O cientista político Francisco Fonseca, professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e da Fundação Getulio Vargas (FGV-SP), afirma que a ida do deputado federal Alexandre Ramagem (PL-RJ) para os Estados Unidos confirma a condição de fugitivo e exige uma resposta firme das instituições. Ele estava proibido de deixar o Brasil. “É fuga. Fuga de quem está condenado, de quem já foi julgado como um golpista”, classifica, em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato.
Segundo Fonseca, não há diferença entre o caso do parlamentar, condenado a mais de 16 anos de prisão por envolvimento na trama golpista, e o da ex-deputada Carla Zambelli (PL-SP), presa na Itália. “Ramagem é um fugitivo tal como a Carla Zambelli. Não tem diferença entre eles”, afirma. Para ele, o pedido de prisão via Organização Internacional de Polícia Criminal (Interpol) é “a resposta mais correta possível”. “Se sabe onde ele está. Me parece que é possível capturá-lo, sim, com a ajuda da Interpol”, sentencia.
A saída de Ramagem acendeu o alerta entre autoridades sobre outros condenados por envolvimento na tentativa de golpe, uma vez que apenas o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) é monitorado por tornozeleira eletrônica. Fonseca considera o risco real. “Claramente [há risco de fuga]. É claro que essa gente sabe que vai para a cadeia. E vários deles estão tramando isso, especialmente aqueles que não estão ainda com tornozeleira eletrônica”, diz.
Ele aponta que parte dos envolvidos tem carreira militar ou atuação em serviços de informação, o que facilitaria novas tentativas de evasão. “Me parece que devem ser reforçados, inclusive com tornozeleira eletrônica, para que não ocorram novas fugas”, defende.
Pedido de prisão domiciliar de Bolsonaro
A defesa de Bolsonaro pediu ao Supremo Tribunal Federal (STF) que substitua o regime inicial fechado pelo qual o ex-presidente foi condenado por uma prisão domiciliar humanitária. Fonseca classifica a manobra como previsível. “É conhecida, para usar um ditado popular, manjada”, brinca.
Segundo ele, Bolsonaro recorre sistematicamente a alegações de problemas de saúde para evitar punições. “Aquele valentão agora é um dodóizinho, uma figura frágil, que não pode comer uma comida”, ironiza. O professor critica a contradição no discurso da extrema direita. “O conceito de direitos humanos, que foi rigorosamente destruído pela extrema direita, agora invocam. É curioso”, observa.
Fonseca acrescenta que o país vive um momento histórico inédito. “É a primeira vez em mais de 200 anos que militares, e lembrando que o Bolsonaro é um ex-militar, vão para a cadeia e precisam ir para a cadeia”, pontua. Para ele, o ex-presidente deve cumprir a pena em um presídio comum. “O lugar dele é na Papuda. Isso é uma questão de ética política e de justiça para o Brasil”, opina.
Caso o STF aceite o pedido da defesa, o professor avalia que seria um recuo drástico. “Claro que isso seria uma espécie de banho de água fria, um anticlímax”, indica. Ele lembra que Bolsonaro já vive, na prática, em condições privilegiadas. “Ele já está em prisão domiciliar, recebendo aliados, fazendo política, numa mansão”, menciona.
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