Impacto

Desmatamento da Amazônia reduz consumo de carne de caça e impacta nutrição em comunidades

A pesquisa mostrou que, nas áreas mais degradadas, as estimativas espaciais indicam uma mudança nos padrões de caça

Desmatamento ilegal na Amazônia
Expansão agropecuária responde por quase a totalidade da área desmatada no Brasil | Crédito: Carlos Fabal/AFP

Nas regiões da Amazônia que possuem mais de 70% de área desmatada, houve uma queda de 74,7% no número de animais caçados por pessoa nas últimas seis décadas. Uma pesquisa publicada na revista Nature nesta quarta-feira (26), “Florestas saudáveis salvaguardam os sistemas tradicionais de alimentação baseados em carne silvestre na Amazônia”, analisou o consumo de carne em 500 mil quilômetros quadrados desmatados entre 1965 e 2024 em 647 comunidades tradicionais.

Além disso, a pesquisa mostrou que, nas áreas mais degradadas, as estimativas espaciais indicam uma mudança nos padrões de caça, passando de animais grandes, como antas, queixadas e pacas, para maiores proporções de tatus, capivaras e juritis, que são menos caçados em áreas mais íntegras.

Michelle Jacob, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e uma das autoras do estudo, afirma que a carne é uma fonte expressiva de proteína para povos indígenas e tradicionais da região, e o declínio do consumo acende alertas.

“O trabalho mostra que a carne de caça é um pilar nutricional insubstituível dessas pessoas e que possui um valor nutricional importante, atendendo quase metade das necessidades de proteínas e ferros e uma parte importante de vitaminas B e zinco dos habitantes dessa localidade. Podemos dizer que a floresta saudável é a dispensa que alimenta as famílias amazônicas”, afirma Jacob. Além do complexo B e zinco, a carne de caça é fonte de ferro e selênio.

Segundo o estudo, “as relações com a fauna não são entendidas como mera extração de recursos” para as comunidades tradicionais da Amazônia, “mas como reciprocidade social governada por normas e obrigações éticas”. Nesse sentido, algumas “práticas culturalmente enraizadas constituem ferramentas eficazes para regular a exploração da fauna e representam as estratégias de manejo e conservação mais legítimas na Amazônia”.

Um exemplo são as formações dos espaços de circulação nas florestas, como as redes de trilhas, que são redefinidas continuamente, o que mostra uma relação entre a caça e a territorialidade. Para os autores do estudo, portanto, a caça de animais silvestres constitui “uma fonte vital de alimento e um pilar social, motivando os povos amazônicos a proteger seus territórios e, ao fazê-lo, contribuir para a conservação da floresta e da biodiversidade”.

Jacob afirma ainda que uma das soluções geralmente indicadas é a substituição da carne de caça por gado. No entanto, a mudança demandaria 64 mil quilômetros quadrados de floresta desmatada, o que representaria 3% das emissões globais de gases de efeito estufa. “Então é uma questão muito complexa e a nossa intenção é que, com esse paper, a gente traga mais dados para qualificar esse debate”, afirma.

“No fim da história, o que a gente aprende que a melhor forma de proteger a floresta e os recursos alimentares é proteger também os direitos territoriais desses povos amazônicos, garantindo um futuro em que a floresta continue de pé e possa prover esses recursos de nutrição”, diz a pesquisadora. 

André Antunes, da Rede de Pesquisa em Conservação, Uso e Manejo da Fauna da Amazônia (RedeFauna), que participou do estudo, afirma que “a floresta saudável possibilita que as pessoas mantenham seus sistemas tradicionais alimentares baseados na carne de caça”. 

São espaços “onde há presença de povos indígenas e comunidades tradicionais que caçam, que têm mato para caçar, que defendem o território contra essas pressões, e que mantêm uma floresta saudável”, diz.

No total, a pesquisa é assinada por autores de cerca de 40 instituições de pesquisa nacionais e internacionais, incluindo a Rede de Pesquisa em Conservação, Uso e Manejo da Fauna da Amazônia (RedeFauna), o Instituto Nacional de Pesquisas Amazônicas (INPA), a Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e a UFRN.

Editado por: Nathallia Fonseca

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