Fundadora do Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (CEERT) e uma das principais referências na luta por diversidade e justiça social no Brasil, a psicóloga e escritora Cida Bento recebeu, na última sexta-feira (14), a Comenda da Ordem Nacional do Mérito Educativo, entregue pelo Ministério da Educação (MEC), em Brasília. A homenagem reconhece a trajetória da pesquisadora na defesa de uma educação antirracista e na formação de gestores e professores comprometidos com a equidade.
“Eu começo a minha vida como professora da Educação Básica e foi uma experiência muito interessante. Eu sempre senti a importância da educação”, recorda, em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato. “É a primeira vez que um município pode acessar recursos extras do Fundeb [Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação] se mostrar por evidências que diminuiu as desigualdades econômicas e raciais. Então é um momento muito importante”, celebra. “Precisa mais, mas já está avançando”.
Autora do livro O pacto da branquitude, publicado em 2022, Cida destaca a necessidade de ampliar o olhar sobre a diversidade e de reconhecer privilégios naturalizados no cotidiano escolar. “Você olha o livro didático, está mostrando o sistema circulatório sempre em um corpo branco. Está mostrando uma família sempre branca. Está contando uma história sempre da Europa. Então, é preciso perceber que tem alguma coisa errada”, aponta. “Abrir essa perspectiva de histórias diferentes ajuda muito a avançar a democracia no país”, complementa.
Para a escritora, é possível romper desigualdades históricas por meio da educação. “A educação é um ponto fundamental para o povo que não tem grandes heranças para pensar o seu futuro, principalmente os segmentos mais vulneráveis: os quilombolas, os indígenas, as pessoas negras. O seu futuro vem do quanto você consegue avançar na educação e alcançar outros níveis”, defende.
Bento ressalta que a transformação deve ser coletiva. “O processo de formação precisa dos professores, dos gestores, das crianças e adolescentes, das famílias, todos funcionando junto do MEC, da Secretaria de Educação”, sugere. Ela também orienta que os recursos públicos “privilegiem a equidade, de modo que a educação fique cada vez mais equânime, mais diversa e mais democrática.” “Não vou enviar equipamentos para os bairros chiques; vou enviar para as favelas, periferias, escolas quilombolas, ribeirinhas”, exemplifica.
Nos 22 anos da Lei nº 10.639/2003, que obriga o ensino da história e cultura afro-brasileira em todas as escolas do Brasil, o CEERT conquistou um acervo de cerca de 4 mil práticas de educação para equidade racial em todos os municípios brasileiros, segundo a ativista. “Práticas que usaram a música, a dança, a escrita de livros para ajudar crianças e adolescentes a compreenderem a diversidade do povo brasileiro”, explica.
Em mensagem aos jovens, Cida Bento reafirma o compromisso com a luta antirracista e por direitos. “Mesmo quando aparecerem as pessoas que têm preconceito, ações de racismo, isso continua acontecendo porque é um processo coletivo de evolução das ideias. Mas não vamos parar. As sementes estão jogadas por todo o país, e a estrada da equidade de raça, de gênero, dos LGBT não para mais”, diz.
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