Revolução no sahel

Presidente do Níger percorre o país em caravana para desafiar ‘narrativa ocidental’ sobre revoluções no Sahel

Tchiani percorreu por terra as sete regiões do Níger, desafiando discursos ocidentais após retirada da França

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Leaders of the military governments of Niger, Abdourahamane Tiani (center), Mali’s Assimi Goïta (third from right), and Burkina Faso’s Ibrahim Traoré (second from right)
Leaders of the military governments of Niger, Abdourahamane Tiani (center), Mali’s Assimi Goïta (third from right), and Burkina Faso’s Ibrahim Traoré (second from right) | Crédito: AFP

Centenas de milhares de pessoas foram às ruas em todo o Níger entre os dias 8 e 20 de novembro para saudar o presidente do país, o general Abdourahamane Tchiani, que realizou uma viagem inédita por terra às sete regiões do país, ao longo de 12 dias.

“A última vez que um presidente percorreu as sete regiões por estrada foi nos anos 1980”, quando o coronel Seyni Kountché costumava fazer visitas anuais após a colheita nessa época do ano, afirmou Abdullahi Salifou, secretário-adjunto da Convergência para a Soberania Nacional do Sahel (Cosnas).

Desde então, os presidentes passaram a viajar apenas de avião às capitais das diferentes regiões durante campanhas eleitorais, acrescentou Salifou, explicando a euforia das multidões ao “ver o presidente visitar suas comunidades por estrada pela primeira vez em quase quarenta anos”.

Mesmo há quarenta anos, Seyni não percorreu todas as regiões em uma única viagem, mas em várias idas e vindas a partir de Niamey, capital do país, o que torna a travessia de Tchiani pelo país “inédita na história do Níger independente”, segundo Aboubakar Alassane, da Organização dos Povos da África Ocidental (Wapo).

“Parando em cada vila ao longo do trajeto”, ele se reuniu com chefes tradicionais, organizações de mulheres, agricultores e grupos da sociedade civil, como a Cosnas e o M62, que lideraram as manifestações que exigiram a retirada das tropas francesas, disse Salifou.

“Cidades e vilas inteiras saíram às ruas para recebê-lo. As multidões foram ainda maiores do que as mobilizações em massa que celebraram seu golpe de Estado”, que derrubou o regime apoiado pela França em junho de 2023, em meio a protestos que pediam a expulsão das tropas francesas.

Segundo Salifou, a confiança popular em seu governo militar, já consolidada após a expulsão das tropas francesas apesar das ameaças de guerra, atingiu seu ponto mais alto após a realização dessa viagem.

Caravana terrestre organizada em meio a uma guerra neocolonial

A viagem de Tchiani ocorreu em meio a uma guerra supostamente subsidiada pela França por meio de grupos terroristas, com o objetivo de desestabilizar o país após a expulsão de suas tropas. Os parceiros do Níger na Aliança dos Estados do Sahel (AES) – especialmente Mali e Burkina Faso, que também expulsaram tropas francesas após golpes populares em meio a protestos em massa – também já acusaram o governo francês de utilizar grupos terroristas para desestabilizar antigas colônias, visto como uma forma de reafirmação de soberania.

Ao inflar a força desses grupos, a mídia ocidental omite de forma sistemática as conquistas dos países da AES na retomada do controle sobre territórios antes dominados por organizações terroristas. Pelo contrário, tais governos são retratados como juntas militares sitiadas e em luta pela própria sobrevivência após a expulsão das tropas francesas, resultado de um excesso de fervor anticolonial.

“Reportagens e entrevistas com diplomatas indicam que Tchiani é paranoico, frequentemente irracional, e raramente deixa o seu palácio presidencial fortificado”, afirma um “policy brief” publicado pelo Conselho Europeu de Relações Exteriores em outubro do ano passado.

Pouco mais de um ano depois, Tchiani iniciou sua jornada pelo Níger a partir de Tillaberi, após passar alguns dias na região mais ocidental do país, marcada por ataques de grupos terroristas.

