SOLUÇÃO

Neta de Chico Mendes na COP30: ‘Financiamento não chega a quem protege a floresta’

Bem Viver especial do alerta à ação: os caminhos para adiar o fim do mundo

Enquanto líderes globais se reúnem na COP30 para negociar metas contra o aquecimento global — em um ano em que o mundo registrou novo recorde de emissões de CO² e a Amazônia segue perto do ponto de não retorno —, a voz da floresta ecoava de um espaço paralelo, carregando um sobrenome histórico. Angélica Mendes, neta do líder seringueiro Chico Mendes, assassinado em 1988 justamente por defender a floresta, critica a burocracia dos fundos internacionais e aponta a juventude como a grande força da revolução ambiental.

A equipe do Bem Viver, programa do Brasil de Fato, esteve no Espaço Chico Mendes, no Campo de Pesquisa do Museu Emílio Goeldi — um dos locais que sedia a Cúpula dos Povos, evento paralelo à conferência oficial, e conversou com a bióloga e gestora do Comitê Chico Mendes, que reafirmou sua presença: “Acreditamos que ele está aqui entre nós. Criamos este espaço porque acreditamos muito nesta força, nesta presença que ele ainda tem dentro do movimento.” Ela aponta o mesmo obstáculo que seu avô enfrentou até ser assassinado em 1988: o abismo entre os discursos internacionais e a realidade das comunidades.

O cenário atual dá urgência à sua fala: “É um fundo de difícil acesso que não chega em quem realmente está protegendo a floresta,” declarou, em referência a mecanismos como o Fundo de Financiamento para Florestas Tropicais (TFFF, na sigla em inglês) lançado durante a COP pelo governo Lula.

A crítica ganha força com os dados que pairam sobre a conferência. Enquanto os líderes se reúnem, relatórios de institutos de pesquisa monitorando a Amazônia em 2025 apontam que a floresta continua perigosamente próxima de um ponto de não retorno, com taxas de desmatamento ainda alarmantes nas bordas do bioma.

Essa desconexão, para Angélica, é histórica. “Meu avô, em 1988, foi denunciar ao BID a BR-364 que não só desmatava como feria direitos humanos. Enquanto o mundo ouvia, no Brasil as pessoas com poder não entendiam o que ele fazia.”

Entre fotografias de Elizabeth Teixeira e Margarida Alves — outras mulheres assassinadas por sua luta pela terra —, Angélica encontrou motivos para esperança na “Carta aos Jovens do Futuro”, escrita por Chico Mendes. “Ele previu uma revolução mundial feita pela juventude em 2020, e estava certo. A juventude já está organizada e fazendo a revolução,” afirmou, citando desde Greta Thunberg, Txai Suruí até o Coletivo Varadouro de jovens extrativistas do Acre.

Seu recado final para os negociadores na COP30 ecoa tanto as demandas atuais quanto o legado de seu avô: “Precisamos de financiamento direto e desburocratizado para quem está na floresta. Estamos cobrando uma dívida histórica de colonização.”

Três décadas após a morte de Chico Mendes, no coração da Amazônia que ele defendeu até o último suspiro, sua herdeira reforça o mesmo princípio quando questionada sobre quem são as novas lideranças: “A resposta somos nós”. Resta saber se os ouvidos do poder finalmente estarão preparados para escutar.

Confira a entrevista na íntegra.

Brasil de Fato: A pergunta que surge para nós aqui no Bem Viver é: se Chico Mendes estivesse aqui entre nós, o que ele faria e o que estaria achando de uma COP30 no coração da Amazônia?

Angélica Mendes: Acreditamos que ele está aqui entre nós. Criamos este espaço porque acreditamos muito nesta força, nesta presença que ele ainda tem dentro do movimento. Meu avô foi uma pessoa que conversava com todos os públicos, que marcou muitos corações. Acreditamos que ele estaria, assim como minha mãe, dividindo seu tempo entre mostrar para o mundo a importância desta causa e estar junto com sua base.

Inclusive, havia um clima na época em que Chico Mendes liderava os embates, as lutas, de que alguns setores da elite brasileira ainda não o conheciam, mas o mundo já ouvia sua voz. Ele estava em vários organismos internacionais fazendo ecoar as vozes da floresta.

Exatamente. Meu avô, em 1988, mesmo ano em que foi assassinado, havia ido denunciar ao BID a construção da BR-364. Ele alertava que a estrada não apenas desmatava, mas também violava direitos humanos das populações locais. Isso chamou a atenção do mundo na época, enquanto no Brasil, pessoas com poder não compreendiam sua luta, vendo-a como um retrocesso. Ele pedia para construir, mas construirmos salvaguardando os povos indígenas e protegendo a floresta.

Esse conceito, essa luta dele, hoje no Brasil e no mundo em 2025, é mais do que urgente. Queremos condições materiais dignas para todos, mas também precisamos manter a floresta em pé. Essa era a bandeira do Chico Mendes.

