Localizado no extremo sul de Porto Alegre e com cerca de 62 mil habitantes, 4,69% da população da capital gaúcha, o bairro Restinga foi tema de debate nesta segunda-feira (17), no encontro “Um outro olhar sobre a Porto Alegre negra: Restinga – o quilombo que deu certo”. O evento, promovido pelo Centro Histórico-Cultural (CHC) da Santa Casa, reuniu moradores do bairro, pesquisadores e lideranças comunitárias, e também contou com apresentações artísticas de moradores do local.
Com mediação da historiadora e educadora Neila Prestes de Araújo, referência na pesquisa sobre a Restinga e na valorização da memória afro-brasileira, a atividade teve a participação do historiador da Universidade do Rio Grande do Sul (Ufrgs) e integrante do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros (Neab/Ufrgs) José Rivair Macedo, do educador social, mestre de capoeira e liderança histórica do território Mestre Ventura, e de Maria Clara Nunes, pioneira na construção comunitária do bairro, com atuação na educação infantil, na defesa das mulheres da periferia e na fundação da Escola de Samba Estado Maior da Restinga.
Ao abrir o encontro, Neila Prestes destacou o simbolismo de discutir a história da Restinga no CHC da Santa Casa. “A presença da comunidade Restinga no centro do debate é um reconhecimento de que é necessário, sim, reparação histórica, recuperação de laços e acolhimento da potência da história do maior bairro de periferia do estado”, afirmou. Segundo ela, a força da comunidade está na “reexistência e na luta”.
“Nascemos segregados, ainda somos o menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do estado, mas a comunidade luta para conquistar ferramentas públicas que nos deem condições de expressar nossos talentos e potências. Restinga é um quilombo que deu certo, e seu povo é uma potência humana.”
De acordo com estudo feito por Tiago da Silva Silveira, mestre em Planejamento Urbano e Regional, e André Coutinho Augustin, mestre em Economia e pesquisador do Departamento de Economia e Estatística (DEE) da Secretaria Estadual de Planejamento, Governança e Gestão (SPGG), divulgado em 2023, os bairros localizados nas regiões mais pobres, Sarandi, Humaitá e Restinga, apresentavam o Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDH-M) de 0,593, enquanto os localizados em áreas mais ricas, Moinhos de Vento, Chácara das Pedras e Jardim Isabel, com IDH-M de 0,958.

Uma vida entrelaçada à Santa Casa e à Restinga
Aos 78 anos, Maria Clara Nunes emocionou o público ao narrar sua relação histórica com a Santa Casa, local onde nasceu e passou grande parte da infância devido a problemas de saúde. “A Santa Casa me trouxe uma resistência de saúde muito grande. Eu era uma criança cheia de doenças, mas fui muito bem acolhida por muitos anos”, recordou.
Ela contou que seu padrinho, Luiz Mendonça, foi um dos primeiros gestores da instituição e que sua mãe foi criada na casa dele. As visitas às enfermarias com a mãe religiosa e as balas de “benzosa” recebidas na secretaria são lembranças vividas da infância.
Maria Clara também relatou que, já adulta, enfrentou problemas de visão que a levaram a seis cirurgias no setor de glaucoma da Santa Casa. Dois de seus netos nasceram na instituição.
Moradora da Restinga há 53 anos, ela se tornou referência para quem buscava atendimento. “Qualquer morador que precisava de ajuda vinha falar comigo, e eu encaminhava.”
Ao falar do bairro, ela reforçou o orgulho que carrega. “Tudo que tem de bom na Restinga tem a minha participação. Chegamos lá só com a roupa do corpo. A Restinga não cresceu, ela se fundiu. E, com muito orgulho, eu digo: Restinga, teu povo te ama.”

Da remoção à luta comunitária permanente
O educador social Mestre Ventura relembrou a chegada forçada à Restinga ainda adolescente. “Eu fui pra lá com 12 anos de idade. Saí da Santa Luzia às duas horas da manhã. O Batalhão de Choque entrou na minha casa. Fui eu, duas irmãs, minha mãe e um cachorrinho. Largaram a gente lá dentro e se virem”, contou.
Na época, segundo ele, o bairro não oferecia estrutura mínima. “Não tinha escola, não tinha saneamento básico, não tinha nada. A Restinga só é isso que é pela luta da sua comunidade.”
Ventura relata que começou a trabalhar cedo e que hoje coordena um ponto de cultura voltado para jovens. “Ajudei a construir o Instituto Federal, o Céu das Artes, a maioria das escolas, através do Orçamento Participativo. A Restinga está no nosso sangue, nós somos uma família.”
Aos 69 anos, diz ter chegado quase junto com o nascimento do bairro. Em 2018, começou a escrever a história da Restinga a partir das vozes dos moradores. É coordenador da Feira do Livro da Restinga e atua no mapeamento do povo de terreiro. Planeja para 2027 o lançamento dos livros resultantes desse trabalho e uma homenagem às lideranças vivas da comunidade.
“Quando largaram os negros lá pra dentro, pensaram que os negros iam morrer. Quando eu falo negro, não é só o negro como eu. Era o branco pobre também. Para a classe dominante da ditadura, todo mundo que não tinha dinheiro era marginalizado.” Apesar de tudo, afirma que a Restinga é uma potência. “Continua potência e vai ser melhor ainda.”
Reconectar Porto Alegre com sua história negra
O professor José Rivair Macedo trouxe reflexões sobre memória, reparação e o papel das instituições na reescrita da história de Porto Alegre. Ele contou que chegou à cidade em 1994, instalando-se em um bairro de classe média branca. Incentivado por seu amigo, o historiador negro Guarani Santos, começou a percorrer territórios da memória negra: primeiro Rio Branco, antiga Colônia Africana; depois a Restinga.
“Na primeira vez que fui de ônibus à Restinga, entendi Porto Alegre. A impressão inicial foi de vitimização. Depois percebi que esse olhar era superficial.”
Rivair conheceu Neila Prestes como aluna e, depois, orientanda de mestrado. A defesa do trabalho dela foi um marco. “A Restinga ocupou o Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. Toda a negação da Vila de Malocas teve que ser recolocada.”

