Moradores da região de Perus, na zona noroeste de São Paulo, estão em mobilização contra o projeto da concessionária Logística Ambiental de São Paulo (Loga), responsável pela coleta de lixo da cidade, que pretende instalar um incinerador de resíduos na área. O empreendimento, batizado de “Unidade de Recuperação Energética Bandeirantes”, está em fase de licenciamento junto à Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb), mas é visto pela população como uma ameaça ambiental e social.
“Eles nomearam como Unidade de Recuperação Energética Bandeirantes na tentativa de tentar vender a ideia de uma nova tecnologia, uma nova forma de lidar com os resíduos sólidos. Só que, na prática, é uma tecnologia já ultrapassada, retrógrada, que os movimentos ambientalistas do mundo inteiro já mostraram que não é efetiva e causa danos diretos à população, em especial à população periférica da cidade de São Paulo”, afirma Vinícius Kamai, do movimento Incinerador de Lixo em Perus, Não!, em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato.
Segundo ele, a gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) tem permitido a atuação da Loga no bairro sem diálogo com os moradores. “Ela colocou funcionários da Loga espalhados pelo bairro em barracas para tentar vender a Unidade de Recuperação Energética, como eles têm chamado. Nós fizemos uma intervenção junto às barracas da concessionária e estamos lutando junto ao movimento para tentar frear isso, que é um abuso e uma tentativa clara de um ataque direto à população periférica”, conta.
Kamai lembra que a comunidade de Perus já enfrentou, há duas décadas, uma luta contra o lixão da região. “Muitas das pessoas que hoje compõem o movimento contra os incineradores também lutaram para tirar o lixão de Perus. E hoje, novamente, a prefeitura de São Paulo vem atacar a população da noroeste com uma medida que, além de retrógrada, é também prejudicial à saúde”, aponta.
Uma reunião entre a Loga com moradores está marcada para o dia 30 de novembro, mas o ativista não acredita em mudanças substanciais. “Acho que está muito mais próxima de uma reunião de conciliação trabalhista do que necessariamente de um retorno. É um projeto que traz um lucro bilionário tanto para a prefeitura quanto para a concessionária, e os danos são todos para a população”, prevê.
Além do impacto ambiental e da poluição, o movimento denuncia a desigualdade territorial na escolha dos bairros atingidos. “Perus ainda tem a pior expectativa de vida da cidade de São Paulo, que é de 58 anos, quando comparada com o morador de Pinheiros, que tem 84 anos. Então quer fragilizar e vulnerabilizar ainda mais uma população que já é abandonada pelo setor público há anos. Se essas unidades são boas, por que não vão colocar um incinerador no Morumbi?”, questiona.
Para Kamai, o poder público ignora alternativas sustentáveis, como a coleta seletiva e o apoio a cooperativas de catadores. “É a prefeitura de São Paulo optando pelo caminho mais fácil e mais barato, que também vai trazer o maior retorno de capital para as concessionárias. Quem vai pagar o preço é a população local”, lamenta.
O movimento, que também tem realizado ações durante a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP30), em Belém (PA), para denunciar o projeto, organiza mobilizações nas redes pelo perfil @incineradordelixoemperusnao. “Inclusive, tem gente nossa na COP fazendo uma intervenção, protestando contra o incinerador de Perus”, informa o ativista.
Em nota enviada ao Brasil de Fato, a Loga disse que “as UREs não devem ser confundidas com os antigos incineradores das décadas de 1970 e 1980. Essas unidades não oferecem riscos à saúde da população, sendo amplamente utilizadas em áreas residenciais de diversos países”.
“Com a implantação dos Ecoparques, São Paulo se alinha às práticas de países de referência, como Japão, Suíça, Itália e Dinamarca, promovendo sustentabilidade, inovação tecnológica e desenvolvimento econômico”, reforça o posicionamento.
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*Texto atualizado no dia 17 de novembro às 10h40 para inserção do posicionamento da Logística Ambiental de São Paulo (Loga).
