A CEO da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, Ana Toni, afirmou nesta sexta-feira (14), que a comunicação com a Organização das Nações Unidas (ONU) é fluida, contínua e constante, acrescentando que as manifestações que ocorrem desde o primeiro dia do evento, em Belém (PA), “serão acolhidas” e que “só demonstram que a democracia no Brasil é sólida”.
Apesar da declaração, o esquema de segurança no evento foi reforçado nesta sexta-feira (14), com a presença de carros do exército dentro do pátio de entrada da Zona Azul, onde ocorrem negociações entre líderes de Estado, e com uma nova organização na avenida Brigadeiro Protásio, principal acesso ao espaço.
A declaração de Toni foi feita horas depois que a ONU enviou uma carta ao governo brasileiro criticando o esquema de segurança do país, motivada pelos protestos na entrada da Zona Azul, uma das áreas mais restritas do evento. A intensificação da vigilância ocorreu logo após a carta, o que a CEO afirma que são “ajustes” que respeitam o protocolo do evento.
“Sobre a relação com a ONU, estamos debatendo e conversando com as Nações Unidas durante todo o processo. Há uma comunicação muito fluida, com cartas indo e voltando sobre questões e desafios, e estamos discutindo. Recebemos a carta, respondemos à carta, tomamos providências sobre algumas questões e, claro, continuamos trabalhando juntos”, afirmou a CEO.
“Existem protocolos entre as Nações Unidas e cada governo sobre segurança. Nós seguiremos esses protocolos, como tem sido feito. Também sabemos que há protocolos para a realização de protestos, tanto dentro quanto fora. Então, se todos nós respeitarmos e utilizarmos esses protocolos, acredito que tudo continuará bem, como tem sido até agora”, declarou.
A ministra lembrou que há uma manifestação convocada para este sábado, a chamada Marcha pelo Clima, que deve reunir uma multidão pelas ruas de Belém. Apesar das críticas recebidas pela baixa participação popular e restrição nos espaços de debate, a CEO da COP no Brasil exaltou a democracia do país e o envolvimento dos indígenas na programação como um todo.
“É realmente uma celebração ter uma COP na Amazônia. Temos uma COP na Amazônia. O Brasil, o presidente Lula, poderia ter escolhido realizar a COP em São Paulo, no Rio ou em Brasília. Não veríamos os povos indígenas. Não teríamos debate. Eles não teriam sua voz ouvida”, mencionou, adicionando também o fato de o Ministério dos Povos Indígenas ter organizado uma mobilização para envolver os povos tradicionais.
“Eles têm diferentes formas de protestar. Nós, na presidência da COP30, criamos um “círculo dos povos”, liderado por nossa ministra Sonia Guajajara. Temos debatido continuamente com a bancada indígena. Acredito que eles se sentem muito incluídos.”
A declaração, porém, não condiz com a opinião de alguns grupos populares. Na manhã desta sexta-feira (14), horas antes do início das atividades na Zona Azul, os indígenas do povo Munduruku, articulados pelo Movimento Ipereg Ayu, protestaram cobrando uma reunião urgente com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e com o presidente da COP30, o embaixador André Correa do Lago. A pauta é a denúncia de que o governo tem acelerado projetos de infraestrutura no território Munduruku, bacia do Tapajós e Xingu. Os manifestantes também protestavam contra o mercado de carbono.
Na véspera, a Aliança dos Povos pelo Clima também realizou um protesto dentro dos corredores da Zona Azul, cobrando mais participação dos indígenas nas mesas de negociação, democratização e gestão comunitária do chamado Fundo de Florestas Tropicais para Sempre (TFFF), além de cobrar mais compromisso dos países ricos com o financiamento de adaptação climática.
Apesar das críticas, a CEO da COP30 reforça que a Conferência tem sido histórica por ouvir as vozes dos territórios.
“Estamos ouvindo suas vozes. O Brasil, felizmente, tem uma democracia muito forte, em que as pessoas podem protestar das mais diversas maneiras. Estamos dialogando com eles. Eles estão presentes neste momento. Provavelmente ouviremos os povos indígenas ao longo de toda a COP. O motivo de realizarmos uma COP na Amazônia é ouvir exatamente aqueles que são mais vulneráveis. Então devemos acolher suas diferentes formas de protesto.”
