Ketlyn Jennifer Vargas da Silva, 25 anos, foi esfaqueada pelo ex-companheiro, de 42 anos, na frente do filho de 5 anos, autista nível 3 de suporte, dentro de casa, no bairro Santos Dumont, em 8 de setembro. Levada ao hospital, permaneceu internada por 43 dias, mas não resistiu. Foi o primeiro feminicídio da cidade.
O ex-companheiro está preso, a audiência de instrução e interrogatória foi agendada para 19 de janeiro de 2026, às 17h30, no Foro de São Leopoldo, onde serão ouvidas testemunhas de defesa e acusação.
“A minha filha era uma pessoa muito especial. Amorosa. Uma mãe maravilhosa. Uma mulher fiel”, contou, emocionada, a mãe, Jaqueline Silva Vargas, 42 anos, durante o ato realizado na manhã de sábado (22), em São Leopoldo.
O neto, Gael, segue sob seus cuidados. A guarda definitiva, segundo ela, está em análise pelo Ministério Público. Sobre o estado do menino, afirmou que, por conta do autismo, ele está bem por não compreender o ocorrido. No dia do crime, conforme relato, Gael teria se deitado no chão e feito carinho na mãe.
A família continua abalada. “Eu tenho mais três filhos homens. De menina eu só tinha ela”, relatou. “Todo mundo ficou muito abalado. Principalmente o irmão do meio, que era mais apegado a ela.” Vargas disse que só descobriu as ameaças após a morte da filha. “Tudo a gente ficou sabendo depois, até porque eu estou com o celular dela. Então vi várias mensagens ali.”
Alerta para as mulheres
“Pela vida e pela liberdade de escolha de todas as mulheres. Pelo fim da cultura da misoginia que leva ao feminicídio. Pelo fim das violências contra as mulheres. E pelo direito de mulheres e crianças viverem em paz. Basta de feminicídio, basta de misoginia.” Foram algumas das palavras de ordem proferidas no ato, que reuniu familiares, amigas, movimentos feministas e parlamentares.
“A gente está reivindicando a justiça pelas mulheres, não só pela Ketlyn, porque a dela foi o ápice: chegou à morte. As mulheres têm que denunciar. Se elas não têm coragem, que contem pra algum familiar, que elas se abram com alguém. Porque elas têm os direitos delas”, declarou Jaqueline Silva Vargas.
Segundo ela, o ato tem como objetivo denunciar a escalada de violência. “É um ato de repúdio contra o feminicídio, que está em alta aqui no Rio Grande do Sul. Então é isso, é um alerta. É um alerta para as mulheres.”

Memória e justiça
“A gente foi criada na mesma volta do bairro. Todo mundo brincava junto na rua. Depois cada uma seguiu seu caminho. Há seis anos, quando ela começou a fazer cílios e eu comecei a fazer com ela, nossa amizade virou irmandade”, relatou Rafaela Silva de Almeida, 23 anos, uma das melhores amigas de Ketlyn e uma das organizadoras do ato e sobrevivente de violência doméstica.
Segundo ela, Ketlyn nunca havia falado sobre agressões ao longo do relacionamento. “Em momento algum a Ketlyn nos falava de agressão. Mas, perto do término, ela começou a nos dar alertas, começou a deixar a gente ver a situação que estava acontecendo. Foi quando a gente abriu o olho”, afirmou Almeida, que lembrou que a mãe da Ketlyn chegou a tentar tirar ela de casa duas vezes. “Ela conseguiu sair, mas seguia dando chances, perdoando, esperando o melhor dele, até porque ele era um bom pai para o menino. Ela pensava no filho.” Segundo ela, após o término, Ketlyn resistiu às pressões e às violências durante semanas.
