A tempestade de granizo com pedras de até 10 centímetros que atingiu Erechim no domingo (23) provocou destruição em larga escala, afetando creca de 40 mil pessoas e causando danos severos à rede pública e à agricultura familiar. Para o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), o episódio confirma a intensificação dos eventos climáticos extremos no Rio Grande do Sul e exige ações estruturantes e urgentes de adaptação e proteção às comunidades mais vulneráveis.
Em nota, o movimento apontou os impactos da tempestade de granizo e destacou que o “Rio Grande do Sul vive uma escalada de eventos climáticos extremos, resultado direto da intensificação da crise climática“. Chamou a atenção para estiagens prolongadas, ondas de calor, enchentes históricas, deslizamentos e tempestades violentas nos últimos cinco anos, “afetando especialmente comunidades trabalhadoras rurais e urbanas“.
O MAB reforça a “solidariedade como resistência” e exige “que os governos adotem medidas permanentes de caráter estrutural, capazes de proteger a população dos impactos já inevitáveis da crise climática”, com políticas “baseadas em justiça social e climática e garantia dos direitos das populações atingidas”.
Confira a nota do MAB:
O Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) expressa profunda preocupação diante da violentíssima tempestade que, em poucos minutos, devastou Erechim e municípios vizinhos. O fenômeno extremo, que durou cerca de 20 minutos, deixou um rastro de casas destelhadas, pessoas feridas e serviços essenciais interrompidos, reafirmando a vulnerabilidade histórica das populações gaúchas frente à crise climática em curso.
De acordo com a Defesa Civil, cerca de 40 mil pessoas – aproximadamente um terço da população de Erechim – foram diretamente impactadas. O temporal deixou 200 feridos, principalmente por estilhaços e quedas de telhados, e nove famílias seguem desabrigadas. Além das residências atingidas, 35 escolas e 12 unidades básicas de saúde sofreram danos estruturais, ocasionando suspensão de aulas e interrupção de atendimentos. Milhares de veículos também foram destruídos pelas pedras de gelo.
A agricultura familiar, um dos segmentos mais fragilizados diante dos desastres recentes, registrou perdas severas. Relatórios preliminares da Emater/RS e do Sindicato Unificado dos Trabalhadores na Agricultura Familiar do Alto Uruguai (SUTRAF-AU) apontam perdas de 50% na safra de milho, 80% no trigo e 60% nas hortaliças, além de danos em estufas, galpões, galinheiros e lavouras de fumo e fruticultura. Após atingir Erechim, a tempestade avançou em direção a outros municípios da região, como Itatiba do Sul, Floriano Peixoto, Erval Grande e Getúlio Vargas.
Com a extensão dos danos, a Prefeitura decretou Situação de Emergência, iniciou o cadastramento das famílias atingidas e realizou a distribuição de lonas. O Governo do Estado liberou um repasse de R$ 1,5 milhão para compra de telhas destinadas às famílias mais vulneráveis, enquanto o governo federal articula o envio de materiais emergenciais via Defesa Civil Nacional.
Para o MAB, entretanto, os impactos do temporal precisam ser compreendidos dentro de um contexto mais amplo. A organização destaca que o Rio Grande do Sul vive uma escalada de eventos climáticos extremos, resultado direto da intensificação da crise climática. Nos últimos cinco anos, estiagens prolongadas, ondas de calor, enchentes históricas, deslizamentos e tempestades violentas têm se acumulado, afetando especialmente comunidades trabalhadoras rurais e urbanas.
O Movimento lembra que, somente em 2024, 478 municípios foram atingidos por enchentes, alagamentos e colapsos estruturais, no que a Agência Nacional de Águas classificou como o maior desastre natural da história do estado. A vulnerabilidade foi agravada pelo fato de que apenas 19% dos municípios gaúchos tinham condições fiscais adequadas para enfrentar emergências de grande magnitude. Além dos danos materiais, estudos da Fiocruz indicam o aumento dos riscos sanitários e o agravamento do sofrimento físico e psíquico da população atingida.
Diante desse cenário, o MAB reforça que a solidariedade entre as comunidades continua sendo um dos principais instrumentos de resistência. O Movimento está mobilizado para apoiar diretamente as famílias de Erechim e das cidades vizinhas, articulando redes de apoio, organizando ações emergenciais e cobrando que os recursos públicos cheguem com rapidez às pessoas mais afetadas.
Ao mesmo tempo, o MAB exige que os governos adotem medidas permanentes de caráter estrutural, capazes de proteger a população dos impactos já inevitáveis da crise climática. Entre as ações defendidas pelo Movimento estão o fortalecimento dos sistemas de alerta e da Defesa Civil, investimentos contínuos em infraestrutura resiliente, apoio robusto à agricultura familiar, políticas de reconstrução baseadas em justiça social e climática e garantia dos direitos das populações atingidas.
A coordenação do MAB no Rio Grande do Sul também destaca a coincidência entre o desastre e o contexto pós-COP 30. Para o Movimento, é simbólico, e alarmante, que poucos dias após debates globais sobre clima e justiça ambiental, comunidades brasileiras sigam enfrentando, de modo direto e cotidiano, os efeitos da crise. Essa realidade reforça a urgência de transformações concretas, construídas com participação popular e com foco na proteção da vida e dos territórios.
O MAB reafirma que seguirá mobilizado, vigilante e atuante para garantir que as famílias atingidas tenham seus direitos assegurados e que o enfrentamento à crise climática no Rio Grande do Sul avance com responsabilidade pública e justiça socioambiental.
