Em meio às discussões e mobilizações realizadas em Belém (PA) durante a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP30), movimentos sociais, povos e comunidades tradicionais alertam que os efeitos do desequilíbrio do meio ambiente têm cor, gênero e endereço. No Brasil, o racismo ambiental, denunciado por esses grupos e sujeitos, afeta com mais intensidade territórios vulnerabilizados, como periferias urbanas, comunidades indígenas e quilombolas.
A Declaração de Belém sobre o Combate ao Racismo Ambiental, apresentada ao final da Cúpula de Líderes que antecedeu o início da COP30, reconhece que a crise ecológica global é também uma crise de justiça racial. O documento, lançado no dia 7 de novembro, aponta “que o desenvolvimento sustentável somente será alcançado quando forem eliminadas as desigualdades que afetam de forma desproporcional pessoas afrodescendentes, Povos Indígenas, comunidades tradicionais e outros grupos e minorias vulneráveis em todas as regiões do mundo”.
Nesse cenário, as mulheres negras têm sido especialmente afetadas pela crise climática. Sendo as principais chefes de família nos lares brasileiros, que acumulam dupla ou tripla jornada de trabalho, lidam cotidianamente com os efeitos do racismo, do patriarcado e das desigualdades sociais. No entanto, são também as mulheres negras as guardiãs de saberes ancestrais e lideranças populares que historicamente têm desenvolvido estratégias de resistência para sobreviver e defender direitos. Por isso, quando se fala em justiça climática e socioambiental, elas deveriam também estar no centro das discussões.
É o que propõe a campanha Nada sobre o clima sem as mulheres negras, uma iniciativa da Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE) lançada neste mês de novembro. Com o objetivo de ampliar o diálogo com a sociedade sobre o protagonismo das mulheres negras nas lutas por justiça climática e no enfrentamento ao racismo ambiental, a ação busca apresentar “um contraponto às narrativas hegemônicas, destacando as potencialidades, saberes e modos de vida das mulheres negras em diferentes territórios — campo, cidades, águas e florestas”, destaca a entidade.
Tecnologias ancestrais para enfrentar a crise
A campanha articula mulheres negras de diversos movimentos populares, coletivos e comunidades e mobiliza reflexões sobre os impactos da crise climática nas suas vidas. Em todo o país, o racismo ambiental é apontado por essas mulheres como catalisador dos impactos das mudanças do clima nos seus territórios.
“Nós vivemos o racismo ambiental quando não temos saneamento básico. Nós vivemos o racismo ambiental com as condições de moradia que nós vivemos. Nós somos impactadas com o racismo ambiental quando as tragédias recaem sobre nós”, destaca Valdecir Nascimento, coordenadora da sub-região do Brasil na Rede de Mulheres Afrolatinoamericanas, Afrocaribenhas e da Diáspora.

Liderança histórica do movimento negro, Nascimento é soteropolitana, fundadora do Odara – Instituto da Mulher Negra e também compõe a Articulação de Organizações de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB). A despeito do racismo e apagamento diários, a historiadora destaca que as mulheres negras carregam e cultivam saberes e tecnologias ancestrais que operam na contramão da lógica exploradora do capital e apontam para outros modos de vida.
“Nós vamos, no cotidiano, inventando, reinventando novas formas de viver a partir do que nós imaginamos e numa relação integrada com a natureza. Nós não vivemos desmatando, nós usamos as folhas para nossos ritos sagrados, nós lidamos com a natureza para os nossos banhos e para os nossos cuidados. Nós acreditamos que existe força viva no rio, no mar, na floresta, em cada planta. Para nós, o planeta é sagrado”, salienta.
Nesse sentido, Valdecir aponta que as mulheres negras precisam ter suas vozes e suas contribuições amplificadas para que haja um real enfrentamento às problemáticas ambientais.
“Pensar uma justiça de clima é pensar que essas sujeitas invisíveis, essas sujeitas que vêm gestando historicamente o impossível, têm coisas ricas, poderosas, que podem, de fato, resolver, trazer soluções importantes para o clima, para a sociedade, para o planeta.”
Justiça climática e direito à cidade
De acordo com o relatório Sem Moradia Digna, Não Há Justiça Climática, produzido pela ONG Habitat para a Humanidade Brasil e apresentado durante a COP30, cerca de 66% das pessoas que residem em áreas de risco nas cidades brasileiras são negras. Entre 2013 e 2022, foram cerca de 2,1 milhões de casas danificadas por desastres climáticos e 107 mil destruídas no Brasil por desastres ambientais. Dados apontam que as famílias mais afetadas foram aquelas chefiadas por mulheres negras.
Para Suely Santos, coordenadora da Casa da Mulher Negra da Bahia e integrante da Rede de Mulheres Negras da Bahia, o racismo ambiental sofrido pelas mulheres nas cidades está diretamente relacionado ao racismo institucional.
“As mulheres negras enfrentam maiores desafios quando se trata de acesso aos serviços básicos de saúde, moradia, segurança alimentar. Sendo assim, o racismo ambiental é intrínseco ao racismo institucional, na ausência de políticas que garantam uma vida digna para essas mulheres”, salienta.