Na sexta-feira (21), Almeida foi agredida pelo ex-companheiro, que não aceitava o fim do relacionamento. “Eu tinha acabado de terminar o relacionamento. Cheguei em casa, e logo em seguida ele chegou. Tentou entrar, tranquei a porta, mas ele pulou a janela. Começou a agressão verbal, tentando me diminuir”, lembra. Ao se levantar para questionar os gritos, as agressões físicas começaram. “Levei socos, empurrões, fui jogada na parede. Meu telefone foi quebrado e levado porque ele viu que eu estava gravando.”
Almeida contou que, ao tentar recuperar o celular, foi arrastada pelo carro do agressor. “Podia estar pior pela situação que foi. Apanhei bastante, mas minha força vai seguir. E é por ela, Ketlyn, que eu estou aqui hoje.”
Ela procurou a delegacia, onde fez o registro da ocorrência e pediu medida protetiva. O atendimento, porém, foi demorado devido ao feriado. “Me informaram que demoraria 48 horas e que não teria corpo de delito no dia. Só na terça-feira, cinco dias após o acontecido.” Durante a caminhada por justiça a Ketlyn, ela foi informada pela polícia de que sua medida protetiva havia sido concedida.
Quando perguntada sobre o pedido que Ketlyn fez antes de morrer, respondeu: “Ela pediu para alertar outras mulheres, para não deixar eles se safarem. Pediu para exigir justiça e contar a história dela. É o que faço todos os dias nas redes sociais”.

Mobilização em escolas, redes e na comunidade
Desde o feminicídio de Ketlyn, Almeida tem participado de ações de conscientização. “A gente teve encontros na casa da mãe da Ketlyn e na escola Chico Xavier, para alertar as meninas novas sobre relacionamentos agressivos, tóxicos. E sigo falando com mulheres todos os dias. Muitas me procuraram. Conversei com várias. A minha dor não vai me parar. Que essa dor sirva como força para lutar por justiça”, afirmou.
Ela reforçou a importância de acolhimento psicológico e das políticas públicas. “O trauma é muito doloroso para a família e para os filhos. Precisam garantir escolas seguras, acolhimento seguro, consultas médicas seguras.”
Almeida é mãe de um menino de um ano e dez meses. Ela destacou que muitas mães enfrentam dificuldades no atendimento, especialmente quando há diagnósticos como o do filho de Ketlyn, Gael, autista. “A briga é maior em questão de saúde, porque o município está fraco de profissionais, mas seguimos encaminhando. Graças a Deus hoje meu filho tem a mim e à minha família. Não estou sozinha. Mas muitas crianças não têm.”

“A misoginia não reconhece limites”: violência e revitimização
Integrante do coletivo essas.mulheres.em, Paula Lau fez um pronunciamento contundente sobre misoginia, violência doméstica e omissão do poder público. Ela lembrou que 69 mulheres foram vítimas de feminicídio em 2025 (de janeiro a outubro) e relatou a agressão sofrida, horas antes da caminhada, por Rafaela, amiga de Ketlyn, ambas atacadas pelos respectivos ex-companheiros.
Além dos feminicídios consumados, o estado registrou, de acordo com o Observatório Estadual de Segurança Pública, 220 tentativas. No levantamento realizado pelo Observatório de Feminicídios Lupa Feminista, de janeiro até o dia 21 de novembro, foram contabilizados 76 feminicídios. Os casos já ultrapassam os de 2024, em que se registrou 72 mortes.
Segundo Lau, Rafaela ainda foi revitimizada na Delegacia de São Leopoldo. Para ela, casos como esse revelam uma cultura que legitima as violências masculinas contra mulheres. “A misoginia, o machismo e as violências masculinas não reconhecem limites, e qualquer uma de nós pode ser a próxima vítima.”
Ela destacou que a caminhada exige justiça para Ketlyn, jovem, mãe de Gael, que presenciou o assassinato da mãe. Antes de morrer, Ketlyn pediu que familiares e amigas lutassem para que outras mulheres não vivessem o que ela viveu.
