Crítica de cinema

O pior e o melhor do Brasil em ‘O Agente Secreto’, obra-prima de Kleber Mendonça Filho

Filme já ganhou prêmios de melhor ator e melhor diretor em Cannes e é cotado para representar o Brasil no Oscar

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wagner moura
O baiano Wagner Moura é o professor Marcelo, protagonista no longa O Agente Secreto | Crédito: O Agente Secreto / divulgação

Havia grande expectativa desde que Kleber Mendonça Filho havia anunciado que faria um novo filme tendo como pano de fundo a época da ditadura militar há alguns atrás e eis que quando lançado este ano no maior Festival de Cinema do mundo (Cannes), a película ganha logo de cara os prêmios de melhor diretor para KMF e de melhor ator para Wagner Moura (talvez, o maior ator brasileiro em ação na atualidade). A expectativa então para a estreia no Brasil foi as alturas e finalmente neste último final de semana, tivemos a maior estreia de um filme brasileiro em muito tempo (mais de 1400 salas de cinema) e para nossa sorte, o filme supera todas as expectativas.

Para mim, é até agora, o filme do ano (brasileiro ou não), e definitivamente o melhor filme de Kleber, até o momento. Mostrando toda a sua maturidade acumulada desde O Som ao Redor (2012). Apesar dele classificar O Agente Secreto (2025) como “thriller político”, ele não é limitado somente a isto. Aqui temos suspense, comédia, pitadas de fantasia e de faroeste e um que de Brasil e de elementos da cultura nordestina usados de forma única e criativa, engradecendo esta obra que por anos será alvo de discussão entre os amantes da sétima arte e historiadores.

A introdução do filme, uma seleção de fotos que mostram a riqueza da cultura nordestina, dá mostras do que o filme vem a nos trazer. E então encontramos Marcelo (Wagner Moura), em seu fusca amarelo, tentando reabastecer seu carro num posto de gasolina à beira da estrada, já perto de Recife (fugindo de algo ou alguém, ou as duas coisas juntas, que não sabemos ainda). É 1977 e o regime autoritário vigente em nosso país ainda prende e tortura qualquer um que ele queira. É também carnaval, e há pouquíssimos metros do posto há um corpo estendido no chão de um suposto ladrão vitimado por um dos frentistas do estabelecimento e já está ali há alguns dias e nenhuma autoridade vem pegá-lo porque são os dias da famosa festividade brasileira.

Enquanto isso aparecem agentes da Polícia Rodoviária Federal que tentam encontrar “algo errado” no veículo de Marcelo para extorqui-lo de qualquer forma. Já nesta primeira cena vemos a qualidade da direção e da atuação de Wagner que conseguem passar ao espectador uma tensão quase sufocante. É também um “puro caldo de Brasil” que poderia muito bem se passar em 2025 que não veríamos tantas diferenças assim. Kleber consegue condensar uma época, um lugar e o que será o filme em uma entrada maravilhosa. Já vale o ingresso.

Chegando em Recife vamos pouco a pouco descobrindo as intenções de Marcelo e sendo apresentado a personagens maravilhosos, que por mais que apareçam poucos minutos, são muito bem construídos e interpretados, alguns cheios de camadas, com notáveis destaques para Dona Sebastiana (Tania Maria e sim merecia uma indicação ao Oscar de atriz coadjuvante) e de Fátima (Alice Carvalho), esposa do personagem de Wagner Moura (que rouba a cena quando aparece brevemente). Se houvesse prêmio de melhor elenco, O Agente Secreto seria premiado em todo festival. Portanto, temos aqui um roteiro muito bem escrito que vai criando um quebra-cabeça em nossa mente, atraindo calmamente a gente para dentro dessa história.

História do filme que pode ser escrita com H maiúsculo quando se trata dos tentáculos do poder civil (grande empresariado) dentro deste regime, o qual é nominado, por muitos intelectuais, como Ditadura Civil-Militar. O caráter civil, enfatizado tanto em artigos de historiadores como Daniel Aarão Reis Filho também aparece na prática e é muito bem ilustrado pelo desprezível personagem de Ghirotti (Luciano Chirolli). Os militares e seus defensores gostam de afirmar a plenos pulmões que não havia corrupção no regime e o filme desmascara isso magistralmente e ainda com pitadas de defesa da universidade pública e da ciência, tão atacada por déspotas de plantão e ainda faz um ataque visceral a xenofobia em relação ao Nordeste de nosso país.

Por falar em Nordeste, o amor a Recife de Kleber expressado em quase todos os seus filmes, em especial no seu documentário Retratos Fantasmas (2023), é novamente exposto com todo o vigor aqui, aliás, ele fez de Recife um (importante) personagem em O Agente Secreto (como Woody Allen já fez de Nova Iorque), com suas lendas urbanas, seu carnaval e cinema de rua e suas micro-histórias. Em especial, temos uma cena super tensa em que é usada uma música de pífanos e tambores por Tomaz Sousa Alves (responsável pela Trilha Sonora) que é digno do que fez Bernard Herrmman/Alfred Hitchcock em Psicose.

Para quem é cinéfilo, como Kleber Mendonça Filho, também ex-crítico de cinema, tem referências para todo lado: Tubarão (1975) de Steven Spielberg, Os Bons Companheiros (1990) de Martin Scorsese e o suspense do “cinema hitchcockiano” estão bem homenageados nesta que considero a obra-prima do cineasta pernambucano e acredito que já entra no rol dos 10 melhores filmes brasileiros do início do século XXI.

O longa tem tudo para seguir a trilha de Ainda estou aqui (2024) de Walter Salles e chegar ao prêmio máximo da indústria cinematográfica. Segundo o site Comscore, 340 mil brasileiros já foram assistir o que O Agente Secreto tem a oferecer, vá lá você também conferir.

*Fabiano Sousa é historiador, professor da rede pública estadual do Ceará e militante do Movimento Brasil Popular.

**Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

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Editado por: Lívio Pereira

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