O Estado Islâmico no Sahel (IS Sahel) havia matado ao menos 127 campesinos em cinco ataques em toda a região em março. Também atua na área o grupo JNIM, afiliado à Al-Qaeda, cujos ataques recentes a caminhões-tanque de combustível no Mali foram postos pela mídia ocidental e consultorias de viagem como se ameaçassem um cerco à capital.

Tchiani iniciou sua jornada nessa região em 8 de novembro, após uma reunião pública na cidade de Téra. “Em Téra! Na fronteira com Mali e Burkina Faso!”, exclamou Alassane. O infame triângulo fronteiriço há muito tempo era uma zona sem lei, onde diversos grupos terroristas, distribuídos pelo Sahel após a destruição da Líbia pela OTAN em 2011, disputavam o controle territorial.

“O presidente estava lá, vários ministros também. O povo havia se reunido em grande número. Se esses terroristas tivessem qualquer controle territorial, teriam atacado. Mas não conseguiram, porque o Estado recuperou o controle”, enfatizou Alassane.

Isso não significa, no entanto, que os grupos terroristas que atuam na região tenham sido eliminados. Em 19 de outubro, quando Tchiani já havia seguido viagem para o extremo leste do país, terroristas mataram 17 soldados em um ataque a um posto da força policial em uma vila de Garbougna, região de Tillaberi, na estrada entre Téra e Niamey.

Relatórios divergem na atribuição de responsabilidade pelos ataques, entre o Estado Islâmico no Grande Saara (EIGS) e o JNIM, mas Alassane insiste que estes grupos são apenas nomes distintos para forças subsidiadas pela França.

Apesar da persistência dos ataques, Alassane argumenta que a perda de controle sobre o território e a reimposição do poder estatal na região é um grande avanço, demonstrado pelo encontro do presidente Tchiani com a população em Téra.

Partindo de Téra, o presidente partiu em direção ao leste até a região vizinha de Dosso, onde ele realizou outro encontro popular em Gaya, perto da fronteira com Benin – região que supostamente abriga bases de treinamento secretas para grupos terroristas, com subsídio francês.

Em seguida, Tchiani avançou com a caravana ao norte, em direção a Agadez, a maior região do Níger. Desde a capital homônima, ele avançou ao deserto do Sahara, até chegar à região fronteiriça da Algéria, Assamaka, “onde nenhum presidente jamais visitou,” relembra Alassane.

Um presidente que quebra estereótipos

Tchiani, acrescentou ele, frequentemente deixava a estrada e avançava pelas dunas para cumprimentar os nômades que passavam montados em camelos, perguntando “sobre seus animais, seus problemas, e reafirmando o apoio do Estado”. “Seus seguranças ficavam nervosos e confusos” com esse gesto fora do protocolo de apertar as mãos de nômades montados em camelos, já que eles são historicamente temidos e frequentemente associados ao terrorismo nessa região da África, que mantém uma relação tensa há séculos com essa comunidade conhecida como tuaregues.

Eram esses cavaleiros de camelo, Alassane explica, que invadiam vilas para sequestrar pessoas e vendê-las como escravas nos mercados da Arábia Saudita. Quando os europeus chegaram, os nômades colaboraram com eles no tráfico transatlântico de escravizados. Armados e autorizados a matar pelos colonizadores europeus, que os contratavam para atuar no policiamento, continuaram sendo temidos mesmo após o fim da escravidão.

Quando grupos terroristas e insurgências separatistas se espalharam pelo Sahel na última década, após a destruição da Líbia, esses grupos recrutaram nômades em grande número. “Ainda hoje, combatentes e armas são transportados através das fronteiras por grupos terroristas principalmente em camelos”, o que alimentou o estereótipo dos tuaregues como terroristas.

Quando trabalhadores rurais encontram nômades passando em camelos, “eles correm e se escondem nos arbustos. Mas Tchiani quebrou esse estereótipo ao se encontrar e cumprimentá-los. Ele transmitiu uma mensagem política ao país de que não há mais necessidade de temê-los – de que eles não são mais um perigo”.

