Estratégia montada

Sem Boulos, Psol aposta em Erika Hilton e monta estratégia em SP para manter número de deputados em 2026

Partido não terá principal cabo eleitoral de 2022 e vai apostar na deputada que encabeçou o fim da escala 6x1

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Erika Hilton deverá ser a puxadora de votos do partido em 2026
Erika Hilton deverá ser a puxadora de votos do partido em 2026 | Crédito: Redes sociais Erika Hilton

A ida de Guilherme Boulos para a Secretaria-Geral da Presidência reconfigurou a estratégia do Psol para o estado de São Paulo. O atual ministro foi o deputado mais votado no estado em 2022 e o segundo no Brasil, sendo o principal puxador de votos do partido o estado mais populoso do país. Sem ele, o partido recalcula a rota e pensa em como manter 1,7 milhão de votos em SP para a Câmara em 2026. 

Dois caminhos são possíveis para isso. O primeiro é tentar encontrar um nome forte que faça esse trabalho de “puxar votos” e garantir um maior número de cadeiras para o partido pelo quociente eleitoral. O outro é pulverização de nomes.

O nome mais provável para puxador de votos é o da atual deputada federal Erika Hilton. Ela recebeu 256.903 votos na primeira eleição nacional que disputou e conseguiu garantir uma vaga na Câmara. 

Hilton já era vereadora em São Paulo e despontou com pautas ligadas a gênero, raça e a comunidade LGBT+. Mas na avaliação do Psol, a deputada conseguiu “furar a bolha” durante o mandato em Brasília e agora terá força para ser o principal nome no estado. E o principal fator para isso foi uma pauta que se tornou nacional em 2024: o fim da escala de trabalho 6×1

Ela conseguiu capitanear a discussão dentro da esquerda do Brasil e apresentou a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 8/25, que propõe uma jornada semanal com quatro dias de trabalho e três de descanso. Isso deu protagonismo para Erika Hilton no debate sobre leis trabalhistas no Brasil em um momento em que nem o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) abraçou a pauta.

Agora, ela negocia diretamente com o Ministério da Fazenda os ajustes na proposta para tentar avançar o projeto no Congresso. O próprio governo passou a se posicionar pelo fim da escala 6×1 depois das manifestações populares que tomaram as ruas do país. 

A deputada entende que isso reposicionou seu nome enquanto um quadro político que representa a esquerda no Brasil e não só uma pessoa ligada a pautas específicas. Ela entende que, por “preconceito e intolerância”, as pessoas enquadram seu trabalho dentro de um nicho específico de temas e pautas que, hoje, ela já conseguiu extrapolar. 

“As pessoas talvez achassem que eu ficasse restrita a debater temas e temáticas estereotipadas e eu mostrei que tenho trabalho, que tenho projeto que tem uma articulação. E isso, com certeza, trará bons frutos para 2026. Nós temos sim uma avaliação de que eu me torne a puxadora de votos no estado, que nós possamos fazer uma campanha que aumente a minha votação exponencialmente e ajude também com que outras figuras possam ocupar a Câmara”, disse ao Brasil de Fato.

Na avaliação da direção do Psol, abraçar a pauta do fim da escala 6×1 foi o principal motivo para que Erika “furasse a bolha”, inclusive da esquerda brasileira, mas também ajudou a colar no Psol uma “marca potente”, que é o diálogo com os trabalhadores do país. 

A presidente do partido, Paula Coradi, entende que a construção de uma chapa forte pode conseguir somar votos e garantir não só a manutenção, como também o aumento do número de deputados.

“Embora a Erika seja a nossa aposta, essa construção de chapa tem capacidade de agregar votos. O Psol também tem seu espaço na sociedade de um voto muito consolidado e tem essas novas lideranças que vão concorrer pela primeira vez”, afirmou ao Brasil de Fato.

No Rio, pulverização funcionou

Ter um nome forte como puxador de votos é o principal caminho adotado pela sigla, mas o exemplo do Rio de Janeiro nas últimas eleições indicam outras possibilidades para o partido em São Paulo. Em 2022, Marcelo Freixo era um dos principais nomes do partido e chegou a receber 1,1 milhão de votos nas eleições municipais de 2016. Ele deixou o Psol em 2021 já mirando o pleito do ano seguinte, tendo como objetivo “dialogar com o centro”. 

À época, a sigla pensou que esse seria um baque no poder eleitoral do estado, mas a pulverização em outros candidatos fortaleceu o Psol, que conseguiu eleger um deputado a mais no estado em relação às eleições de 2018. Nomes como de Taliria Petrone, Pastor Henrique Vieira, Glauber Braga e Tarcísio Motta ganharam protagonismo e conseguiram não só aglutinar os votos que eram de Freixo, como também crescer.

Em 2018, os eleitos pelo Psol receberam 514 mil votos no Rio de Janeiro. Quatro anos depois, esse número subiu para 605 mil.  

