Entrevista

Trem do Samba: edição de 30 anos parte da Central do Brasil no primeiro sábado de dezembro

Marquinhos de Oswaldo Cruz relembra grandes mestres da música popular brasileira nas rodas de samba

O Trem do Samba embala o público nos vagões da estação Central do Brasil até Owasldo Cruz, no subúrbio carioca
O Trem do Samba embala o público nos vagões da estação Central do Brasil até Owasldo Cruz, no subúrbio carioca | Crédito: Fernando Frazão/Agência Brasil

O evento mais aguardado do calendário carioca, o Trem do Samba, vai partir da Central do Brasil em direção à estação Oswaldo Cruz no dia 6 de dezembro. O tradicional bairro na zona norte do Rio de Janeiro vai receber quatro palcos com shows gratuitos, e mais 20 rodas de samba espalhadas. Este ano, o projeto idealizado por Marquinhos de Oswaldo Cruz completa três décadas.  

Em entrevista ao Brasil de Fato, Marquinhos afirmou que manter a tradição é um aprendizado que veio a partir das conversas com os mais velhos. O compositor portelense também relembra os encontros e ensinamentos dos grandes mestres da música popular brasileira nas rodas de samba.

“Me lembro do seu Monarco, principalmente do seu Manacéa, falando para mim ‘Quer fazer uma música? Faz a música que vem no teu coração. Não faça o que tá na moda, não. Faça o que vem no teu coração’. Porque quando você faz isso, mantém o seu território, as suas coisas”, disse.

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“É algo que faz pulsar ainda mais todas aquelas memórias, toda aquela cultura que tem naquele lugar”, completa Marquinhos, autor do livro Trem do samba: Memórias vividas e sonhadas (Editora Letra Capital).

O Trem do Samba é inspirado na viagem que Paulo da Portela e outros sambistas faziam no início do século 20 para fugir da repressão da polícia ao gênero musical. A celebração remete ao Dia Nacional do Samba, celebrado em 2 de dezembro. 

A Câmara do Rio aprovou um projeto do vereador Leonel de Esquerda (PT) que declara o evento patrimônio histórico e cultural imaterial da cidade. A iniciativa segue para sanção do prefeito Eduardo Paes (PSD).

Leia a entrevista completa:

Brasil de Fato – Esse ano partiram grandes nomes do samba, Bira Presidente, Marquinho PQD, Arlindo Cruz. Que lições você traz dessas referências?

Marquinhos de Oswaldo Cruz – Os três deixam um legado imenso. Tanto o PQD, quanto o Bira e o Arlindo, eles fazem parte de uma geração que construiu uma espécie de revolução na música brasileira.

Aqueles pagodes no subúrbio, pagode reunião de sambista, não pagode gênero de música, fez com que o Brasil inteiro voltasse a olhar o samba de uma de forma diferente, talvez como nunca tenha visto, com os seus instrumentos, cavaquinho, surdo. Eles desbravaram, e foi algo tão importante e uma coisa tão construída do povo. 

Como diz aquele samba do Jorge Aragão: “É o povo quem produz o show e assina a direção”. Partiu realmente do povo, veio de baixo, acho que isso é muito legal e ficou como legado dos três. 

Músico e compositor, Marquinhos de Oswaldo Cruz lançou livro que reúne memórias do Trem do Samba | Crédito: Fernando Frazão/Agência Brasil

Tá indo embora a geração que conviveu com os primeiros sambistas. Bira era muito isso. O pai dele convivia com João da Baiana, Pixinguinha. Já o PQD e o Arlindo são de uma geração mais nova de grandes compositores. O Arlindo, especialmente, que era meu amigo, meu parceiro, já está fazendo muita falta.

E para o Arlindo vai ter uma grande homenagem no palco da Portelinha, com um show do Marcelinho Moreira só de Arlindo Cruz.

O Trem do Samba resgata essa tradição e está completando 30 anos. Qual a expectativa para essa edição e o que esse projeto representa para você pessoalmente?

Parece, assim, uma redundância, não ter nada de novo. Mas não é bem assim, porque eu acho que o mais difícil nessa história todinha é manter a tradição. Nesses 30 anos, um aprendizado que tive em Oswaldo Cruz foi muito isso ali no bairro desses grandes compositores, eles eram aqueles caras que se mantinham firme a essa tradição.

Me lembro do seu Monarco, principalmente do seu Manacéa, falando para mim “Quer fazer uma música? Faz a música que vem no teu coração. Não faça o que tá na moda, não. Faça o que vem no teu coração”. Porque quando você faz isso, mantém o seu território, as suas coisas.

O mais difícil nesses anos todinhos do Trem do Samba é tentação assim, que vem até da população, [de chamar] fulano, beltrano, e você levar esses anos todinhos com o mesmo perfil e tentando manter essa tradição.

É algo que faz pulsar ainda mais todas aquelas memórias, toda aquela cultura que tem naquele lugar.

Velha guarda tem vagão especial e rodas de samba se espalham pelo bairro de Oswaldo Cruz | Crédito: Fernando Frazão/Agência Brasil

Quais as primeiras memórias dessa trajetória que você poderia destacar? Todas elas devem estar seu livro.

A primeira memória que eu tenho é de que não se tinha no senso comum a importância do Dia Nacional do Samba. Aconteceu uma coisa lá na Bahia e a Beth Carvalho uma vez fez um show pelo Dia Nacional do Samba em 1994 e ponto, ninguém tocava nesse assunto.

No primeiro Trem do Samba, quando fui levado pelo pessoal do Sindicato dos Ferroviários para falar com o representante que, aquela época, era Flumitrens [estatal extinta em 1996], o cara fez um deboche imenso comigo. “Ué, agora tem até Dia Nacional do Samba?”, ninguém comemorava isso. 

Outra lembrança é que quando chegava o pessoal mais de classe média e da Zona Sul, atrás da gente, os mais novos, na época do auge do pagode, ficavam perguntando “o que essa playboyzada vem com o Marquinhos”. Isso foi um processo que se deu com muita força.

Consegui em 1996, no primeiro Trem do Samba, juntar aquele povo todo de samba, uma ideia maluca, reunir alguns partideiros como o Deni de Lima e Renatinho Partideiro para poder versar.

Rodas de samba nas ruas de Oswaldo Cruz recebem o público que chega ao bairro com o Trem do Samba | Crédito: Fernando Frazão/Agência Brasil

Eu me lembro de uma roda de samba que o seu Osmar [do Cavaco] tava cantando uma música do Candeia que ele gostava muito e eu, em seguida, entrei no verso, porque o Deni de Lima apareceu, falei: “Peço licença, Osmar do Cavaco, quero ver versando Deni e o Renato”. Eles versaram por uma hora falando do samba, todo mundo que entrava apanhava, tinha que sair fora. São coisas que marcaram.

Também a visita do ministro da Cultura, Gilberto Gil, que foi ao Trem do Samba, chovia que só, ele não conseguiu fazer a viagem toda, mas ele foi à Central do Brasil e cantou para a gente. Foi recebido pela gente justamente quando o samba foi considerado patrimônio nacional imaterial.

São lembranças que ficam, e também a lembrança dos mais velhos. As conversas com todos ali, seu Argemiro, seu Jair do Cavaquinho, Dona Ivone Lara, seu Xangô da Mangueira, seu Monarco, Bebeto di São João, Baianinho, Nelson Sargento, Wilson Moreira, convivi com todos esses bambas ali Trem do Samba. E o resto está lá no livro [Trem do Samba: memórias vividas e sonhadas. (Editora Letra Capital)].

Editado por: Vivian Virissimo

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