Na manhã desta terça-feira (19) , vozes de diferentes continentes se encontraram na COP do Povo para um gesto simples e, ao mesmo tempo, urgente: compartilhar histórias e alinhar forças. Vindos da Amazônia, da África e de outras regiões do mundo, defensores ambientais buscaram costurar alianças que ultrapassem as fronteiras e o calendário da 30ª Conferências das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30) — conexões capazes de sustentar lutas por justiça climática, direitos dos povos indígenas, proteção dos ecossistemas e uma transição energética realmente justa.
“Estamos aqui para partilhar histórias de pessoas muito potentes”, disse Claudelice Santos, do Instituto José Claudio e Maria. Para ela, embora as realidades variem de território para território, há um fio comum: lideranças que enfrentam, em suas comunidades, um modelo de desenvolvimento que alimenta a crise climática e atinge com mais violência os lugares historicamente vulnerabilizados.
De Zanzibar, na Tanzânia, veio a voz de Maria Matui, diretora-executiva da Women Action Towards Economic Development, organização que atua no combate à criminalização e na defesa jurídica de mulheres. Ela contou que, em seu país, as violações de direitos atingem toda a comunidade, mas recaem com peso ainda maior sobre as mulheres. “As dores delas são, aparentemente, invisíveis. Como os homens estão sempre em evidência nos dois lados do conflito, as mulheres costumam ser privadas até de assistências básicas”, relatou.
A liderança quilombola Amotara Muzunguê CoMPAz, da Comunidade Morada da Paz — presente do Pampa à Amazônia — reforçou o protagonismo das mulheres, especialmente das mulheres negras, na defesa dos territórios. “Quase nunca há consulta prévia, livre e informada. E, ao mesmo tempo, os impactos da crise climática chegam primeiro às nossas comunidades, como preço de um desenvolvimento que não é para nós”, afirmou. Ela atua entre Belém e o município de Colares, na região do Salgado (PA).
Do quilombo Amarqualta, no alto Acará, também no Pará, veio o alerta de Jacó Junior. “Já perdemos lideranças que lutavam por direitos — e por isso perderam a vida”, disse. Segundo ele, a expansão do agronegócio tem invadido o território quilombola e provocado ameaças constantes contra quem denuncia a contaminação do solo, do ar e dos rios. “Nossas lideranças não podem divulgar para onde vão. A qualquer momento, a gente pode ter uma triste notícia.”
Caminhando entre denúncia e esperança, Jacó concluiu com uma imagem que ecoou entre os presentes: “O sistema nunca vai respeitar nossos direitos. Ele vai respeitar nossa resistência. A força do sistema termina na nossa resistência.” Jacó fala do lugar de quem sofre nas mãos de fazendeiros que produzem matéria-prima para biocombustível, evidenciando a distância do quão distante da realidade, de fato, está o debate sobre transição energética.
Ao fim das partilhas, as organizações presentes firmaram o compromisso de manter intercâmbios e fortalecer ações conjuntas, um esforço contínuo para ampliar a proteção de comunidades que permanecem na linha de frente contra grandes corporações e governos que seguem empurrando o planeta para o limite.