Ao refletir sobre o evento atual, ele afirmou que o avanço só é possível se a Santa Casa e a sociedade enfrentarem sua história. “A Santa Casa tem a história da Roda dos Expostos, e é uma história suja, que dói para a pessoa negra. Houve escravizados nessa casa, e eles e elas estão aqui, talvez conosco nesse momento.” Para ele, não é possível “passar uma borracha” no passado.
O professor relatou que o desafio que propôs à Santa Casa surgiu em conversa durante a primeira Feira do Livro da Restinga. “Isso é importante não só para a comunidade, mas para a Santa Casa e para a história de Porto Alegre.”
Ele citou Franz Fanon ao reafirmar que o essencial não é se um antepassado foi colonizador ou colonizado, escravizador ou escravizado. “O mais importante é que sociedade queremos daqui para frente.” Mas destaca que, para construir o futuro, é necessário reconhecer que houve desigualdade e injustiça, sem reduzir tudo à vitimização. A imagem correta da Restinga, afirma, é “a imagem do orgulho”.
Para Rivair, Porto Alegre precisa se reconectar com sua história negra. Ele pontuou sobre a organização do livro Racismo, relações de poder e história negra em Porto Alegre, ressaltando que essa história não pode ser negada. “Não porque seja essencialmente diferente, mas porque as pessoas que a fizeram tiveram sonhos, desejos e os pés no chão. Tiveram um propósito.”
O docente também comparou a origem da Restinga, resultado da recusa da “Porto Alegre branca, da branquitude, em aceitar o ‘maloqueiro’ e a ‘maloca’’, com o processo contínuo de transformação vivido pelo bairro. Rivair encerrou dizendo que, sempre que fala da Restinga, sente que está também na África. “Hoje africanizamos a Santa Casa, e isso é extraordinário.”

“A Restinga não é feita de desgraça”
A professora Tathiane Santos, da Escola de Ensino Fundamental Professor Larry José Ribeiro Alves, relatou como nasceu o projeto da turma para a feira de iniciação científica da Secretaria Municipal de Educação (Smed), que conta sobre a trajetória do bairro. A ideia inicial era trabalhar sobre a enchente. “Porém, no meio do caminho, tudo mudou. Deram ideia e falaram sobre a Restinga”, contou. A turma fez então um jornal, um telejornal – A voz da Restinga e o curta-metragem Restinga Vive.
Migrante de São Paulo, ela chegou ao bairro em 2008 “por uma desgraça”, como disse, mãe de duas meninas pequenas. “A gente fez e ainda faz a nossa vida na Restinga.” A pesquisa partiu da pergunta: “O que passa na televisão sobre a Restinga?” Os estudantes responderam: mortes e agressividade. “E o que de bom passa?” Quase nada.
Ela dividiu a turma em três grupos. Surgiram então um telejornal publicado no YouTube, um curta-metragem sobre a história do bairro e outros materiais. “A Restinga não é feita de desgraça. É feita de pessoas e de crianças com futuros incríveis. Por que só passa coisa ruim, se a gente tem tanta cultura e tanta gente boa?”
As alunas destacaram o orgulho pelo território. Maria disse que reunir fotos antigas e atuais ajudou a mostrar outra imagem do bairro. “A Restinga pode melhorar, a Restinga é muito boa. Nem tudo é sobre morte. Também tem coisas de alegria.”
“A gente fez com muito amor e carinho. Foi uma coisa muito boa e alegre de fazer”, corroborou Ashley. Outra estudante ressaltou o empenho do grupo na produção do filme: “A gente gravou, demorou um tempo, mas fizemos com maior amor e carinho”. O objetivo, segundo as crianças, é mostrar uma Restinga viva, diversa, potente, contada por quem mora no bairro e “tem a força de vencer.”