Na lógica do Psol, essa pulverização em São Paulo contaria com deputados que já estão no Congresso, como Sâmia Bomfim, e a ministra dos Povos Indígenas, Sônia Guajajara, que deve retornar à Câmara para preparar a candidatura. Há, no entanto, uma demanda por uma transição geracional dentro do Psol. 

Aposta em novos nomes

A deputada Luiza Erundina tem votos consolidados na capital por ter sido uma prefeita com alta popularidade nos anos 1990, mas já não deve ser mais candidata pela idade. Ela tem 90 anos e pode deixar de ser congressista na próxima legislatura. Outro nome histórico do partido que também tem um núcleo duro em São Paulo é Ivan Valente, que é parlamentar desde 1995 e deverá ser candidato nas eleições, mas também aponta para o final da carreira política. 

Luiza Erundina e Ivan Valente em campanha na cidade de São Paulo
Luiza Erundina e Ivan Valente são dois representantes de peso no Psol, mas o partido mira em novos nomes para as eleições 2026 | Crédito: Luiza Erundina e Ivan Valente em campanha na cidade de São Paulo

“Além do Boulos, a saída da Erundina é importante nesse cálculo. Porque não temos mais os figurões históricos que garantem um quociente eleitoral para manter ou aumentar a bancada. A mais antiga seria eu. A Erika deve crescer. A dúvida é se ela consegue chegar a esses um milhão de votos. Não é simples, porque, ainda que ela tenha crescido muito, o interior de São Paulo é muito conservador, existe essa barreira que ainda precisamos atravessar como partido”, disse Sâmia Bomfim ao Brasil de Fato.

Para essa renovação, alguns nomes já são indicados. O deputado estadual Guilherme Cortez e o ex-presidente do partido Juliano Medeiros são dois cotados para essa disputa. A advogada Natália Szermeta, esposa de Guilherme Boulos e liderança do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), também tem sido ventilada como uma possível candidata para a Câmara. 

Descentralizar os votos

A principal barreira do Psol no estado é o interior. Boulos conseguiu 1 milhão de votos em 2022, mas 489.999 foram na capital e outra parte expressiva se deu na região metropolitana da capital. Conseguir ampliar a base eleitoral nas outras cidades do interior ainda é um desafio. 

O partido tem alguns exemplos de sucesso fora da capital, mas espera ampliar esse espectro. Em Santos, a vereadora Débora Camilo recebeu mais de 8 mil votos em 2024, sendo a mais votada do município. Bruna Biondi também foi a mais votada em São Caetano do Sul. Outra cidade que teve um vereador do Psol como mais votado foi Itapira, que elegeu Leandro Sartori. 

Sâmia Bomfim afirma que o partido tem esses resultados em lugares com núcleos organizados do Psol, que geralmente têm uma figura pública que se destaca. Isso dá continuidade para o partido de forma regional. Mas esse esforço tem sido insuficiente pela incapacidade da sigla de disseminar organizações de base. 

“Não é simples porque o Psol ainda se consolida a partir de um voto de opinião. E essa ideia do voto de opinião no interior é mais difícil, porque geralmente a máquina eleitoral se organiza de outro modo. O fato da gente ainda ter voto mostra que há espaço no interior, mas ainda não ter conseguido chegar num executivo mostra ainda as fragilidades. Um partido com lideranças fortes, mas que não consegue dar conta de organizar a sua base militante”, afirmou. 

A congressista se refere especialmente ao número de pessoas que estão fazendo o trabalho militante do Psol. O partido tinha, nas últimas eleições, 293 mil filiados, sendo o 17º partido com mais integrantes no país. 

Deputada Sâmia Bomfim (Psol-SP)
A deputada Sâmia Bomfim analisa que seu partido garante os “votos de opinião” nas capitais, mas, no interior, os resultados acontecem por causa dos núcleos organizados | Crédito: Pablo Valadares/Câmara dos Deputados

A preocupação com o São Paulo se dá porque o estado é o maior colégio eleitoral do país e costuma influenciar na política nacional. Mas no caso do Psol há um elemento mais.

O partido tem uma ligação histórica com outros estados como Rio de Janeiro, mas, nos últimos anos, nomes políticos importantes paulistas ganharam proeminência no partido e passaram a ter uma participação cada vez mais importante na sigla.

Ainda assim, o partido também conseguiu crescer em outros estados. O principal exemplo é o Pará. Em 2021, o partido conseguiu eleger Edmilson Rodrigues para a prefeitura de Belém, sendo o resultado mais expressivo para um Executivo municipal do Psol.

Tiago Paraíba é tesoureiro nacional do Psol e afirma que, hoje, o partido também tem uma presença expressiva em outros estados estratégicos.