É uma luta constante porque sabemos que existem diferentes tipos de desenvolvimento. O modelo de desenvolvimento para a Amazônia não é o do agronegócio, que já foi tentado e faliu várias vezes. Precisamos pensar fora da caixa, entender a diversidade. São vários nichos de produtos na Amazônia que desempenham um papel crucial para as comunidades. Com o devido investimento, não apenas financeiro, mas em melhorias e acesso a mercados, podemos ter uma economia forte, mais até do que outros modelos que concentram recursos em poucas mãos.

Angélica, aqui no Espaço Chico Mendes há muitas atividades de debate e formação, tudo girando em torno da memória e da luta em defesa da floresta. Há um espaço dedicado à memória, com fotografias de Elizabeth Teixeira, Margarida Alves e inúmeras mulheres importantes na luta no campo e na floresta. Como está a formação de novas lideranças hoje? E como associam este espaço de memória com o engajamento da juventude?

Aí você falou uma coisa que eu estou muito por dentro, viu? Porque o meu avô foi tão visionário que ele deixou uma carta, a “Carta aos Jovens do Futuro”. Nessa carta, ele fala que haveria uma revolução mundial que unificaria todos os povos do planeta, e essa revolução é feita pela juventude. Ele fala “Atenção, Jovens do Futuro” no começo da carta. E ele fala que em 2020 haveria essa revolução. Então, em 2020, o centenário [dele] seria em 2020, a gente cria um festival para dar voz a essa carta, para que todos os jovens saibam dessa carta. Mas isso aí já não era um problema, porque a juventude já estava organizada e fazendo a revolução.

Em 2020 a gente já tinha a Greta Thunberg despontando, e já tinham os movimentos de juventude brasileira aparecendo mais – porque eles já existiam – e eles começam a aparecer mais a partir de 2020.

A [ativista indígena brasileira Txai] Suruí fazendo o discurso de abertura da ONU em 2021. Então a gente vê aí que é a movimentação da juventude, tendo a juventude no protagonismo e fazendo várias atividades dentro dos seus territórios, se organizando. Já é uma realidade. Próximo aos Comitês Chico Mendes, a gente tem um Coletivo Varadouro, que reúne todos os jovens extrativistas lá do Acre. Se a gente for pensar, a gente tem a Aliança dos Povos pelo Clima, que é um coletivo também de juventudes de mulheres que falam sobre e fazem essa aliança dos povos da floresta no tempo de hoje, que tem os povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos… Tem segmentos dessas comunidades tradicionais, assim como tinha a Aliança dos Povos da Floresta. Então a gente vê muito mesmo a juventude fazendo esse trabalho e pegando para si a luta pela defesa dos territórios.

Qual é a sua expectativa para a COP30? Quais são suas preocupações e esperanças em torno de toda esta mobilização na cidade, que inclui não apenas a conferência oficial, mas também os movimentos populares?

A gente tem os espaços oficiais e a gente nem espera muito deles, porque a gente tá na COP30 e os acordos que foram mais audaciosos não conseguiram cumprir. Então, da parte oficial, a gente não tem muita expectativa. Mas, de fato, essa união de pessoas do mundo todo, esse fortalecimento do movimento popular do Brasil, dessa abertura do espaço cívico é um resultado muito importante para essas pessoas, esses movimentos mostrarem a sua força e conseguirem ter essa visibilidade. E acho que um outro fato importante é que o governo tem lançado muitas coisas para esse período da COP30. Então, por mais que a nível global talvez a gente não tenha avanços, eu estou vendo os progressos a nível Brasil e espero que eles sejam bem ambiciosos e sirvam de exemplo para outros países também.

O Brasil está no foco. Na sua avaliação, o discurso de abertura do presidente e a postura oficial do país durante a conferência condizem com a prática do governo ao longo destes anos?

O discurso do presidente Lula na Cúpula dos Líderes, que inclusive mencionou meu avô, foi coerente. A gente entende esse lugar diplomático do discurso, a importância também de tentar liderar e puxar os outros países para que eles também se empenhem e façam o papel deles. Mas eu não sei o quanto isso vai ser importante ou quanto isso vai fazer uma diferença. Você vê que a gente tem países que não estão comparecendo, que não têm esse interesse e que seria importante, porque são esses países que mais causam, mais poluem, que não estão aqui fazendo essa discussão. Então é uma coisa complicada de se prever.

A luta de Chico Mendes pode ser resumida na frase “Floresta em Pé”. Um dos pontos marcantes da COP30 foi o lançamento do TFFF, um fundo para conservação das florestas baseado em mecanismos de mercado e doações. O que você acha desta metodologia? Ela gerará os resultados esperados?