Lau criticou a estrutura patriarcal que condiciona mulheres à dependência emocional e econômica e afirmou que, mesmo quando rompem a relação, seguem expostas a violências psicológica, física, sexual, moral, financeira e vicária, quando os filhos são usados como instrumento de punição. “O feminicídio é o ápice do desespero masculino diante da perda de controle”, denunciou.
Ela também reforçou que o Estado tem responsabilidade direta na proteção das mulheres. “Todas essas violências estão previstas na Lei Maria da Penha, e é dever do poder público acolher, proteger e responsabilizar o agressor.”

Lei Ketlyn Vargas: mobilização por medidas protetivas e aluguel social
O ato também cobrou a aprovação da Lei Ketlyn Vargas em São Leopoldo, que prevê medidas protetivas e aluguel social para mulheres em situação de violência. Segundo Paula Lau, a proposta, de autoria da vereadora Karine Camilo (PT), enfrenta resistência da Procuradoria da Câmara, e sua aprovação exigirá mobilização popular.
Ela lembrou que a legislação cumpre determinações da Lei Maria da Penha para que estados e municípios criem normas complementares. “Não é uma questão partidária, é pela vida das mulheres. Todas podem ser vítimas.”
“Essa política é prevenção”: parlamentares cobram ação do Estado
A vereadora Karine Camilo (PT), procuradora da Mulher na Câmara e autora do projeto de aluguel social, revelou ter sido vítima de violência doméstica há mais de 25 anos e afirmou que romper ciclos de abuso “exige muita coragem”.
Moradora da periferia, destacou que a agressão sofrida por Rafaela reflete a realidade do território. Disse que, quando foi secretária de Administração, atendia casos encaminhados pelo Ministério Público e pelo Judiciário, mas enfrentava falta de legislação específica. Seu projeto, ressaltou, busca criar essa garantia: “para que a gestão possa prever orçamento e atender mulheres que precisam se libertar”.
A vereadora afirmou que, apesar da rede de proteção e dispositivos de combate à violência, São Leopoldo está “aquém das necessidades”, agravadas por pandemia, enchentes e crises econômicas. Camilo reforçou que o aluguel social é essencial para mulheres que dependem financeiramente dos agressores. “Mulheres da periferia estão perdendo a vida porque não têm um teto.”

A deputada estadual suplente Ana Afonso (PT) destacou que a dor provocada pela violência doméstica “é para a vida toda” e que o enfrentamento exige políticas públicas. Ela também criticou retrocessos no Rio Grande do Sul. “Somos o sétimo estado que mais mata mulheres. O estado que criou referências perdeu muito do que acumulou.”
Afonso defendeu o projeto de Karine Camilo como medida de prevenção e criticou a ausência da Secretaria de Políticas para as Mulheres e do governo municipal no ato. Sobre o feminicídio de Ketlyn, afirmou que a brutalidade do caso revela que “a humanidade está se perdendo”.
Frente Parlamentar busca dialogar com homens
O vereador Fábio Bernardo (PT), integrante da recém-criada Frente Parlamentar de Homens pelo Fim da Violência contra as Mulheres, explicou que o objetivo do grupo é dialogar diretamente com os homens. Ele se solidarizou com Rafaela e com a família de Ketlyn e afirmou que é necessário ampliar a conversa em todos os espaços.
“Nem todo homem é um feminicida, mas precisamos conversar com os companheiros do futebol, do bar, do trabalho.” Segundo ele, os homens precisam assumir responsabilidade. “Se somos nós que matamos as mulheres, somos nós que temos que tratar sobre isso. Não dá para colocar mais uma sobrecarga nas mulheres.”
Desigualdades estruturais e atendimento especializado
A ex-vereadora Nadir Jesus (PT), primeira parlamentar negra do município, criticou a falta de atendimento especializado nos finais de semana. “Como assim não se atende no final de semana?”, questionou, cobrando o funcionamento 24 horas da Delegacia Especializada.
