que cai ainda mais quando se observa cargos de chefia e espaços de decisão editorial | Crédito: Foto: Rochele Zandavalli/ Ufrgs

Francisco é um jornalista negro. Leitor voraz, apaixonado por cinema e música – rock da pesada, de preferência – e fã de futebol, do Grêmio e de times europeus. É um bom jornalista, escreve com objetividade, é eclético e tem ótima convivência com os seus colegas. Sempre animado, já passou por muitos “perrengues” pela sua cor.

Às vezes, no verão, era escalado para reportagens no litoral gaúcho. E era lá que enfrentava os maiores preconceitos. As pessoas não acreditavam na sua condição de jornalista e colocavam Francisco em situações constrangedoras. Racismo puro. Achavam que era segurança, sambista, pagodeiro ou qualquer outra atividade considerada por eles insignificante, menos repórter, ali pronto para fazer uma entrevista ou consultar uma autoridade.

Ser jornalista negro é uma “barra pesada”. Sempre tem que estar alerta para um olhar enviesado, desconfiado. Por isso mesmo, a Secretaria de Comunicação (Secom) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) em parceria com a Rede de Jornalistas Pretos pela Diversidade (Rede JP) promove no dia 3 de dezembro, das 19 às 21h, a primeira edição do Encontro Online dos Jornalistas e Estudantes de Jornalismo Pretos do RS.

Todas as adversidades e as questões raciais estarão em debate. A Associação Riograndense de Imprensa (ARI), Sindicato dos Jornalistas (SindJoRS) e alunos do curso de Jornalismo da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico/Ufrgs) dão apoio ao evento.

O ponto alto do encontro será a apresentação do “Manual de boas práticas antirracistas para a comunidade digital”. A atividade é voltada prioritariamente para jornalistas e estudantes que se autodeclaram como pretos ou pardos, considerando a importância de ampliar as vozes e as perspectivas no jornalismo. Pessoas não negras que tenham interesse pela pauta antirracista são muito bem-vindas, informam os organizadores. “A construção de uma comunicação mais equitativa e plural exige a participação de diferentes olhares”, diz a Rede JP.

Ampliar voz e reduzir disparidade

Conforme revela a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) e do Perfil Racial da Imprensa Brasileira (Instituto Locomotiva, 2023), há grande disparidade existente para os jornalistas negros nas redações em questões salariais e cargos. O evento online busca ampliar o diálogo profissional entre jornalistas pretos e refletir sobre a representatividade negra no jornalismo gaúcho e brasileiro, tema que ganha cada vez mais relevância diante dos desafios de inclusão e pluralidade nas redações.

Ao reunir jornalistas e estudantes pretos e pardos, a atividade busca fortalecer redes de apoio, promover trocas de experiência e debater estratégias para ampliar a presença e a voz da população negra nos meios de comunicação, contribuindo para uma imprensa mais diversa e comprometida com a equidade racial.

O manual

Lançado em 2025, o “Manual de boas práticas antirracistas para a comunicação digital”, em parceria com o Instituto Peregum, apresenta estratégias para enfrentar a desinformação, o discurso de ódio e os estereótipos raciais, incentivando profissionais e instituições ao reconhecimento e à transformação dos vieses presentes nas narrativas midiáticas. A obra, em forma de e-book, também aborda o impacto dos algoritmos e das desigualdades tecnológicas sobre a população negra, inclui um glossário com conceitos como racismo estrutural, interseccionalidade e branquitude, além de integrar o Projeto GriôTech, que estuda ancestralidade, tecnologia e justiça digital.

No encontro, também será divulgado um manual voltado à proteção digital das jornalistas negras, publicação que reúne diretrizes práticas a fim de promover uma comunicação ética, inclusiva e comprometida com a justiça racial no ambiente online.

A atividade, que integra o projeto de extensão “Ufrgs Negra: Construções Antirracistas na Universidade“, terá a mediação do secretário-adjunto de Comunicação da Ufrgs Wagner Machado, e participação de Eliane Almeida, coordenadora de Educação da Rede JP.

Profissionais e estudantes interessados devem realizar inscrição no Portal da Extensão, a fim de receberem o link de acesso à sala virtual e, posteriormente, o certificado da Universidade. Em caso de dúvida, basta enviar um e-mail para [email protected].

Pesquisas oficiais

Números oficiais e pesquisas de instituições independentes mostram uma sub-representação significativa de jornalistas negros (soma de pretos e pardos, que compõem 56,2% da população brasileira segundo o IBGE) nas redações do Brasil. O principal levantamento sobre o tema é o “Perfil Racial da Imprensa Brasileira“, realizado por Jornalistas&Cia, Portal dos Jornalistas, Instituto Corda e I’MAX em 2021, que aponta que:

• Apenas 20,1% dos jornalistas nas redações se declaram negros (pretos e pardos).

• Jornalistas brancos ocupam 77,6% das vagas.

• Cerca de 98% dos jornalistas que se declaram pretos e pardos relatam dificuldades para se desenvolver na carreira.

• 52,3% das jornalistas negros entrevistados já foram vítimas de misoginia e racismo no ambiente de trabalho.

Outras pesquisas e dados complementares reforçam essa disparidade:

• Cargos de liderança: Um estudo de 2024 (do Poder Executivo, não exclusivo para jornalistas) mostrou um aumento na presença de pessoas negras em cargos de liderança no setor público, mas a pesquisa nas redações indica que a presença em postos de chefia na mídia ainda é extremamente baixa, com relatos de redações onde nenhuma pessoa negra ocupa tais posições.

• Telejornalismo: Dados específicos para o telejornalismo gaúcho de 2021 apontaram que negros eram apenas 5,97% dos repórteres e apresentadores.

• Disparidade salarial: Jornalistas negros chegam a ganhar 40% menos que seus pares brancos na mesma função, refletindo a desigualdade do mercado de trabalho brasileiro geral.

Esses números demonstram que, embora a população negra seja majoritária no Brasil, sua presença no jornalismo profissional, especialmente em posições de destaque e liderança, é minoritária, o que evidencia um racismo estrutural no setor.

Editado por: Marcelo Ferreira

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