Em meio à campanha para as estratégicas eleições gerais, representantes da oposição hondurenha suspenderam seus atos eleitorais e viajaram aos Estados Unidos para se reunir com congressistas e participar de uma audiência na Câmara dos Representantes.
A comitiva foi integrada pelo candidato presidencial do Partido Liberal, Salvador Nasralla, e pelas deputadas do Partido Nacional Fátima Mena, Maribel Espinoza e Claudia Ramírez. A delegação viajou a Washington para participar da audiência pública intitulada “Democracia em Perigo: A Luta por Eleições Limpas em Honduras”, organizada pela congressista republicana de origem cubana María Elvira Salazar. Nesse espaço, a oposição hondurenha denunciou — sem apresentar provas — a suposta intenção do partido no poder, o Libre, de cometer fraude nas próximas eleições.
A audiência em Washington e as declarações de Salazar
Durante a audiência, Salazar — conhecida por suas posições hostis em relação a governos de esquerda na América Latina e no Caribe — afirmou que Honduras enfrenta uma “encruzilhada” e, alinhando-se às recentes advertências de altos funcionários dos EUA, declarou que “os Estados Unidos estão de olho em Honduras neste 30 de novembro”.
Referindo-se à situação interna do país, a congressista por Miami afirmou que os hondurenhos “merecem um governo que não seja comunista e que pense primeiro no futuro”, alegando que os Estados Unidos devem garantir que “a democracia prevaleça” na região.
“Honduras não vai decidir apenas um presidente, mas se a nação continuará sendo livre ou não, ou se cairá nas garras do comunismo. Naquele dia, o país não votará em um nome, mas em um futuro. E a responsabilidade do governo dos Estados Unidos e deste comitê é assegurar que a liberdade e a democracia prevaleçam em Honduras”, declarou.
Ela acrescentou ainda que “há quatro anos o povo de Honduras elegeu uma presidente socialista chamada Xiomara Castro. A senhora Castro declarou, com suas próprias palavras, ser admiradora de Hugo Chávez e de Fidel Castro. Não é preciso explicar o que esses dois fizeram em seus países”.
Por fim, ela conclamou os eleitores a “refletir cuidadosamente sobre sua decisão eleitoral” e afirmou: “Não vamos permitir que outro país da nossa região caia nas mãos do socialismo”.
A reação do governo e as acusações de Nasralla
Após a reunião, o candidato presidencial do Partido Liberal, Salvador Nasralla, reiterou em suas redes sociais que, em sua opinião, existe uma fraude “em andamento”. Sem apresentar qualquer prova, acusou o governo de usar programas estatais e crises supostamente geradas de forma deliberada para distrair a população, alegando que o governo tenta “roubar o direito de escolher”.
A presença da comitiva opositora em Washington gerou reação imediata do governo hondurenho. O vice-chanceler Gerardo Torres manifestou preocupação nas redes sociais, afirmando que setores da oposição estariam solicitando a intervenção dos Estados Unidos nos assuntos internos de Honduras. Torres também afirmou que a disputa eleitoral está sendo afetada pela “mentira, fraude e violência” da oposição.
Escalada de tensões e reações internacionais
As tensões políticas vêm aumentando desde o fim de outubro, quando o Procurador-Geral da Nação, Johel Zelaya, divulgou cerca de 26 gravações de conversas envolvendo líderes do Partido Nacional e um militar não identificado, nas quais se menciona um plano para alterar os resultados eleitorais. O Ministério Público sustenta que o conteúdo dos áudios revela a existência de uma “associação ilícita” dentro da oposição.
A oposição rejeitou a autenticidade dos áudios, classificando-os como parte de uma “campanha suja” do governo. Tanto o Partido Nacional quanto o Partido Liberal denunciaram que o governo tenta desacreditar seus líderes para influenciar a opinião pública antes das eleições. Nesse contexto, os candidatos de oposição do Partido Nacional, Partido Liberal e Partido Democrata Cristão assinaram, em 11 de novembro, um acordo para “defender o voto” diante da suposta tentativa do partido governista — o LIBRE — de “não respeitar a democracia”.
A partir desse episódio, a Secretaria-Geral da OEA publicou um comunicado expressando sua “preocupação” com a situação política do país. A declaração recebeu apoio de Christopher Landau, Subsecretário de Estado dos EUA para a América Latina, que afirmou que o governo norte-americano agirá “de forma rápida e firme” diante de qualquer tentativa de comprometer a integridade do processo eleitoral.
Landau destacou que os Estados Unidos acompanham de perto a situação em Honduras e pediu às autoridades eleitorais e às Forças Armadas que cumpram estritamente o estabelecido na Constituição. Ele também afirmou que qualquer ataque contra o processo democrático será alvo de resposta imediata por parte de Washington.
As eleições de 30 de novembro mobilizarão mais de 6,5 milhões de hondurenhos convocados a eleger presidente, deputados e autoridades municipais. Estas serão as primeiras eleições gerais desde a chegada ao poder do Partido Liberdade e Refundação (LIBRE), com Xiomara Castro, cuja vitória em 2021 encerrou o prolongado predomínio do Partido Nacional e do Partido Liberal.
Cinco candidatos disputam a presidência, embora pesquisas indiquem que apenas três concentram a maior intenção de voto. Rixi Moncada, candidata do governo, propõe dar continuidade às reformas impulsionadas pela gestão de Castro. Nasry Asfura concorre pelo Partido Nacional com a expectativa de recuperar o controle do Executivo. Salvador Nasralla, candidato do Partido Liberal, retorna à disputa após romper sua aliança com o governo.
