HOMENAGEM

Reitora da Ufrgs recebe título de Cidadã de Porto Alegre nesta terça-feira (18)

Pesquisadora, cientista, democrata, Marcia Barbosa chegou a ser alvo da extrema direita, que queria revogar o título

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Reitora da Ufrgs, Márcia Barbosa é reconhecida por contribuição para a ciência, a educação pública e o desenvolvimento social de Porto Alegre | Crédito: Rafa Dotti

A reitora da A Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), Marcia Barbosa, vai entrar nesta terça-feira (18) pela porta da frente da Câmara de Vereadores de Porto Alegre e sairá com o título de Cidadã de Porto Alegre. É a maior homenagem da cidade a uma pessoa dedicada às questões da capital gaúcha – será às 18h no Salão Adel Carvalho. Eleita por maioria dos vereadores no dia 16 de junho, ela enfrentou uma bateria de críticas da extrema direita da Câmara e uma tentativa fracassada de um grupo que queria retirar o título e a homenagem, incluindo a própria presidente do Legislativo, Comandante Nádia (PL).

A proposta é do vereador Giovani Culau (PCdoB), 31 anos, porta voz do Movimento Coletivo, o primeiro mandato construído de forma conjunta em Porto Alegre – quatro vereadores vão se revezar no cargo até as próximas eleições. Cientista Social formado pela Ufrgs, ele preside a Comissão de Urbanização, Transportes e Habitação da Câmara Municipal. Ecossocialista, trabalha na defesa da justiça climática e pela ampliação dos recursos do município para prevenção à eventos climáticos extraordinários.

A homenagem a Marcia é merecida, segundo Culau. Ela deu novos ares à universidade depois de um período de fechamento, de dureza nas relações com professores e servidores. Democrática, aberta ao diálogo, a reitora está sempre disposta a conversar para resolver dificuldades e coleciona elogios à sua contribuição para a ciência, educação pública e desenvolvimento social de Porto Alegre.

Para Giovani Culau a tentativa de revogação do título “revolta não só a comunidade da Ufrgs como todos aqueles que valorizam a produção científica no Brasil” e “é um símbolo do negacionismo da extrema direita na Câmara de Porto Alegre”. Segundo ele, a homenagem reforça a importância da universidade pública, “formadora de cidadãos democratas, em tempos complicados e de polarização e de decisões de líderes prejudiciais ao livre convívio das divergências”.

Quem é

Natural do Rio de Janeiro, 65 anos, Marcia Barbosa veio criança para Porto Alegre, cidade que ela adotou e viveu toda a sua trajetória escolar e acadêmica. Se tornou uma pesquisadora, cientista e profissional na capital gaúcha. O título que agora está ganhando é tradicionalmente destinado a pessoas não nascidas em Porto Alegre que tenham se destacado por suas ações em benefício da cidade e da sociedade.

Marcia sempre deu aulas no Instituto de Física da Ufrgs, mas tem prestígio internacional por seu trabalho de profundidade na área. As suas pesquisas em mecânica estatística e por seus estudos sobre as propriedades anômalas da água*, trabalho que lhe rendeu o prestigiado Prêmio L’Oréal-Unesco para Mulheres na Ciência, em 2013. Ela também é Comendadora da Ordem Nacional do Mérito Científico, membro titular da Academia Brasileira de Ciências e membro da Academia Mundial de Ciências desde 2019.

Em 2020, foi citada pela ONU Mulheres como uma das sete cientistas que moldam o mundo e, no mesmo ano, foi eleita pela revista Forbes como uma das 20 mulheres mais influentes do Brasil. Antes de assumir a reitoria da Ufrgs, em 2024, Marcia ocupou o cargo de Secretária de Políticas e Programas Estratégicos do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), um dos principais órgãos de formulação de políticas científicas no país.

Foi eleita reitora em 2024 e assumiu no mês de setembro, completando um ano da sua posse. Um dos seus primeiros atos foi abrir a Biblioteca Pública da Ufrgs, fechada, em parte, pelo antigo reitor. Alegre, expansiva, gosta de dançar em algumas solenidades da universidade, a sua eleição como reitora marcou um avanço histórico na democracia universitária: foi a primeira realizada sob o sistema de paridade de votos entre docentes, técnicos e estudantes, com decisão ratificada pelo Conselho Universitário da Ufrgs.

Desde então, sua gestão tem se destacado pela defesa da ciência pública, pela promoção da inclusão, pela valorização da diversidade nas ciências e pelo fortalecimento do papel social da universidade na vida da cidade e da região. Neste mês de novembro, dedicado aos negros, sob sua orientação, a universidade organizou uma série de ações em favor da democracia racial e da inclusão em todos os âmbitos da comunidade acadêmica.

Grande pesquisa

Um dos trabalhos mais consistentes de Marcia Barbosa na área científica foi a descoberta que as anomalias da água** podem ser estudadas e manipuladas em nanoescala para criar novas tecnologias, como nanofiltros mais eficientes para dessalinização. Ela identificou que a água flui muito mais rápido do que o esperado em nanotubos de carbono e usou esse achado para propor processos de purificação e dessalinização mais eficientes, que podem ajudar a resolver a escassez de água.  

• Filtros de dessalinização: Um dos principais achados de Marcia Barbosa é que, ao confinar a água em espaços minúsculos, como nanotubos de carbono, ela se comporta de maneira diferente. Esse fenômeno permite a criação de nanofiltros que podem separar o sal da água de forma muito mais eficiente do que os métodos atuais.

• Anomalias da água: Sua pesquisa desvendou características singulares da água, como o “efeito Ricardão”, onde a água compactada pode formar mais pontes de hidrogênio. Isso ajuda a entender as mais de 70 anomalias da água e a desenvolver novas aplicações tecnológicas.

• Aplicações futuras: A pesquisa de Marcia Barbosa tem o potencial de criar soluções inovadoras para a falta de água potável, com a possibilidade de dessalinizar água do mar de maneira mais econômica e eficiente, além de ajudar na captação de água em regiões com baixo abastecimento.

• Promoção de equidade de gênero na ciência: Além de suas descobertas científicas, Marcia Barbosa é reconhecida por sua luta e trabalho para aumentar a presença de mulheres no meio científico e combater vieses de gênero nas universidades.

*A propriedade anômala da água refere-se ao seu comportamento incomum de expansão ao congelar (o gelo flutua na água) e à contração ao ser aquecida. Esse fenômeno, causado pelas pontes de hidrogênio, resulta na densidade máxima da água líquida a  4ºC, o que é crucial para a vida aquática em ambientes frios.  

**Revista Fapesp

Editado por: Marcelo Ferreira

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