Líder do Níger não se isola, ele caminha entre o povo

Ao retornar à cidade de Agadez, Tchiani seguiu viagem pelas regiões do sul de Zinder e Maradi, antes de concluir a jornada na região oriental de Diffa, que faz fronteira ao leste com o Chade e ao sul com a Nigéria. Dezenas de milhares de pessoas lotaram a Rodovia Nacional nº 1 para recepcionar Tchiani quando ele entrou na cidade de Diffa.

“Nunca houve uma concentração tão grande em Diffa. As pessoas tinham medo de participar até de uma pequena reunião, porque o Boko Haram poderia atacar. Mas a presença de Tchiani lhes devolveu a confiança”, afirmou Alassane, enfatizando que o presidente não estava isolado por um cordão de segurança.

“As pessoas se aproximavam para cumprimentá-lo. Ele ordenou à segurança que permitisse isso. Ele atravessou multidões. Qualquer pessoa armada poderia tê-lo matado.”

Agradecendo à população da região pela recepção calorosa, Tchiani, em seu discurso, falou sobre os problemas do uso de drogas e do desemprego entre os jovens. Ele assegurou a criação de empregos por meio das obras de construção de estradas, torres de água, dos trabalhos de exploração de petróleo iniciados no ano passado e do Grande Programa de Irrigação que está sendo implementado em Diffa.

Uma luta pela sobrevivência entre Imperialismo e Soberania

Ao assegurar que as Forças Armadas irão proteger o povo, o presidente acrescentou que “a insegurança que atualmente atinge a região de Diffa é totalmente diferente” daquilo que está sendo retratado pela mídia. “Não tem relação com o Islã. Pelo contrário”, afirmou, “é uma situação nascida do desejo de potências neocoloniais de continuarem sua dominação sobre o nosso povo”.

Ele reiterou essa posição em um discurso às tropas da Zona de Defesa nº 5 de Diffa, afirmando que o problema do terrorismo do qual a região sofre há mais de uma década “tem como única origem o desejo de certas potências neocoloniais de preservar sua prosperidade, riqueza e dominação sobre nossos Estados”.

O conflito em curso é uma “luta pela sobrevivência… de ambos os lados”: de um lado, a “ganância” das “potências imperialistas”; do outro, a “dignidade e soberania” do povo.

Tendo afirmado sua “dignidade e soberania” ao derrubar o regime-marionete da França, expulsar suas tropas e nacionalizar recursos como o urânio para retomar o controle das corporações francesas, o Níger reivindica para si o direito à “dignidade e soberania”.

Mas “a luta que está por vir será mais dura e mais longa”, admitiu, sem reivindicar falsas vitórias de forma apressada. Ainda assim, confiante na vitória final, por considerar que os imperialistas “vivem na era errada”, Tchiani declarou: “O que aconteceu há 130 anos [a colonização] não voltará a acontecer.”

Recepção de herói

Concluída a viagem por estrada, Tchiani tomou um voo retornando a Niamey, geograficamente localizada na região de Tillaberi, de onde havia partido, mas administrada separadamente como capital nacional. Salifou, junto a dezenas de milhares de pessoas, já se alinhava em ambos os lados da estrada que liga o aeroporto de Niamey ao Palácio Presidencial naquela noite, para receber Tchiani com uma recepção de herói.

“Eram por volta das 21h quando ele passou por nós. À medida que ele passava, as pessoas reunidas ao longo da estrada o acompanharam” até o Palácio Presidencial, recordou Salifou. “Ele caminhou com o povo a pé por 12 quilômetros, do aeroporto até o Palácio Presidencial”, acrescentou Alassane.

“Entrando no Palácio levado por essa maré humana, o general Tchiani demonstrou que sua verdadeira legitimidade vem do povo”, disse Abdourahamane Oumarou, presidente da Urgences Panafricanistes (Emergências Pan-Africanistas) no Níger.

“Isso revela um líder em simbiose com seu povo, protegido não por veículos blindados, mas pela energia de milhares de cidadãos.”

Ao argumentar que “se o regime não fosse sólido, nenhum presidente jamais se exporia” como Tchiani fez nessa jornada, Oumarou declarou: “Nesta noite de quinta-feira, o medo mudou de lado!”

Editado por: Peoples Dispatch
Conteúdo originalmente publicado em: Peoples Dispatch
Ler em: English

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