Dividir-se entre atividades lícitas e ilícitas faz parte do cotidiano de quem está inserido no tráfico de drogas. Cerca de um terço (42%) dos entrevistados pela pesquisa Raio-X da Vida Real, do Data Favela precisam complementar a renda para além do comércio ilegal de entorpecentes fazendo os chamados “bicos”, enquanto que 36% dessas pessoas exercem alguma outra atividade remunerada.
Outras funções também foram relatadas pelos entrevistados: 24% deles afirmam ser empreendedores; 16% têm emprego formal com carteira assinada; 14% ajudam no empreendimento de familiares ou amigos; e 2% prestam serviços em projetos sociais.
Apesar da percepção popular de que o tráfico proporciona ganhos elevados, a pesquisa evidencia o contrário. A maioria dos envolvidos tem renda baixa: 63% recebem, pela atividade criminal, até dois salários mínimos, cerca de R$ 3.536, quantia que, para muitos, é a única forma de garantir o sustento da família. O orçamento, porém, é curto: 18% afirmam que o dinheiro não dura até o fim do mês. “O estudo desmonta estigmas”, diz Cléo Santana, presidente do Data Favela e Diretora da Escola de Negócios da Favela.
O levantamento também revela um cenário de vulnerabilidade relacionado à escolaridade. Embora grande parte dos participantes tenha baixas trajetórias escolares, há reconhecimento do papel da educação como possibilidade de mudança. Quando questionados sobre o que fariam de diferente, a maioria respondeu que teria estudado mais ou buscado se formar.
Para a pesquisadora, o levantamento humaniza a discussão. “O estudo revela sonhos, responsabilidades e medos semelhantes aos de qualquer trabalhador brasileiro. Isso mostra que estamos lidando com pessoas que buscam sobrevivência e estabilidade, não glamour”.
O principal motivo de entrada no crime é a falta de dinheiro ou necessidade econômica, essa foi a resposta de 49% dos entrevistados. No Maranhão, esse percentual corresponde a 95%, enquanto que em Minas Gerais, somente 29% destacaram esse fator como motivação principal para ingressar nas atividades ilegais.
Santana explica que os dados contradizem a ideia de que o ingresso no crime é uma escolha deliberada. “O que os dados mostram é que a motivação predominante é econômica, falta de renda, de trabalho, de alternativas reais para sustentar a si e a família.”
A vulnerabilidade econômica também se destaca na população LGBTI+: 37% ganham até um salário mínimo, proporção semelhante à das mulheres (35%).
Além da situação financeira dos entrevistados, o senso de injustiça e a necessidade de proteção são motivadores significativos que levam essas pessoas que sofreram violência a ingressarem no mundo do crime.
Relatos inseridos no estudo revelam essas motivações. “Eu cansei de apanhar e ser estuprada pelo meu padrasto, hoje faço justiça pelas mulheres”, disse uma das entrevistadas. “Revolta com o extermínio de onde morava, mataram meus familiares e tentaram me matar”, alegou outro respondente. Ambos em condição de anonimato.
Encarceramento e saúde
A pesquisa aponta ainda índices elevados de encarceramento: 54% dos entrevistados já foram presos ao menos uma vez. O dado dialoga com o panorama nacional. De acordo com o Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias (Infopen – 2025), 31% da população carcerária responde por tráfico de drogas, o tipo penal mais comum no país. Entre as mulheres, 47% delas estão encarceradas por crimes relativos ao tráfico de entorpecentes.
As mulheres também aparecem com maior frequência em funções auxiliares do tráfico e, entre elas, 13% relatam ter ingressado na atividade por causa de violência doméstica ou problemas de álcool e drogas no ambiente familiar. O aumento no número de mulheres envolvidas no tráfico está em parte ligado à expansão das tarefas auxiliares à operação, afirma a pesquisa.
Outro aspecto observado é o impacto do crime na saúde física e emocional. Insônia (39%), ansiedade (33%) e depressão (19%) são os problemas mais recorrentes, além de relatos de pânico e de doenças crônicas como diabetes, gastrite e cardiopatias.
A rotina exaustiva contribui para o adoecimento: 38% dos trabalhadores da produção dormem de duas a quatro horas por noite, enquanto 49% dos chamados “donos da boca” e 59% dos gerentes conseguem descansar entre cinco e sete horas.
O consumo de drogas é habitual para 63% dos entrevistados. A maconha aparece como a substância mais usada (58%), seguida da cocaína (23%) e de drogas sintéticas (12%).
Saída do crime e perspectivas para o futuro
Sobre deixar a atividade, 58% afirmam que deixariam o crime se tivessem oportunidades reais de trabalho e renda; 31% dizem que não deixariam. Os motivos para permanecer mudam conforme o território. O risco de vida, por exemplo, chega a 68% na Bahia, cai para 16% em São Paulo e fica em 38% no Rio de Janeiro. O medo de não conseguir sustentar a família também varia: 28% em São Paulo e 19% no Rio Grande do Sul.
A presidente do Data Favela também ressalta que o estudo desmonta outro mito: o de que quem está no crime não quer sair dele. “A maior parte dos entrevistados afirma que deixaria o crime se tivesse oportunidade concreta de trabalho e renda”, afirma.
Ela destaca ainda as diferenças regionais: “As dinâmicas locais, violência armada, disputa de grupos, presença do Estado, densidade populacional e mercado do crime influenciam diretamente as percepções de risco e as decisões de permanência ou saída.”
Apesar das dificuldades, o olhar para o futuro é predominantemente positivo. Para 63% dos entrevistados, a perspectiva pessoal é favorável, e 60% acreditam que a favela também terá um futuro melhor. Ao mesmo tempo, 68% afirmam não sentir orgulho do que fazem, sinal de que a atividade criminosa é menos uma escolha e mais uma condição imposta pela falta de alternativas.
“A pesquisa traz elementos que ajudam a romper estigmas importantes sobre esse grupo, sempre lembrando que nosso foco é exclusivamente pessoas em situação de crime que vivem em favelas brasileiras, conforme a classificação territorial do Censo do IBGE [Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística]”, aponta Santana.
Ela também aponta que o estudo ajuda a compreender o cenário das favelas e soluções. “Muitas buscam alternativas de renda legítima, mas não encontram. O dado central permanece: ampliar oportunidades reais de trabalho e renda tem impacto direto na possibilidade de saída do crime.”
Foram entrevistadas 3.954 pessoas que exercem atividades regulares para o funcionamento do ecossistema criminoso do tráfico de drogas. A amostra foi coletada em favelas de 23 Estados do Brasil, respeitadas as proporções de pessoas residentes em favelas/comunidades nas cinco regiões do país.
Promovida pela Central Única das Favelas (CUFA), pela Favela Holding e pelo Instituto DataGoal, a pesquisa foi realizada entre 15 de agosto de 2025 e 20 de setembro de 2025.
