A Rússia tem condenado de forma consistente as ações dos Estados Unidos na Venezuela, em meio às contínuas ameaças da administração de Donald Trump, que desde agosto mobiliza tropas na região do Caribe.
As investidas de Washington contra Caracas já envolvem aeronaves e navios de guerra estadunidenses, incluindo o maior porta-aviões do mundo, posicionados na área. Aliada estratégica da Venezuela, a Rússia negou ter recebido qualquer pedido de ajuda militar, mas, ao mesmo tempo, criticou a “inaceitabilidade” das alegações dos EUA.
Na última segunda-feira (17), o presidente dos EUA, Donald Trump, disse que não descarta enviar militares para o território da Venezuela, alegando suposto cerco ao narcotráfico no país sul-americano. Ao mesmo tempo, o republicano afirma que está “aberto” a dialogar com o presidente Nicolás Maduro.
Já o presidente venezuelano afirmou que está disposto a conversar “cara a cara” com Trump, mas também não mede esforços em acusar Washington de “fabricar uma guerra” intervencionista na região contra o seu governo. Na semana passada, ele sancionou uma nova lei de defesa nacional que cria os chamados “comandos integrados de defesa”.
Apesar de manter uma cautela e não dar sinais de quaisquer ações concretas em relação à crise, a Rússia, tradicional aliada de Caracas, vem mantendo o tom crítico à postura dos EUA. O ministro das Relações Exteriores, Serguei Lavrov, afirmou que as justificativas de Washington para as investidas, que usam o combate ao narcotráfico como pretexto, são ilegais.
“Não posso terminar meu comentário sobre a Venezuela sem declarar nossa posição sobre a inaceitabilidade das ações tomadas pelos Estados Unidos. Sob o pretexto de combater o narcotráfico, eles estão destruindo barcos que, segundo eles, transportam drogas, sem qualquer julgamento ou investigação, e não apenas sem julgamento, mas sem apresentar quaisquer fatos a ninguém. É assim que, em geral, agem os países sem lei, assim como aqueles que se consideram acima da lei”, disse o chanceler em uma entrevista à mídia russa.
Ao mesmo tempo, Moscou refutou rumores veiculados na mídia de que a Venezuela teria solicitado ajuda militar direta da Rússia. A diplomacia russa afirmou não ter recebido nenhum pedido do tipo de Caracas.
Em entrevista ao Brasil de Fato, o professor de Relações Internacionais da Universidade de São Petersburgo Victor Jeifets aponta que, no contexto da atual confrontação com o Ocidente, para Moscou, as relações com a Venezuela se tornaram mais importante nos últimos anos. Além disso, o pesquisador observa que voltou a crescer a dinâmica do volume de comércio entre Rússia e Venezuela.
Ao mesmo tempo, o especialista nas relações entre Rússia e América Latina afirma que é improvável que haja um envolvimento militar direto de Moscou. Para Jeifets, a Rússia mostra que “não está pronta para abrir mão dos seus interesses na Venezuela”, mas que a possibilidade de uma ação mais pró-ativa do lado russo é remota.
Apesar da cautela, a Rússia possui uma aliança histórica com a Venezuela e importantes interesses na região. O acordo de parceria estratégica entre os países, assinado em maio e ratificado em outubro deste ano, prevê maior cooperação nas esferas política, econômica e de segurança. Para Victor Jeifets, o momento da ratificação não foi por acaso e representa um sinal para os EUA.
“Ele [o acordo] foi assinado em maio e foram meses aguardando a sua ratificação, mesmo que ele pudesse ser ratificado rapidamente, mas ninguém fez isso. Não fizeram em junho, mas decidiram fazer meses depois, quando começou-se a tensão entre Venezuela e EUA. O momento foi escolhido de forma consciente para enviar um sinal aos EUA de que ‘nós estamos aqui, não vamos a lugar nenhum, temos nossos interesses’”, argumenta.
Apesar de não se envolver diretamente na crise, a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, Maria Zakharova, afirmou anteriormente que o país mantém contato com a liderança da Venezuela em meio às crescentes tensões no Caribe e Moscou estava pronto para atender às solicitações de Caracas.
“Me parece que o que acontece é uma demonstração dos potenciais interesses e possibilidades, para deixar o Pentágono adivinhando o que de fato pretende a Rússia. Pode ser que esse sinal tenha sido recebido, porque quase que imediatamente Trump e outras autoridades dos EUA falaram que a decisão sobre bombardeios e de uma operação militar na Venezuela ainda não estava tomada. A posição da Rússia é de entender as ações de Trump, em primeiro lugar, como um blefe. E se não como um blefe, então é de demonstrar que [a Rússia] não vai ceder e que não abrirá mão dos seus interesses na Venezuela”, completa.
