Após a derrota no plebiscito, o presidente do Equador, Daniel Noboa, anunciou a baixa de oito altos funcionários: seis ministros, um secretário nacional e a porta-voz da presidência.
Na terça-feira (18), seis de seus 17 ministros foram exonerados, além do secretário nacional de Gestão de Riscos e da porta-voz do governo.
“Com o objetivo de fortalecer a administração pública, o Primeiro Mandatário, Daniel Noboa, fez uma série de ajustes no gabinete”, diz o comunicado divulgado pela Presidência do Equador.
Junto ao anúncio da exoneração, a nota veio acompanhada com as novas nomeações. Nesta quinta-feira (20), porém, antes da tomada de posse dos novos ministros, a administração Noboa registrou uma nova baixa, após denúncias de tráfico de influência.
A la ciudadanía: pic.twitter.com/kR8T5e3Tvx
— Presidencia Ecuador 🇪🇨 (@Presidencia_Ec) November 18, 2025
Álvaro Rosero, diretor da rádio EXA/Democracia, onde também apresenta um programa, iria assumir como ministro de governo no lugar de Zaida Rovira, transferida para a chefia do Ministério de Desenvolvimento Humano.
Uma empresa registrada em nome de Rosero, no entanto, tinha dívidas com o Instituto Equatoriano de Seguridade Social, o que o impediria de assumir um cargo público. Após a nomeação, o impedimento desapareceu do sistema do Ministério do Trabalho, pasta assumida por Harold Burbano, antes à frente do Ministério de Desenvolvimento Humano.
Na quarta-feira (19), Christian Alfredo Marín Lavayen, diretor regional do Ministério do Trabalho, renunciou ao cargo e acusou o novo ministro, Harold Burbano, de cometer “tráfico de influência”.
“Nas instalações da Direção Regional de Quito, o senhor ministro do Trabalho, acompanhado de sua equipe, entrou de maneira arrogante e prepotente com a exigência imediata de que fosse retirado um impedimento para o exercício de função pública em favor do senhor Rosero, que seria nomeado ministro do Governo”, diz Lavayen em sua carta demissionária.
Diante da repercussão, Rosero anunciou, nesta quinta-feira (20), a recusa ao convite para assumir o cargo de ministro. “Está claro que meu perfil despertou temores em um momento em que o país precisa de serenidade, não de pânico fabricado. Pelo mesmo sentido de compromisso e respeito com que aceitei seu convite, hoje cabe dar um passo ao lado e renunciar a um cargo que nunca cheguei a assumir”, declarou, em sua conta no X.
Hola, Ecuador:
— Alvaro Rosero León (@alvaro_exa) November 20, 2025
Presidente @DanielNoboaOk, agradezco profundamente la deferencia de haber considerado mi nombre para una responsabilidad tan alta. Está claro que mi perfil despertó temores en un momento en el que el país necesita serenidad, no pánico fabricado.
Por el mismo…
Nataly Morillo, parlamentar governista Ação Democrática Nacional (ADN), foi anunciada como a nova ministra de governo, após o escândalo.
Crise aberta após plebiscito
No último domingo (16), os equatorianos rejeitaram, em um plebiscito convocado por Noboa, as quatro propostas apresentadas pelo presidente, entre elas, a instalação de bases militares estrangeiras em território equatoriano e a convocação de uma Assembleia Constituinte.
“A votação ‘plebiscitou’ a própria imagem do presidente: rosto, seu sobrenome, sua força, sua popularidade que, embora estivesse caindo, ainda se mantinha em certos níveis importantes, em torno de 40%. Então, há um golpe direto no presidente. O resultado da votação significou um golpe duro para o governo de Noboa”, afirmou o professor de sociologia política da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso) no Equador Franklin Ramírez.
A dança das cadeiras ministeriais ocorreu após a derrota nas urnas. Apesar das trocas de nomes, Ramírez não enxerga um governo disposto a fazer mudanças estruturais.
“A mudança de ministros é superficial. Há muitos que circulam entre diferentes pastas, e não há novas figuras que demonstrem uma vontade de abertura política e de escuta. Pelo contrário. A impressão é de que o governo não tem capacidade e não possui nenhum músculo democrático. Está estruturalmente incapacitado para se sintonizar com este novo momento que se abre com a votação popular do domingo passado.”
No poder desde o fim de 2023, a convocação do plebiscito se deu, também, como uma forma para impor uma agenda “linha dura”, aos moldes do salvadorenho Nayib Bukele, na área da segurança — Noboa tentou, por exemplo instituir a castração química para estupradores, o que foi barrado pela Suprema Corte. O país enfrenta uma grave crise de segurança e lidera a taxa de homicídios entre os latino americanos, com 39 homicídios para cada 100 mil habitantes em 2024, segundo o site Insight Crime.
Como resposta à crise política instaurada em seu governo, Ramírez aposta em uma escalada autoritária de Noboa. Nesse sentido, ele imagina que mudanças nessa área podem ser anunciadas em breve.
“Até agora, ele não anunciou nada [na área de segurança], porque acredito que isso exige uma maior cautela. É preciso dialogar com as Forças Armadas e com os Estados Unidos, segundo a lógica de Noboa. Então, ainda poderiam haver novidades. E poderia ser uma maior radicalização.”
