A comunicação no Sul Global deve ser reconstruída como prática de mobilização popular, diferente do modelo ocidental centrado em eleições, afirmou a professora Lu Xinyu, do Instituto de Pesquisa em Comunicação Internacional da China, na abertura do segundo dia do Fórum Acadêmico do Sul Global, nesta sexta (14).
Lu baseou sua análise em três casos: a memória da resistência à agressão japonesa na China, a transformação de um criminoso de guerra japonês e o fenômeno contemporâneo da “Cun Chao” (Superliga de Futebol Camponês) no condado de Rongjiang, província de Guizhou.
A acadêmica relatou que sua mãe nasceu em julho de 1937, durante os bombardeios japoneses que devastaram Xuancheng, província de Anhui. A família fugiu 200 quilômetros até uma aldeia ancestral, e o nome dado à criança (Zhu Yongping, que significa “paz permanente”) refletiu os desejos de povos atingidos pela guerra.
Segundo a professora, esse contexto histórico moldou a visão comunista chinesa sobre comunicação. Citando Mao Zedong em “Sobre a Guerra Prolongada” (1938), a professora destacou que a grande mobilização política foi identificada como fundamento da vitória militar.
O segundo caso é o de Ishiwata Takeshi, soldado japonês que participou de massacres na China durante a Segunda Guerra. Capturado em 1945 e educado no Centro de Fushun, ele leu textos de Mao Zedong. Após retornar ao Japão em 1956, dedicou-se ao movimento antiguerra até sua morte em 2015.
O terceiro exemplo focou na Superliga de futebol camponês Cun Chao, em Rongjiang, um dos últimos condados a sair da lista da extrema pobreza em 2020. Em 2023, o campeonato de futebol local se tornou um fenômeno de comunicação massiva, gerando 70 bilhões em tráfego online, atraindo 7,65 milhões de turistas e produzindo uma receita de 8,398 bilhões de yuans (R$ 6,2 bi) naquele ano.
Diversos moradores receberam formação para atuar nas redes sociais para promover o condado e sua produção camponesa.
Chen Xuemin, vice-prefeito de Rongjiang, explicou em conferência anterior que “desenvolvimento depende das massas, as massas dependem de mobilização, mobilização depende de atividades”. Segundo ele, fazer a população confiar no governo foi o primeiro passo para a mobilização.
Quando as enchentes inundaram dois terços de Rongjiang em junho de 2025, o sistema de mobilização social melhorado pelo Cun Chao, junto à ação dos governos local e central, permitiu uma resposta rápida ao desastre. A competição foi retomada em um mês.
Para Lu, os três casos ilustram o mesmo princípio: comunicação efetiva no Sul Global requer mobilização organizada das massas, não apenas transmissão de informação. A resistência à agressão japonesa demonstrou como propaganda se torna força material ao se conectar com necessidades populares. A transformação de Ishiwata mostrou o poder da educação política sobre punição. E a Cun Chao comprovou que, 80 anos depois, o modelo de mobilização popular continua capaz de gerar resultados práticos, tanto na criação de riqueza quanto na resposta a desastres.
“Diferentes da comunicação política ocidental, centrada em política eleitoral, a linha política, linha organizacional e linha de massas do Partido Comunista Chinês constituem a base da comunicação política chinesa”, afirmou Lu. Ela denominou esse sistema de “comunicação organizacional partidária”.
A professora contrastou a “comunicação de massa” ocidental, dirigida a audiências atomizadas e dependente do mercado, com a prática comunista de “organizar as massas para autoemancipação”. Segundo ela, isso se manifesta como “comunicação-ação-movimento, completamente diferente do sistema sob o capitalismo”.
A professora concluiu situando a China em uma “Nova Longa Marcha” que enfrenta novos cercos sob transformações globais. “A Comunidade de Futuro Compartilhado para a Humanidade é uma grande prática de comunicação”, disse.
O Fórum Acadêmico do Sul Global, co-promovido pela Universidade Normal da China Oriental, Instituto Tricontinental de Pesquisa Social e Universidade de Joanesburgo, tem como tema “Promovendo uma Nova Ordem para o Desenvolvimento Pacífico da Informação e Comunicação Mundial”.
