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O espetáculo por trás das grades: como ‘Tremembé’ reforça estereótipos do ‘crime feminino’ e camufla o colapso do sistema penal brasileiro

Artigo analisa por que este tipo de série performa tão bem nas plataformas de streaming e tem sido tão assistida

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Série da Amazon Prime Video, "Tremembé", se passa dentro da penitenciária que já abrigou nomes famosos do noticiário
A nova série da Amazon Prime Video, “Tremembé”, se passa dentro da penitenciária que já abrigou nomes famosos do noticiário policial | Crédito: Divulgação/Prime Video

A série Tremembé, da Prime Vídeo, tem ganhado grande repercussão nacional, gerando uma onda de buscas sobre a unidade prisional e sobre os crimes citados na série, tanto que é possível ver o aumento repentino de buscas sobre Tremembé e as pessoas que inspiram as personagens da série no Google Trends.

Mas por que este tipo de série performa tão bem nas plataformas de streaming, ficando entre as mais assistidas?

Arrisco dizer que o sucesso reside, em grande parte, na forma como a série opera na semi-formação da sociedade. Ao transformar tragédias sociais em espetáculo consumível de true crime, ela desvia o foco da crítica social e da estrutura penal para o sensacionalismo e a narrativa individualizada do crime, cumprindo o que Adorno (1995) já discutia sobre a coisificação na cultura de massa.

É claro que não podemos descartar o fato de que produções midiáticas ligadas ao “mundo do crime” sempre chamam a atenção do público, como vimos ao longo da história, afinal, é provocante imaginar como vivem aquelas e aqueles que, supostamente, seriam as piores pessoas do mundo.

A unidade prisional de Tremembé é conhecida, como a série explora, por ser a que recebe indivíduos que cometeram crimes de grande repercussão social, e esse é um dos principais motivos para o seu sucesso.

Diferente de outras séries de ficção sobre a temática penal, Tremembé apresenta, em tese, a realidade nua e crua de uma unidade com personagens “reais” protagonistas de crimes que mobilizaram a sociedade brasileira: o caso de Suzane Von Richthofen, o de Isabella Nardoni e o de Elize Matsunaga. Embora o caso de Nardoni envolva o pai, Alexandre Nardoni, os três casos têm em comum uma mulher como foco, o que é amplamente explorado pela série. A imagem dessas mulheres “criminosas” é largamente explorada; a sensação é de que os produtores tentam explorar a intensidade psíquica que a imagem de uma “mulher criminosa” traz à sociedade.

Nesse ponto, a série reproduz a perspectiva histórica abordada em minha tese (Ramos, 2019), segundo a qual a criminalidade feminina é vista como “anormal” ou “insana” (Davis, 2018; Rusche & Kirchheimer, 2004), o que justifica a sua depreciação.

Das mulheres, espera-se o estereótipo de gênero: a docilidade, a vaidade, tudo o que seria ligado, supostamente, ao “feminino” e à vida privada. No entanto, ao cometerem um crime, essas mulheres são destituídas de seus papéis sociais, sofrendo o que se define como dupla marginalização (ser mulher e criminosa). A produção não economiza em explorar isso: apresenta as mulheres como “loucas”, “manipuladoras”, entre outras características que visam depreciá-las e rotulá-las.

Em contraste, na penitenciária masculina retratada, tudo parece ser mais calmo e tranquilo, e a imagem predominante é a de homens que foram vítimas de injustiças: os irmãos Cravinhos, manipulados por Suzane; Alexandre Nardoni, um “coitado” desorganizado mentalmente.

Aos homens, parece ser possível a redenção; já às mulheres, cabe a perseguição (caso de Ana Carolina Jatobá) e a exploração midiática da imagem (entrevista de Suzane e filme sobre Elize). Isso reflete a construção social de gênero que, historicamente, nega a integralidade da mulher e sua possibilidade de ressocialização, como discuto a partir de Angela Davis (2018).

É interessante notar também que os crimes mostrados trazem grande curiosidade do público, pois, na sociedade, como a antropologia nos apresenta, existem pactos sociais estabelecidos e tabus. Os crimes apresentados confrontam esses pactos, como a ideia de matar os pais ou o filho. É como se, inconscientemente, todos reprimíssemos esses desejos por meio do pacto social de proibição; e, de repente, os casos reais e, consequentemente, a série expõem esse suposto desejo que fora fortemente reprimido.

Por essas e outras, esses crimes ganham tal repercussão, a ponto de a condenação do casal Nardoni ter gerado queima de fogos de artifício por vários minutos. Assim, a sociedade mobiliza-se numa tentativa de, ao mesmo tempo, negar e adorar o exposto.

Tremembé representa um nicho que invisibiliza as questões centrais do sistema penal, como o encarceramento em massa, a criminalização da pobreza e a racialização da pena (Wacquant, 2004; Davis, 2018), focando em casos que, embora midiáticos, não representam o perfil majoritário das pessoas privadas de liberdade no Brasil.

Assim, a série nos permite questionar o quanto a sociedade, ao consumir essa imagem espetacularizada do crime, se distancia da busca por uma reflexão assertiva sobre o tema, atuando somente na reprodução de um fetiche em relação ao que ocorre atrás dos muros. Além disso, em muitos momentos, a série “doura a pílula”, dando a sensação de que as prisões brasileiras não seriam tão ruins.

*Ellen Taline de Ramos é doutora em Psicologia Social pela Universidade de São Paulo (USP) e Mestre em Educação: História, Política, Sociedade pela PUC-SP. É Professora na Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS) e membro do Grupo de Pesquisa Criminologia Crítica, insurgências e questões socioambientais penais (CNPq). Sua pesquisa foca na realidade carcerária no Brasil, na interseção entre gênero e sistema penal, e na Teoria Crítica da Sociedade, com trabalhos que buscam desconstruir as narrativas de controle social e as desigualdades estruturais.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato

Editado por: Maria Teresa Cruz

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