PATRIMÔNIO

Trajetória de Paulo Chimendes atravessa a tradição gaúcha das artes gráficas

Veterano desenhista, gravador, pintor e escultor é convidado de bate-papo em Espaço Cultural do Centro Histórico

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Paulo Chimendes é tema de roda de conversa no Hotel Praça da Matriz nesta quarta-feira (26)
Paulo Chimendes é tema de roda de conversa no Hotel Praça da Matriz nesta quarta-feira (26) | Crédito: Divulgação Espaço Cultural HPM

Paulo Cezar da Silva Chimendes nasceu em Rosário do Sul (RS), em 1953, mas sua família mudou para Porto Alegre quando ele era ainda criança, por volta de 1962. O quarto dos 13 filhos de um bancário e de uma dona de casa começou sua formação artística muito jovem: aos 12 anos, entrou no Atelier Livre da Prefeitura de Porto Alegre para estudar desenho, tendo mestres como Paulo Peres, Vasco Prado, Xico Stockinger e Danúbio Gonçalves, seu “padrinho” artístico.

O veterano artista plástico gaúcho será tema de um bate-papo, nesta quarta-feira (26), às 17h, em local igualmente especial para a memória da cidade e do estado. Iniciativa do Espaço Cultural do Hotel Praça da Matriz (HPM), com foco na interação entre o público e protagonistas dos mais diversos segmentos, o programa “Roda de Cultura” é gratuito e aberto a qualquer interessado, mas com vagas limitadas, mediante reserva por meio do WhatsApp (51) 98595-5690.

Além do desenho na adolescência, se dedicou ainda à gravura e à pintura, pesquisando e explorando questões artísticas vinculadas aos processos técnicos e criativos baseados nesses meios e linguagens. Sua obra transita entre a figuração e a abstração, pautando-se por uma reflexão própria sobre a relação com o mundo e o cotidiano, a partir de uma visão social e de caráter crítico a respeito da condição do indivíduo frente à sociedade e do universo urbano no contexto da expansão das cidades.

Aos 73 anos, o desenhista, gravador, pintor e escultor participa da conversa sobre sua trajetória profissional, iniciada no início da década de 1970 e que resultou em um dos mais polivalentes, produtivos e queridos nomes das artes plásticas no Rio Grande do Sul. O evento ocorre no Largo João Amorim de Albuquerque, nº 72 (próximo ao Theatro São Pedro), no Centro Histórico de Porto Alegre.

Paulinho Chimendes, como é conhecido, é um artista plástico gaúcho de grande relevância, tanto pela sua maestria técnica (gravura, desenho, litografia) quanto pela profundidade conceitual de suas obras, especialmente em relação à cidade e ao caos urbano. Sua “marca histórica” reside nessa visão singular de paisagens imaginárias e densas, e seu legado é destacado no fortalecimento da tradição da gravura no Rio Grande do Sul.

Trajetória do artista também pode ser conferida em exposição no Margs até janeiro – Crédito: Divulgação Espaço Cultural HPM

“Passei a me envolver com praticamente todas as técnicas e acabei realizando em 1972 a minha primeira exposição individual, com 20 desenhos em bico-de-pena, todos vendidos na ocasião. Também trabalhei durante anos em uma banca de revistas no Centro, o que só fez crescer meu interesse por leituras sobre arte, história e filosofia”, relembra o convidado.

Um outro salto foi dado com a seleção de Chimendes para um curso de técnico em litogravura, realizado em São Paulo sob patrocínio do programa Fullbright, dos Estados Unidos. De volta à capital gaúcha, tornou-se também um dos mais requisitados impressores de obras para colegas como Maria Tomaselli e Iberê Camargo.

Em paralelo, uma intensa produção particular permitiu desde então viver exclusivamente da venda de seus trabalhos, muitos dos quais expostos em galerias e instituições artísticas dentro e fora do Rio Grande do Sul. A carreira é marcada ainda pelo reconhecimento oficial – desde o Salão do Jovem Artista de 1974 ao troféu especial no Prêmio Açorianos de Artes Plásticas de 2022.

“Domino desenho, pintura, gravura, escultura, cerâmica. Gosto de misturar estilos, influências, pois sou um artista em constante transformação e que preza a liberdade”, ressalta Chimendes, cuja atividade permitiu que conhecesse Argentina, Uruguai, Portugal, Itália, Alemanha e Áustria.

Mais de 60 obras com sua assinatura podem ser conferidas na retrospectiva A Travessia do Tempo, em cartaz no Museu de Arte do Rio Grande do Sul (Margs), até 4 de janeiro.

Hotel Praça da Matriz mantém espaço cultural ativo

Inaugurado como imóvel residencial no final da década de 1920, o palacete do Largo João Amorim de Albuquerque nº 72 abriga há quase 50 anos o Hotel Praça da Matriz. O empreendimento passou por ampla revitalização e, sob o comando da família Patrício desde 2014, hospeda anônimos e famosos, além de abrigar o Espaço Cultural HPM. No foco estão exposições, saraus, lançamentos de livros e outros eventos, em parceria com a empresa Práxis Gestão de Projetos.

A origem do imóvel remonta a Luiz Alves de Castro (1884-1965), o “Capitão Lulu”, dono do cabaré-cassino “Clube dos Caçadores”, instalado de 1914 a 1938 na rua Andrade Neves (a poucas quadras dali) e enaltecido por cronistas e escritores como Erico Verissimo. A fortuna amealhada pelo empresário com a atividade ainda bancou, na mesma época, a construção do imponente edifício que hoje sedia o Espaço Cultural Força e Luz (Rua da Praia).

Contratado por Lulu, o engenheiro e arquiteto teuto-gaúcho Alfred Haasler projetou quatro andares com subsolo, pátio interno e dois diferenciais naquele tempo: garagem e sistema francês para calefação de água, tudo em estilo eclético, com mármores, azulejos e outros materiais importados. O conjunto está inventariado como de interesse histórico pelo Município e contemplado com o programa Monumenta, permitindo a recuperação de fachada, cobertura e estrutura elétrica.

O proprietário não teve muito tempo para aproveitar tamanho requinte, pois migrou no início da década de 1930 para o Rio de Janeiro, ampliando atividades (foi sócio do Cassino da Urca e dono de diversos empreendimentos). Com o decreto federal que em 1946 proibiu os jogos-de-azar, Lulu se desfez do seu patrimônio em Porto Alegre. O palacete junto à Praça da Matriz – até então alugado a terceiros – trocou de mãos e foi sede provisória do Clube do Comércio, até ser adquirido em 1949 por um comerciante cuja nora, Ilita Patrício, mantém hoje com a família o estabelecimento hoteleiro.

Editado por: Katia Marko

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