Interferência

Trump intensifica sua intromissão nas eleições hondurenhas e pede apoio a candidato conservador

Analista afirma que apoio de Trump mostra influência dos EUA e desespero da oposição em Honduras

O presidente dos EUA, Donald Trump, em 26 de novembro de 2025, endossou o candidato de direita Nasry Asfura nas próximas eleições presidenciais em Honduras, afirmando que os dois podem trabalhar juntos contra os “narcocomunistas” da região. (Foto de ANDREW CABALLERO-REYNOLDS e Orlando SIERRA / AFP)
O presidente dos EUA, Donald Trump, em 26 de novembro de 2025, endossou o candidato de direita Nasry Asfura nas próximas eleições presidenciais em Honduras, afirmando que os dois podem trabalhar juntos contra os “narcocomunistas” da região. (Foto de ANDREW CABALLERO-REYNOLDS e Orlando SIERRA / AFP) | Crédito: Foto de ANDREW CABALLERO-REYNOLDS e Orlando SIERRA / AFP

A menos de cinco dias das eleições hondurenhas, que serão realizadas no próximo dia 30 de novembro, Washington intensificou suas tentativas de influenciar o resultado, buscando impedir que a candidata do partido Libertad y Refundación (Libre), Rixi Moncada, suceda Xiomara Castro.

Em uma extensa publicação nas redes sociais, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, declarou apoio ao candidato do Partido Nacional de Honduras, Nasry “Tito” Asfura, aumentando a interferência que Washington vem promovendo nas eleições hondurenhas a poucos dias do pleito.

Trump afirmou que “a democracia está em risco nas próximas eleições no belo país de Honduras”. Em sua mensagem, apresentou Tito Asfura como “o defensor da democracia” e um combatente contra “o comunismo”.

“Será que Maduro e seus narcoterroristas vão tomar o controle de outro país, como fizeram com Cuba, Nicarágua e Venezuela? Quem defende a democracia e luta contra Maduro é Tito Asfura, candidato presidencial do Partido Nacional”, declarou.

Ao mesmo tempo, acusou sua principal oponente, a candidata do partido oficialista Rixi Moncada, do Libre, de ser “comunista” e de colaborar com o “narcoterrorismo”, rótulo que ele utiliza — sem qualquer prova — contra o governo da Venezuela. Além disso, acusou o terceiro candidato, Salvador Nasralla (Partido Liberal), de “tentar enganar o povo” e dividir os votos da oposição.

“Não posso apoiar Moncada e os comunistas”, afirmou o presidente estadunidense, acrescentando que espera que o povo de Honduras vote “pela liberdade e pela democracia, escolhendo Tito Asfura como presidente”.

A OEA, as acusações e as reações dos candidatos

A mensagem de Trump foi divulgada um dia depois de a Organização dos Estados Americanos (OEA) realizar uma sessão extraordinária do Conselho Permanente sobre Honduras. Durante a reunião, o subsecretário de Estado dos EUA, Christopher Landau, acusou — sem apresentar provas — o governo hondurenho de ter submetido os funcionários eleitorais a “assédio e pressão”.

O candidato presidencial Nasry Asfura (Partido Nacional), empresário e ex-prefeito de Tegucigalpa, agradeceu o apoio do magnata republicano. “Firmes para defender nossa democracia, nossa liberdade e os valores que tornam nosso país grande. Honduras, vamos ficar bem!”, afirmou Asfura nas redes sociais.

Por sua vez, Salvador Nasralla, candidato do Partido Liberal, também se manifestou nas redes sociais após ser acusado de ser “semi-comunista” e de tentar dividir os votos.

“Lamento profundamente a desinformação mal-intencionada de meus rivais políticos, que, cientes de sua derrota, levaram suas mentiras aos ouvidos dos assessores do presidente Trump, a quem guardo todo respeito e consideração”, declarou Nasralla, acrescentando que — se vencer — será um aliado dos Estados Unidos “na defesa das liberdades na Ibero-América”. Por fim, concluiu sua mensagem exclamando: “Viva os valores tradicionais!”

Na semana passada, Nasralla integrou uma delegação formada por membros do Partido Nacional e do Partido Liberal que viajou aos Estados Unidos para se reunir com congressistas americanos e participar da audiência pública “Democracia em Perigo: A Luta por Eleições Limpas em Honduras”, organizada pela congressista republicana de origem cubana María Elvira Salazar. Lá, os membros da oposição pediram que os Estados Unidos interviessem nas eleições hondurenhas.

Apoio de Trump e a estratégia eleitoral dos Estados Unidos

Em entrevista ao Brasil de Fato, o advogado e analista político hondurenho Mario Rojas afirmou que o manifesto apoio de Trump ao candidato do Partido Nacional demonstra a submissão de um setor do sistema político aos interesses de Washington, mas também evidencia “o desespero de um setor da oposição em concentrar os votos, sabendo que estão em desvantagem” em relação à candidata de esquerda Rixi Moncada.

“Tudo indica que Salvador Nasralla se posiciona atualmente como a terceira força, por isso não tem chances de vencer. É por isso que os Estados Unidos atuam com força para apoiar o candidato do Partido Nacional, que representa o setor mais conservador”, afirmou.

Historicamente, o Partido Nacional manteve vínculos privilegiados com a direita americana. Além disso, foi o Partido Nacional que liderou o golpe de Estado contra o então presidente Manuel “Mel” Zelaya, em 2009.

O Partido Nacional também esteve envolvido em escândalos de corrupção e narcotráfico, que inclusive levaram à extradição para os Estados Unidos do ex-presidente Juan Orlando Hernández — que em 2017 protagonizou uma fraude eleitoral — devido aos seus vínculos com o narcotráfico.

“Fiel ao seu estilo, Trump apoia Asfura, já que, assim como ele, também enfrenta processos judiciais por atos de corrupção durante sua gestão na prefeitura”, destacou Rojas.

Acusações de fraude e áudio vazado

Durante o último mês, o governo de Xiomara Castro e o partido Libertad y Refundación (Libre) têm denunciado publicamente que a oposição tenta orquestrar uma fraude. As acusações oficiais começaram em 29 de outubro, quando o procurador-geral Johel Zelaya declarou que setores da oposição haviam formado uma “associação ilícita” para manipular a vontade popular.

A Procuradoria-Geral divulgou uma série de gravações de áudio de conversas entre líderes do Partido Nacional, incluindo Cossette López, membro do Conselho Nacional Eleitoral vinculada ao Partido Nacional, representantes dos partidos Nacional e Liberal e empresários.

As gravações indicam um suposto plano para ignorar uma possível vitória de Rixi Moncada, candidata oficialista de esquerda, utilizando o Sistema de Transmissão de Resultados Eleitorais Preliminares (Trep), com a intenção de proclamar como vencedor o candidato da oposição.

Editado por: Maria Teresa Cruz

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