O jornalista Leonardo Sakamoto acredita que a crescente retórica do “patrão de si mesmo” entre trabalhadores mascara a perda de direitos e fortalece novas formas de exploração disfarçadas de modernidade. Em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, ele comentou o lançamento do seu livro O que os coaches não te contam sobre o futuro do trabalho, escrito em parceria com Carlos Juliano Barros.
Segundo Sakamoto, o Brasil vive a sobreposição de formas “arcaicas” e “modernas” de superexploração. “Ao mesmo tempo que o Brasil convive com trabalho escravo contemporâneo, trabalho infantil, racismo no trabalho, também convivemos com alta tecnologia empregada muitas vezes para a superexploração dos trabalhadores”, apontou. Para ele, as formas digitais de precarização são mais difíceis de reconhecer. “Aquelas em que acabamos por acreditar que são o grande caminho acabam nem passando pela cabeça das pessoas como uma forma de exploração do trabalho”, observou.
O jornalista alertou, sobretudo, para o avanço do “trabalhador precarizado que se acha patrão de si mesmo”, mas que está submetido ao controle de algoritmos. “O trabalhador não tem um patrão, mas tem um patrão por trás daquilo, que ele não vê. Ele está preso a um algoritmo que dita quanto ele vai ganhar, que horas ele vai trabalhar”, explicou. “Muitos trabalhadores são explorados e agradecem essa exploração por acreditarem que estão sendo independentes”, acrescentou. De acordo com ele, a situação é ainda mais grave entre entregadores, que operam “totalmente à mercê” das plataformas e sem proteção social.
Sakamoto criticou também a demonização da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), destacando que jornadas de 60 a 80 horas se tornaram comuns nos aplicativos. “O problema não é a CLT, o problema é o patrão que paga pouco”, indicou. Ele alertou ainda para riscos no Judiciário, citando a “disputa hoje no Supremo Tribunal Federal que pode legalizar a pejotização”. O avanço dessa tese poderia, na avaliação dele, “levar ao próprio fim ou enfraquecimento mortal da Justiça do Trabalho”.
Ao comentar os possíveis caminhos para reverter esse cenário, o jornalista defendeu que a solução passa por dois eixos: fazer valer a legislação trabalhista e fortalecer a mobilização social. “Não é possível a garantia de direitos sem a participação direta dos próprios trabalhadores”, opinou, citando o Breque dos Entregadores como um exemplo de novas formas de organização. “A solução não vai ser simplesmente de cima para baixo”, destacou.
O escritor concluiu reforçando que, mesmo no governo Lula, mais progressista, retrocessos continuam sendo disputados no Congresso, no Executivo e no Supremo. “Internamente, tem gente no governo que atua dia e noite pelo enfraquecimento das regras trabalhistas”, lamentou.
O autor lançará o livro O que os coaches não te contam sobre o futuro do trabalho nesta terça-feira (25), às 19h, no auditório da Reitoria da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em Belo Horizonte.
Para ouvir e assistir
O jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira às 9h e a segunda às 17h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.
