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‘Ridícula mentira’: Caracas diz que Cartel de Los Soles é invenção dos EUA e rechaça classificação de terrorismo

Medida abre espaço para intervenção na Venezuela e aumenta tensão entre países

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20 tanques circularam por Caracas no sábado (20) levando militares para as comunidades para treinamento de milicianos
20 tanques circularam por Caracas no sábado (20) levando militares para as comunidades para treinamento de milicianos | Crédito: Pedro MATTEY / AFP

Os Estados Unidos classificaram, nesta segunda-feira (24), como organização terrorista o suposto grupo Cartel de Los Soles, que seria liderado pelo presidente da Venezuela, Nicolás Maduro. A decisão foi publicada no Registro Federal, equivalente ao Diário Oficial. 

“Por meio deste, designo a organização mencionada e seus respectivos aliados como uma Organização Terrorista Estrangeira. A designação entra em vigor após a publicação”, diz um trecho do documento assinado pelo secretário de Estado, Marco Rubio. 

Em resposta, Caracas definiu a categorização como uma “ridícula mentira”. “A Venezuela rejeita de maneira categórica, firme e absoluta a nova e ridícula mentira do secretário do Departamento de Estado dos Estados Unidos da América, Marco Rubio, que designa como organização terrorista o inexistente Cartel de Los Soles”, diz o comunicado publicado pelo ministro de Relações Exteriores, Yván Gil.

A nota afirma, ainda, que o movimento de Washington seria uma manobra para justificar um ataque contra o país caribenho. “Uma infame e vil mentira para justificar uma intervenção ilegítima e ilegal contra a Venezuela, sob o clássico formato estadunidense de mudança de regime.”

Por fim, o governo Maduro pediu que a medida seja revista.

Cartel de Los Soles

No dia 16 de novembro, domingo da semana passada, o Departamento de Estado havia publicado uma nota em que anunciava a intenção de classificar a organização como terrorista. 

“O cartel de Los Soles é dirigido por Nicolás Maduro e outros altos funcionários do regime ilegítimo de Maduro, que corromperam o exército, os serviços de inteligência, o legislativo e o judiciário da Venezuela”, dizia o documento.

O Departamento de Estado acusa a organização de responsável pelo envio de drogas aos Estados Unidos e Europa. “O Cartel de Los Soles, juntamente com outras organizações terroristas estrangeiras designadas, como o Tren de Aragua e o Cartel de Sinaloa, são responsáveis pela violência terrorista em todo o nosso hemisfério, assim como pelo tráfico de drogas aos Estados Unidos e à Europa”. 

A classificação do grupo como uma organização terrorista abre espaço para que o governo de Donald Trump aplique sanções diplomáticas aos apontados como membros do grupo e aumenta o escopo de atuação das agências de inteligência dos Estados Unidos. Na prática, a designação também pode dar caminho para justificar uma invasão ao território venezuelano

Para o analista internacional Hugo Albuquerque, a implementação da medida pode servir tanto para justificar um ataque por terra, quanto para respaldar a manutenção da operação militar no Caribe.

“Para tomar qualquer ação ou manter a pressão naval, o governo Trump precisa de algum arcabouço legal. Para continuar essa pressão — que pode ou não se desdobrar em um ataque, ou em uma guerra — eles precisam ter alguma desculpa legal, porque estão gastando dinheiro do contribuinte, e não é pouco. Eles estão estressando a Marinha”.

O Cartel de Los Soles foi criado a partir de uma tese do governo dos Estados Unidos de que, após a chegada de Hugo Chávez ao poder, em 1999, o tráfico de drogas passou a ser instrumentalizado pelo Estado venezuelano. Não há, no entanto, documentos que comprovem a existência do grupo, nem indicações concretas sobre como sua operação estaria estruturada.

“As provas em relação à existência dessa organização, ou qual a importância dela, são muito duvidosas. Em segundo lugar, um cartel de drogas não é uma organização terrorista, são duas coisas diferentes”, diz Albuquerque.

Ainda assim, com base na classificação inicial, de organização criminosa, a cabeça de Nicolás Maduro foi colocada a prêmio, sob a alegação de que ele seria o chefe deste grupo. Atualmente, sua captura vale 50 milhões de dólares. 

O número dois do chavismo, Diosdado Cabello, e o ministro da Defesa, Vladimir Padrino López, também são apontados como integrantes do grupo. Suas capturas valem 25 e 15 milhões de dólares, respectivamente. 

Falta de apoio interno

Uma pesquisa CBS News/YouGov, publicada neste domingo (23), indicou que 70% da população dos Estados Unidos se opõem a uma intervenção militar na Venezuela

Apenas 24% dos entrevistados dizem que a administração Trump explicou de forma clara sua posição sobre uma ação militar no país comandado por Nicolás Maduro. Além disso, somente 13% consideram a Venezuela uma grande ameaça. 

Por outro lado, as ações militares contra embarcações que circulam nas águas do Caribe e do Oceano Pacífico são aprovadas pela maioria da população – 53% disseram apoiar os bombardeios que já deixaram mais de 80 pessoas mortas. Ainda assim, 75% dos entrevistados deveria apresentar provas de que as lanchas atacadas estavam, de fato, transportando drogas. 

Editado por: Nathallia Fonseca

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