É um fundo de difícil acesso que, mais uma vez, não chegará a quem realmente protege a floresta. A gente precisa que o TFFF tenha governança feita também pelos povos da floresta, para que esses mecanismos sejam melhorados e que sejam mais acessíveis. E a gente também tem lutado para que não seja só 20%, que seja destinado 50%. Porque o que acaba acontecendo muitas vezes é que o recurso vem mais para quem está desmatando do que para quem realmente está lá protegendo a floresta. A gente deve ter restauração, mas [também] incentivos para que a floresta permaneça de pé. Então, acho que é nesse caminho que a gente entende que a participação dos povos da floresta nessa governança pode ser um bom orientador para que a gente tenha mecanismos que funcionem melhor. Vou usar a fala agora dos parentes, que é: “A resposta somos nós”.

Sobre a formação de jovens lideranças, como garantir que estes jovens permaneçam nas reservas, dialogando com seu território e ancestralidade?

Lançamos um documento orientador para políticas públicas, feito por jovens extrativistas. Eles foram às comunidades pesquisar o que os tomadores de decisão precisam fazer para manter a floresta em pé. Há um êxodo de jovens em busca de oportunidades nas cidades, deixando a floresta desprotegida e menos atrativa. No documento, destacam a importância do recurso chegar aos territórios. Eles querem estudar, ter acesso ao ensino superior de dentro da floresta, internet para educação e venda de seus produtos. São várias direções para, através de políticas públicas, manter a juventude nas florestas e, consequentemente, manter a floresta em pé e protegida.

Para finalizar, se você tivesse 30 segundos para falar com chefes de estado, negociadores e diplomatas na COP30, o que você priorizaria?

Acho que destacaria a necessidade de financiamento direto e desburocratizado para quem está na floresta protegendo os territórios. É uma campanha com uma história linda: cobramos esta dívida de um processo histórico de colonização que ainda hoje pagamos. Precisamos de ações concretas e de recursos dentro dos territórios.

E tem mais…

Bem Viver  especial COP30 traz também o outro lado da expansão eólica no Brasil. No Agreste de Pernambuco, comunidades afetadas pela instalação de parques eólicos criaram a Escola dos Ventos para exigir uma transição energética verdadeiramente justa. Moradores relatam perda de terras, impactos ambientais e a quebra do modo de vida tradicional, mostrando que mesmo as energias renováveis podem reproduzir injustiças quando implementadas sem diálogo com as populações locais.

Na contramão dos debates teóricos sobre a transição energética sustentável, Burkina Faso apresenta soluções práticas com a produção dos primeiros carros elétricos montados no país. A montadora Itaoua combina tecnologia solar, transferência de conhecimento da China e projetos de soberania energética, oferecendo uma alternativa de mobilidade sustentável adaptada às condições do Sahel africano.

Destaque emocionante do programa foi a chegada da Flotilha Yaku Mama a Belém, após um mês de viagem histórica pelos rios da Pan-Amazônia. Cerca de 60 lideranças indígenas de vários países trouxeram um recado urgente: é preciso garantir uma Amazônia livre da exploração de petróleo, garimpo e mineração. A jornada épica simboliza a união dos povos da floresta em defesa do território.

Quando e onde assistir?

No YouTube do Brasil de Fato todo sábado às 13h30, tem programa inédito. Basta clicar aqui.

Na TVT: sábado às 13h; com reprise domingo às 6h30 e terça-feira às 20h no canal 44.1 – sinal digital HD aberto na Grande São Paulo e canal 512 NET HD-ABC.

Na TV Brasil (EBC), sexta-feira às 6h30.

Na TVE Bahia: sábado às 12h30, com reprise quinta-feira às 7h30, no canal 30 (7.1 no aparelho) do sinal digital. 

Na TVCom Maceió: sábado às 10h30, com reprise domingo às 10h, no canal 12 da NET. 

Na TV Floripa: sábado às 13h30, reprises ao longo da programação, no canal 12 da NET. 

Na TVU Recife: sábados às 12h30, com reprise terça-feira às 21h, no canal 40 UHF digital. 

Na UnBTV: sextas-feiras às 10h30 e 16h30, em Brasília no Canal 15 da NET. 

TV UFMA Maranhão: quinta-feira às 10h40, no canal aberto 16.1, Sky 316, TVN 16 e Claro 17. 

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No rádio, o programa Bem Viver vai ao ar de segunda a sexta-feira, das 7h às 8h, com reprise aos domingos, às 10h, na Rádio Brasil de Fato. A sintonia é 98,9 FM na Grande São Paulo. Além de ser transmitido pela Rádio Agência Brasil de Fato.

O programa conta também com uma versão especial em podcast, o Conversa Bem Viver , transmitido pelas plataformas Spotify, Google Podcasts, iTunes, Pocket Casts e Deezer.

Assim como os demais conteúdos, o Brasil de Fato disponibiliza o programa Bem Viver de forma gratuita para rádios comunitárias, rádios-poste e outras emissoras que manifestarem interesse em veicular o conteúdo. Para ser incluído na nossa lista de distribuição, entre em contato por meio do formulário.

Editado por: Maria Teresa Cruz

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