A 30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP30) chega ao seu último dia nesta sexta-feira (21), em Belém, depois de um incêndio registrado na véspera, no centro de convenções – já controlado – e de uma semana marcada por “correria e tensões”. Na reta final das negociações, Mahryan Sampaio, diretora executiva do Instituto Perifa Sustentável, defende que a atuação popular precisa seguir firme.
“Enquanto movimento, seguimos aqui atuantes e firmes até o último minuto. Precisamos estar”, afirma. “A palavra de ordem para a sociedade civil, como bem diz a nossa ministra [do Meio Ambiente] Marina Silva, é seguir pressionando e seguir cobrando até o final dessa conferência”, destaca.
Segundo Sampaio, a COP no Brasil ampliou a participação da juventude, do movimento negro e de organizações de base, mas também intensificou disputas internas. “Competimos credencial, financiamento e espaço, inclusive de fala, com diversos outros atores. O lobby da indústria do petróleo, dos combustíveis fósseis, empresas que não estão tão comprometidas com a pauta ESG [sigla em inglês para Ambiental, Social e Governança]… temos de tudo nesse lugar”, relata.
Ela revela que, nos momentos decisivos, países costumam abandonar as plenárias tradicionais e se reunir nos chamados “huddles”, encontros improvisados para destravar temas sensíveis. Sem poder negociar diretamente, apenas via constituintes, a sociedade civil tenta manter uma pressão política constante. “Represento dois setores macro, que são os movimentos de juventude e negro, e temos colocado as nossas pautas de forma muito incisiva, inclusive em conjunto com o corpo diplomático brasileiro”, conta Sampaio.
Entre as prioridades, está garantir presença de crianças e jovens nas decisões climáticas e assegurar que afrodescendentes apareçam no texto final. “Já conseguimos que isso estivesse em alguns textos específicos, mas em outros é uma decisão ainda a ser discutida”, indica. Ela explica que termos ainda entre colchetes podem ser removidos pelos países.
Além disso, conforme a dirigente, havia um risco real de a COP não apresentar nenhuma decisão sobre adaptação climática, um tema que considera urgente para o Brasil. “Se tivéssemos perdido o fôlego na primeira semana, não teria como ter esses avanços”, avalia. A expectativa é de que a adaptação apareça em textos específicos, mas o objetivo é garantir presença também na transição justa, metas globais, planos nacionais e plano de ação de gênero.
Mesmo com maior presença de movimentos sociais nesta edição, Sampaio acredita que a conferência da Organização das Nações Unidas (ONU) “ainda é um espaço excludente”. Ela cita barreiras como o idioma e a dificuldade de financiamento, além do acesso limitado a credenciais. Ainda assim, avalia que houve avanços com o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). “As 300 credenciais direcionadas ao movimento indígena já são um marco”, celebra.
Sampaio reforça que o compromisso de monitoramento permanente não depende de quem ocupa cargos no governo. “Nós vamos continuar, independentemente de quem está no Palácio do Planalto, de quem está à frente da COP, seguiremos com essas cobranças”, declara.
Para ouvir e assistir
O jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira às 9h e a segunda às 17h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.
