A cantora e compositora capixaba Luíza Boê lançou seu novo álbum Sonhos, um trabalho que mistura poesia, espiritualidade e experimentação sonora. Em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, ela explicou que o disco reflete um momento de transformação pessoal e artística, marcado pela mudança para São Paulo e pelo aprofundamento no estudo da música.
“Eu sinto que uma grande transformação que aconteceu foi ter me mudado para São Paulo. Tem gente do país todo que trabalha aqui. Quando eu estava aqui, senti também esse desejo de dialogar com os músicos, com os produtores que eu admiro, de trabalhar essas sonoridades tão plurais”, contou. O álbum reúne diferentes produtores e participações, entre elas o violoncelista Jaques Morelenbaum e o cantor Marcelo Jeneci.
Boê, que antes trabalhava com direitos humanos, revela que a música sempre foi uma vocação. “Meu sonho de criança sempre foi a música. Eu sinto que a música é essa expressão da minha espontaneidade. Ela compôs pra mim a minha forma de elaborar a minha vida”, disse. Parte das faixas, conta, foram literalmente sonhadas. “Recebi muitas músicas em sonhos. Meu inconsciente estava trabalhando pra que esse disco acontecesse, mesmo dormindo”, relatou.
A faixa Floresta traz a participação de um coral indígena Guarani, com quem a cantora gravou em uma casa de reza. “Foi a coisa mais especial. Muitos dos meus sonhos estão nesse disco”, afirmou. Já Moqueca capixaba, uma das canções mais simbólicas, é uma homenagem às raízes do Espírito Santo. “Eu senti que a moqueca capixaba tinha que estar na boca do povo. Muitas pessoas não sabem que no Espírito Santo a tradição é mais de raiz indígena, com panela de barro e urucum”, falou.
Sobre a mistura de gêneros, Boê prefere não se prender a rótulos. “Eu gosto de pensar no rótulo da MPB como a coisa ampla da música popular brasileira. Cada pessoa, dentro do Brasil diverso, vai trazer as suas referências, a sua linguagem”, avaliou. Inspirada pela compositora Luhli, dos anos 1970, ela define seu estilo como “música mágica brasileira”.
A artista também vê sua produção como uma forma de cura e de afirmação da liberdade feminina. “A arte está a serviço de navegarmos nos mistérios. Mais do que tudo, a maior beleza e a força [da mulher] é a liberdade dela, na escolha de ser quem ela é”, apontou. Na canção Mãe, por exemplo, ela propõe uma visão realista da maternidade. “Essa música foi minha forma de libertar minha mãe: ‘você é tão imperfeita quanto eu’. É muito mágico porque muitas pessoas me escrevem dizendo que usaram na terapia, em trabalhos de ayahuasca”, contou.
Para ouvir e assistir
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