Ela relacionou feminicídio às desigualdades estruturais. “A nossa morte é lenta. Acontece quando estamos fora do mercado de trabalho, quando não temos educação para os filhos, quando não estamos nos espaços de poder. A nossa morte vem daquele que disse que nos amava.”
A ex-vereadora reforçou a importância de políticas como o aluguel social e o atendimento 24 horas. “Vamos lutar pelo aluguel social, pelo atendimento digno, e que homens possam estar conosco nessa luta. Porque quem mata as mulheres, infelizmente, são os homens.”
“O machismo está instaurado na sociedade”
Representando a União Brasileira de Mulheres (UBM), Salete Souza lamentou a necessidade do ato. “Nós precisaríamos estar comemorando a democracia, mas as violências nos atravessam diariamente.”
Ela pediu silêncio e respeito à família de Ketlyn e destacou a insegurança nas ruas. “As nossas filhas não têm tranquilidade de andar com segurança. Porque o machismo está instaurado na sociedade. Nós não queremos mais nenhuma vítima. A lei do ‘não é não’ é fundamental.”
Souza cobrou compromisso dos homens presentes. “Que levantem a bandeira contra o machismo, que saiam homem a homem dizendo que não aceitamos mais.” Concluiu pedindo união: “A gente tem que lutar olhando nos olhos, dizendo que queremos viver em paz. Que o patriarcado seja extinto definitivamente.”
A presidenta do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher (Comdim), Antoninha Della Mea Lima, afirmou que todas as mulheres estão sujeitas à violência. “Nós temos que nos unir mais e disputar menos. Enquanto continuarmos nos degradando entre nós, os homens estão rindo da nossa cara.”
Ela defendeu um pacto coletivo entre entidades, conselho e governo municipal. “O que for bom, temos que apoiar. O que não for, temos que denunciar.” Reforçou que o Conselho da Mulher “não tem partido, não tem lado”.
Já a jornalista e integrante do Levante Feminista contra o Feminicídio Télia Negrão afirmou que a violência atravessa mulheres de todas as condições. “As mulheres, independentemente de raça, cor, identidade, condição socioeconômica, são assassinadas pela violência machista.”
Negrão lembrou que atos como o de São Leopoldo têm ocorrido em diversas cidades. “É Luane, Cauane, Isadora… mulheres com nomes lindos que deixaram de existir entre nós.” Ela destacou que a violência é consequência do modelo social e defendeu legislações em tramitação.
Estiveram presentes ao ato representantes do Observatório de Feminicídios Lupa Feminista, do Fórum Estadual dos Direitos das Mulheres, das Promotoras Legais, entre outros movimentos.

“Não deixem chegar ao último”
A mãe de Ketlyn, Jaqueline, reconhece que o medo impede muitas mulheres de denunciar. “Elas têm muito medo, ou é uma ameaça psicológica. Daí acham que tem que chegar a bater pra poder ir lá fazer uma denúncia, e não é assim. O psicológico também tu tem que ir atrás, denunciar.”
No final, ela deixou um recado para que as mulheres não se calem: “Que não deixem chegar ao último, que nem foi a Ketlyn. Hoje eu sou uma mãe que sofre, que está sofrendo. Não gostaria que outras mães estivessem passando por isso. Então que essas mulheres façam as denúncias, elas têm direito.”
Emocionada, Rafaela Silva de Almeida deixou um recado aos homens. “Um término não é o fim da vida. A mulher vai seguir a vida dela. O homem também precisa aceitar isso. Eu, Rafaela, não me escondo. A Ketlyn não se escondeu. E foi o motivo dela vir a óbito: ela estava feliz, num show, e ele não se aguentou ao ver.”
“Se você tem um amigo, um irmão que tem esse pensamento ou comete esse tipo de violência, trate isso com essa pessoa, para que não estejamos aqui de novo por outra mulher, outra amiga, outra mãe ou filha. Vou seguir pela minha amiga até o fim da minha vida. Justiça por ela. Nenhuma outra será mais uma”, finalizou.