A coordenadora também aponta a necessidade de incluir o Direito à Cidade nessa discussão, pois “a análise também perpassa pela territorialidade, e esses territórios são espaços definidos pelo condicionante de gênero e raça, definindo quem tem direito a transporte, a unidades de saúde, a escolas, a segurança, ao direito de professar sua fé.”
Em relação à contribuição das mulheres negras no debate sobre justiça climática, Santos destaca que há diversas iniciativas feitas por marisqueiras, pescadoras, catadoras de recicláveis e outros grupos que aliam o sustento das famílias ao regaste de saberes ancestrais. No entanto, alerta que essas pessoas também estão constantemente ameaçadas em seus territórios pela especulação imobiliária e violência, inclusive por conta do racismo religioso.

“Cresce o número de líderes comunitários e religiosos sendo assassinados por lutar pelos seus territórios. Essas práticas tradicionais são importantes, mas carecem de proteção, ou seja, uma política que garanta sua prática. Então dentro do debate climático deve constar os enfrentamentos ao racismo, ao ódio religioso, à economia, ao sexismo, etc, tudo como tema transversal”, aponta.
Das águas, o chamado para a luta
“Eu tenho falado que antes a gente esperava a chuva com muita alegria, principalmente quando não tinha água ainda canalizada. Esperava o sol, que é o período do verão, pra gente ganhar dinheiro. Esperava as águas, a maré de março, mas hoje a gente começa a ter medo. As chuvas têm sido muito fortes, a ponto de a gente nunca ter visto casa desabando nem alagando, e a gente viu esse ano. A maré de março nunca chegou aonde chegou.”
Quem compartilha esse relato é Marizelha Lopes, pescadora e quilombola de Bananeiras, na Ilha de Maré, em Salvador (BA). Também conhecida como Nêga Lopes, é integrante da Articulação Nacional das Pescadoras (ANP) e fundadora do Movimento Nacional de Pescadoras e Pescadores (MPP).
Desde criança, Lopes acompanhava os pais em reuniões da comunidade, e aos 17 anos já estava participando ativamente das mobilizações em defesa do seu território. Hoje, aos 55 anos, mãe solo de três filhos e avó de dois netos, conta que dedicou sua vida à luta.

“Como a grande maioria das mulheres negras, por ser filhas de descendentes de escravizados, a gente não tem vida fácil, a gente trabalha muito, luta muito. Então, minha trajetória de vida é cercada por muito amor familiar e comunitário, mas também de muita luta em defesa da natureza, que por sua vez é quem garante a nossa existência”, salienta.
A pescadora nasceu e cresceu em Ilha de Maré, um território cada vez mais impactado pelas mudanças climáticas e pelo agronegócio. A ilha é vizinha do Porto de Aratu, considerado um dos mais importantes escoadouros da produção química e petroquímica do país. Marizelha denuncia que o território é diretamente impactado pelos produtos que chegam ao porto e contaminam as águas, que vai desde soja até metais e minerais, como magnesita, alumínio e cobre. Como resultado, a pescadora aponta que muitos habitantes de Ilha de Maré têm adoecido e morrido devido aos altos índices de contaminação.
“As mineradoras, o agronegócio, quando a gente fala, parece que tá muito distante da gente, mas não tá. Tá dentro dos nossos territórios, dos maretórios, tá dentro de nossas comunidades”, destaca a liderança.
Para lutar contra esses problemas, que também impactam nas mudanças climáticas, Marizelha relata que as mulheres negras da comunidade de Bananeiras têm cada vez mais se organizado e articulado com outros movimentos sociais e territórios, como a partir da Teia dos Povos, para defender seus direitos.

“A estratégia é essa, a gente se organizar enquanto coletivo, fazer ocupações, fazer os enfrentamentos aí pra, principalmente, demonstrar à sociedade o quanto que se faz necessário a gente se organizar e articular campo e cidade pra que a gente possa viver melhor.”
Quando se fala em justiça climática, Marizelha aponta que são os modos de vida e saberes das mulheres negras que protegem o meio ambiente e minimizam os impactos da crise ambiental.
“Se não fossem as comunidades, se não fôssemos nós, mulheres pretas e negras, mulheres das águas e mulheres que dependem das águas, como as mulheres de terreiro, caiçaras, ribeirinhas, extrativistas, indígenas, se não fosse nós mulheres — e aí falando de nós daqui de Ilha de Maré, mulheres pretas — aqui estaria mais quente, as águas tinham avançado mais, as chuvas estariam mais fortes.”
E completa: “A gente tá fazendo isso porque a gente depende diretamente do meio ambiente, que não é meio, né? Que é um todo.”
