ARTES CÊNICAS

Geppetto e Pinóquio invertem os papéis em espetáculo de bonecos de Fábio Cuelli em Porto Alegre

Ator da nova montagem do grupo Máscara EnCena fala sobre a peça que entra em cartaz nesta sexta-feira (21)

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Fabio Cuelli em Geppetto
Fabio Cuelli em Geppetto | Crédito: Doug Trancoso

O que acontece com Pinóquio tudo mundo sabe: o boneco de madeira ganha vida e se torna um menino de verdade. Mas, se essa trama tivesse uma continuação, como seria a trajetória do personagem na vida adulta, responsável por cuidar de seu criador? Essa foi a inspiração de Geppetto, nova montagem do premiado grupo teatral Máscara EnCena.

Concebido e com atuação de Fábio Cuelli, o espetáculo de bonecos terá temporada de estreia em Porto Alegre, de 21 a 30 de novembro, às sextas-feiras, aos sábados e domingos, às 19h, na Sala Álvaro Moreyra (Av. Erico Veríssimo, 307 — bairro Menino Deus, Porto Alegre)

Na versão gaúcha, os protagonistas não têm os mesmos nomes da fábula conhecida mundialmente. Mas o roteiro retrata a relação entre um homem e a figura paterna, tendo como referência o clássico As Aventuras de Pinóquio: história de uma marionete, lançado pelo italiano Carlo Collodi, em 1883. Tudo surgiu a partir da experiência pessoal de Fábio Cuelli, que utiliza boneco híbrido e marionete em cena.

Outra curiosidade da peça é que, em alguns trechos, os personagens se comunicam por meio do Talian, uma língua de imigração falada no Brasil em regiões de ocupação italiana desde 1875, incluindo o nordeste do Rio Grande do Sul.

Os ingressos já estão à venda na plataforma Sympla.

Confira a entrevista exclusiva do ator Fabio Cuelli ao Brasil de Fato RS:

Brasil de Fato RS – Ao contrário da obra original e das demais versões cinematográficas e teatrais, a sua história de Pinóquio e Geppetto não é para crianças?

Fabio Cuelli – Essa montagem é pensada para adultos e adolescentes. O livro As aventuras de pinóquio: histórias de uma marionete serviu de inspiração e mote para simular uma realidade na qual Pinóquio se tornou um humano adulto e Geppetto teria ficado ainda mais velho. Então, pensei: como o avançar da idade de ambos modificaria o convívio deles? Aí, fui em busca de conversar com o Nelson Diniz, que assina o texto.

Nesse sentido, o espetáculo reflete uma realidade que acompanha a humanidade e, com o envelhecimento da população, tem sido, cada vez mais, frequente?

Tive inúmeras conversas com o Nelson Diniz sobre a roupagem que daríamos ao Geppetto neste espetáculo. O texto constrói a narrativa de um filho que passou a vida distante do pai. Ele criou a própria história e, já formado em medicina, passa a cuidar do seu pai.

Para além da história de Collodi, buscamos aprofundar o convívio, neste caso de cuidado, entre um filho homem e a figura paterna. Uma relação, muitas vezes, constituída por silêncios, omissões e verdades, que fazem de nós o ‘Pinóquio’ que escolhemos ser.

A direção cênica da Liane Venturella veio com precisão e delicadeza para dar forma e vida à manipulação de cada elemento, principalmente aprofundando o cuidado com uma pessoa adoecida e, com isso, atravessando as emoções que derivam dessa situação. Também pensei sobre como nos preparamos para assumir a responsabilidade que é cuidar dos nossos pais, considerando que somos uma população que vive cada vez mais.

A peça reflete também a sua relação com seu pai?

A ideia de montar o espetáculo surgiu partir de algumas temáticas que passaram a despertar o meu interesse por volta de 2022, como a parentificação — quando os filhos se tornam pais dos pais — devido a situação familiar que eu vivi.

Me peguei, em certo caso, assumindo algumas responsabilidades e percebendo como comecei a ter atitudes de cuidado com os meus pais. Devido a isso, fui buscando compreender como outras famílias reconhecem e lidam com essa inversão de papéis.

Tal busca me levou a perceber que o Brasil, segundo o IBGE, está aumentando o número de idosos e, em 2070, eles serão quase 40% da população brasileira. Será que estamos discutindo, como sociedade, sobre o cuidado no envelhecimento?

Em diversos momentos da montagem os personagens falam o Talian, um dialeto utilizado até hoje na serra gaúcha. Como surgiu essa ideia?

O Talian é uma das autodenominações para a língua de imigração falada no Brasil na região de ocupação italiana direta e seus desdobramentos desde 1875, em especial no nordeste do Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina, Mato Grosso e Espírito Santo. Sua origem linguística é o italiano e os dialetos falados, principalmente, nas regiões do Vêneto, Trentino-Alto e Friuli-Venezia Giulia e Piemontes, Emilia-Romagna e Ligúria.

Nas cenas, o Talian é utilizado quando o filho conversa com o pai, apresentando a identidade cultural e a intimidade. Isso porque a língua Talian, por muitos anos, só era utilizada dentro das casas, devido a proibição imposta na Segunda Guerra Mundial. O espetáculo é uma obra que explora os limites entre esculpir e ser esculpido e revela quem são os Geppettos e Pinóquios que vivem em nós.

Editado por: Marcelo Ferreira

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