Sem ao menos saber o colégio onde iria votar (como pode?), Tarcísio de Freitas foi eleito governador de São Paulo em 2022 numa coligação de partidos de direita, extrema-direita, com forte apoio do agronegócio e do mercado financeiro.
Convivendo hoje o dilema se vai se lançar a CEO do Brasil em 2026 ou tentar a reeleição, os seus três anos de governo são marcados por iniciativas contra os interesses populares e com ações para acelerar as privatizações.
Num rápido exercício de memória, sem ordem cronológica, podemos relembrar as maldades sem fim do governador forasteiro.
Num rompante de falta de apreço aos direitos humanos, Tarcísio confessou “não estar nem aí” e ainda indiciou o caminho aos defensores da causa para procurarem a Organização das Nações Unidas (ONU) e os “raios que o partam”.
Em paralelo, sua Polícia Militar empreendeu a Operação Escudo/Verão na Baixada Santista que deixou saldo trágico de 84 vítimas fatais.
Houve evidências de execuções sumárias e tortura e foram as consideradas as operações mais letais da história da PM de São Paulo, desde o massacre do Carandiru.
E se ao assunto é segurança pública, o governador teve papel preponderante na articulação com o presidente da Câmara (Hugo Motta) na indicação de seu secretário da área e deputado federal, Guilherme Derrite, como relator do PL Antifacção proposto pelo governo Lula.
Em seu desempenho Derrite tentou tirar a autonomia da Polícia Federal para investigações e tentou igualar as facções criminosas a grupos terroristas. Isso abriria as portas para eventuais intervenções estrangeiras em território nacional.
Aliás, defender a soberania nacional não faz parte de seu ideário. Além de comemorar a vitória eleitoral de Trump usando como adereço boné do Maga (sigla em inglês para Tornar a América Grande Novamente), Tarcísio aplaudiu o tarifaço de Trump contra o Brasil e tentou achar como culpado o CEO Lula.
Por certo, teve amnésia ao esquecer as ações conspiratórias do deputado federal Eduardo Bolsonaro nos EUA, aliás seu concorrente direto às pretensões de candidato presidencial. Lula tirou de letra e inverteu essa narrativa ao encontrar o presidente norte-americano numa conferência quando rolou “uma química” entre ambos.
Tarcísio assumiu posição demagógica sobre o massacre no Complexo da Penha e do Alemão no Rio de Janeiro. Fiel ao seu guru Trump, ele insiste em classificar as facções criminosas como grupos terroristas. Com isso se alinha a Donald Trump que ataca com bombardeios e embarcações com supostos carregamentos de drogas no Mar do Caribe.
São notórias suas articulações de bastidores em Brasília com parlamentares do Centrão como a tentativa de colocar em votação e aprovar o projeto de anistia ao ex-presidente e demais golpistas que foram julgados pelo STF. É ou não é um novo golpe na democracia?
Em outra articulação, desta vez bem-sucedida, agiu no Congresso Nacional como lobista dos bilionários para livrá-los do aumento da alíquota do IOF (Imposto das Operações Financeiras). Com essa ação espera se credenciar como candidato do sistema financeiro para 2026.
Pé nas duas canoas
Enquanto agiu para aliviar as Bets (casas de apostas) de taxação em projeto votado no Congresso Nacional ele multiplica pedágios nas rodovias paulistas e taxa com 4% do ICMS sobre gorjetas concedidas aos garçons de restaurantes e hotéis. A fúria arrecadatória do queridinho do PFL (Partido da Faria Lima) é ignorada pela mídia empresarial. São as contradições de um governo a favor dos empresários.
Os pedágios merecem menção pela eficiência nas cobranças. Sua gestão está implantando pedágios com cobrança automática em várias estradas. E planeja implantar em breve pórticos em cidades do litoral paulista. É a tal fúria arrecadatória tão criticada por ele mesmo.
Mas Tarcísio deu para bancar Robin Hood, mas às avessas. Ele regularizou terras para concedê-las a fazendeiros e latifundiários por apenas 10% do valor de mercado. Parte dessas áreas rurais seria destinada a reforma agrária. Os ruralistas agradecem a bondade.
A cada dia o governador reforça o seu DNA bolsonarista. Ele declarou que “diploma tem cada vez menos relevância”. Menosprezo pela academia é típico da extrema-direita. No passado nazistas chegaram a queimar livros. A pergunta que surge: Será que teria coragem de passar por médico sem diploma?
A área de educação paulista sob sua gestão é um festival de absurdos. O Tribunal de Contas do Estado de São Paulo suspendeu a seleção de monitores para as escolas cívico-militares. O órgão apontou irregularidades no uso de verba para pagamento dos policias militares.
O mesmo Tribunal de Contas realizou fiscalização surpresa e encontrou situações deploráveis em escolas como refeitórios sem condições de uso e alimentos vencidos. Esse é o retrato no estado mais rico do País.
Outro retrocesso do seu governo na educação foi contido, por enquanto. A Justiça paulista barrou projeto-piloto que previa turmas de 550 alunos no Ensino de Jovens e Adultos (EJA) do ensino médio. E ainda apenas um encontro presencial por mês. Decisão, infelizmente, não é definitiva.
Enquanto cresce o número de casos de feminicídio no Estado, o “moderado” Tarcísio, com discurso recalibrado a pedido do mercado, propôs no orçamento para 2026 redução de 54% na verba para Secretaria de Políticas para as Mulheres. Mais um exemplo de negligência no combate à violência contra a mulher que se soma ao não funcionamento 24 horas das delegacias da Mulher.
E sua mais recente maldade é o projeto encaminhado à Assembleia Legislativa, da qual dispõe ampla maioria para aprovar o que bem entender, que extingue a Fundação para o Remédio Popular (Furp). É o órgão responsável pela fabricação de medicamentos para o Sistema Único de Saúde (SUS).
Não é difícil constatar que o governador Tarcísio tem o pé nas duas canoas. Se diz democrata, mas defende os golpistas. Logo que foi decretada a prisão domiciliar do seu guru Bolsonaro em agosto não titubeou. Disse na época que ele foi acusado sem provas. Para Tarcísio transgredir regras do STF deve ser normal. Nada surpreendente para quem usou o boné do Maga, o movimento para Tornar a América Grande Novamente.
* Juliana Cardoso é deputada federal eleita de São Paulo para o mandato 2023/2026 e vice-líder da bancada do PT. Faz parte da Comissão de Saúde e da Comissão de Mulheres, além de 1ª vice-presidente da Comissão dos Povos Originários e Amazônia.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.