“A centralidade de São Paulo na política não quer dizer que os outros não tenham uma atenção importante. Mas, além do simbolismo, setores estratégicos do Psol têm uma atuação forte em São Paulo. Em termos de consolidação, o Psol tem possibilidade de crescimento e apostamos em estados como Rio Grande do Sul, Bahia, Pernambuco, Ceará, Pará, Santa Catarina… E esse crescimento se dá a partir da tática eleitoral”, afirmou ao Brasil de Fato.

Possíveis alianças partidárias

O partido construiu em 2022 uma federação partidária com a Rede Sustentabilidade e vai com essa configuração para o pleito do ano que vem. Mas a intenção da direção do Psol é formar, novamente, uma frente de esquerda. A ideia é formar uma aliança com o PT para as eleições majoritárias. O Senado é uma delas. 

O partido estudava trazer o próprio Boulos para as eleições ao Senado, mas agora pensa em compor com a ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva. Além disso, a ideia é apoiar também outro candidato do PT, que poderia ser o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, mas o partido ainda não se decidiu. 

Coradi afirma que a intenção é ter uma unidade nas eleições majoritárias para enfrentar a extrema direita. Mas essa aliança é discutida internamente no partido e a relação com o governo é parte disso.

Durante a gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), a composição com outros partidos de esquerda era importante para o Psol para a formação de uma frente de esquerda consolidada de enfrentamento à extrema direita. Em um governo Lula, a direção do Psol entende que o papel mudou. 

Se no começo da gestão a posição do Psol era de não compor com o governo e ter apenas Sônia Guajajara no ministério, algo que era uma demanda dos movimentos sociais e da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), agora, duas correntes se destacam dentro do partido. Uma, liderada pelo próprio Guilherme Boulos, defende uma integração do governo e um alinhamento político. 

A outra defende a manutenção de uma posição “independente” e crítica ao governo feita desde o ponto de vista da esquerda. Sâmia Bomfim se vê deste lado e afirma que, hoje, a conjuntura nacional e internacional empurrou a atuação do Psol para esse lado.

“Se antes era uma relação mais crítica de independência, acho que a crítica e a diferenciação seguem em algumas pautas, mas há menos espaço para diferenciação, menos espaços para uma postura de independência. Isso também tem a ver com a conjuntura brasileira e com a conjuntura internacional. Quando está sob um ataque do imperialismo, bom, você busca unidade de ação”, afirmou.

A própria presidente do partido entende que essa ala mais “crítica” hoje acabou ficando minoritária e a composição com o PT passou a ser a tônica do partido.

“É majoritária a posição de estar no governo Lula. Tem grupos mais críticos, mas hoje existe um entendimento no partido do momento que nós vivemos e as alternativas que estão sendo construídas. Acredito que ano que vem chegaremos nesse mesmo consenso. Acho que nós conseguimos até uma maioria mais folgada de compor, dialogar e construir os nossos pontos de programa. Devemos apoiar o Lula, mas acredito que, mesmo com diferenças, tratamos de maneira muito democrática internamente”, disse. 

O ministro Guilherme Boulos defende uma aliança integrada com o governo federal | Miguel Schincariol/AFP

Fim da escala 6×1 e outras pautas

As alianças vislumbradas pelo partido, no entanto, não tiram do partido a autonomia nas pautas próprias defendidas pela sigla. A campanha do Psol se dará em torno de questões tratadas como essenciais, mas ampliando justamente por aquilo que foi conquistado nos últimos meses. O assunto principal será o fim da escala 6×1. 

“A nossa aposta é a 6×1. Foi onde ganhamos terreno agora. Mas também defenderemos as nossas pautas como reconhecidamente do nosso partido, como o racismo, feminismo, LGBTfobia, que faz parte da nossa identidade política, assim como a defesa da população indígena. Também vamos buscar as pautas que possam tornar o eleitor identificado com o que nós defendemos: taxação bilionários e das casas de aposta e ética na politica são possibilidades”, afirmou Coradi ao Brasil de Fato.

Outra debilidade do partido para o crescimento se dá hoje em um tema que monopolizou os debates nas últimas disputas eleitorais: a segurança pública. Depois da chacina do Rio de Janeiro, o tema deve ganhar novamente o centro dos debates em 2026. Apresentar uma saída concreta para a população é o principal ponto para um partido que costuma discutir a segurança de maneira transversal a outros temas, como desigualdade e educação. 

“Esse é um tema complexo. A extrema direita dá uma resposta simplista e vazia, dialogando com o senso comum. Nós temos bons exemplos de como fazer operações policiais com inteligência, como a operação Carbono Oculto, que conseguiu desbaratar um esquema do PCC mostrando que os vínculos do crime organizado vão além da ocupação do território. Nós temos bons exemplos para fazer um contraponto à chacina do Rio de Janeiro”, disse Coradi.

Editado por: Luís Indriunas

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