Lembrar como foram os anos de chumbo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) não será uma tarefa fácil para Dilza de Santi, João Ernesto Maraschin e Henrique Finco que viveram aquele período da história do Brasil. Eles participam, nesta sexta-feira (28), da primeira audiência pública da Comissão da Verdade e da Memória da Ufrgs Enrique Serra Padrós.
“A começar pela memoria que já está ficando escassa”, afirmou Dilza de Santi ao Brasil de Fato RS. Ela militava no movimento estudantil desde antes do golpe quando era secundarista. Entre as recordações está a de um congresso na cidade de Itaqui (RS), da União Fronteiriça de Estudantes, que encerrou dia 30 de março de 1964, quando os estudantes foram ameaçados por fazendeiros armados no teatro Brezovodowski.
De Santi e seus colegas participam da audiência pública que ocorre às 9h no Salão de Atos II das Ufrgs, no Campus Centro. A atividade faz parte dos trabalhos de apuração sobre as perseguições e a repressão ocorridas no ambiente universitário durante a ditadura vivida pelo Brasil com o golpe militar em 1964.
A professora Roberta Baggio, presidenta da comissão, celebra. “A primeira audiência pública marca um passo decisivo no compromisso da Ufrgs com a preservação da verdade histórica e com o fortalecimento da democracia”.
Baggio destaca que a abertura deste espaço reconhece “a centralidade das narrativas daqueles que viveram as violações” e reafirma “o dever institucional de trazer essas histórias à luz, com rigor, respeito e responsabilidade pública”.
Quem são os estudantes
Dilza de Santi Participou de grêmio estudantil durante seu período como secundarista em Uruguaiana. Em 1966, ingressou no curso de Filosofia da Ufrgs e foi vice-presidente do Diretório Central dos Estudantes (DCE) entre 1967 e 1968, quando recebeu punição e teve que se retirar da universidade. Na mesma ocasião, teve que deixar o Rio Grande do Sul devido à repressão e perseguição política. Viveu clandestinamente em São Paulo, onde foi presa pela Operação Bandeirante (Oban). Concluiu seu curso de Filosofia na USP.
João Ernesto Maraschin ingressou nos cursos de Direito e de Sociologia da Ufrgs em 1968, tendo participado ativamente do movimento estudantil e das lutas por mais vagas, mais verbas para a educação e contra os acordos MEC/Usaid. Foi vice-presidente do Centro Acadêmico Franklin Delano Roosevelt, assumindo a presidência em 1970. Em 1971, foi eleito presidente do DCE e, no ano seguinte, expulso com base no Decreto 477. Passou pela experiência da clandestinidade e do exílio.
Henrique Finco foi estudante de Engenharia da Ufrgs em 1974, participou da representação discente na universidade e foi morador da casa do estudante. Atuou no movimento estudantil em episódios como as eleições diretas para o DCE em 1975, o III Encontro Nacional de Estudantes de Belo Horizonte em 1977 e a resistência na Praça Argentina em 1980 contra a visita do ditador Jorge Videla, dentre outros episódios. Em 1985, formou-se em Jornalismo na Ufrgs. Foi cofundador do Curso de Cinema da UFSC, onde atualmente é professor titular.
Comissão da Memória e da Verdade Enrique Serra Padrós
A Comissão da Memória e da Verdade Enrique Serra Padrós busca coletar e disponibilizar os registros sobre as violações de direitos humanos que aconteceram na Ufrgs entre 1964 e 1988, período marcado pelo regime autoritário instaurado no Brasil, entre 1964 e 1985.
No período entre 1964 e 1969, a Ufrgs teve dois processos de expurgo, nos quais foram expulsos inúmeros docentes, estudantes e técnicos, além da aposentadoria compulsória de vários profissionais. O trabalho envolverá um canal de escuta, arrecadação de documentos da época, testemunhos, entre outros.
O nome da comissão é uma homenagem ao professor Enrique Serra Padrós, que atuou no Departamento de História do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Ufrgs . Padrós, que morreu em 2021, dedicou sua trajetória acadêmica à pesquisa sobre regimes autoritários na América Latina.
A audiência pública ocorre nesta sexta-feira (28), às 9h, no Salão II do Salão de Atos – Campus Central da Ufrgs (Av. Paulo Gama, 110, centro de Porto Alegre).
