PATRIMÔNIO

Projeto restaura mais de 140 peças do acervo do Museu de São Leopoldo

Águas da enchente de 2024 atingiram um metro e meio de altura do espaço de preservação da história da imigração alemã

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Acervo é composto por cerca de 10 mil objetos, como uma vitrola com caixa de agulhas encontrada preservada
Acervo é composto por cerca de 10 mil objetos, como uma vitrola com caixa de agulhas encontrada preservada | Crédito: Tiele Elissa

No ano passado, as enchentes no estado atingiram também a nossa história, pois alagaram instituições culturais e lugares de memória do Rio Grande do Sul. Com o Museu Histórico Visconde de São Leopoldo (MHVSL), localizado no município que leva seu nome e é um espaço de preservação da história da imigração alemã no Vale do Sinos, não foi diferente: a água chegou ao nível de até um metro e meio de altura.

Parte do acervo museológico de São Leopoldo foi duramente prejudicado. E com ele, uma fração da memória de toda uma comunidade, especialmente a herdeira da colonização alemã.

No perfil @restauracaoacervosaoleo, é possível acompanhar o trabalho coletivo de restauração desse patrimônio, lançado em setembro, durante a 19ª Primavera nos Museus. As postagens de Instagram mostram como objetos, documentos e histórias estão sendo recuperados com cuidado, técnica e afeto. 

A iniciativa tem como lema nas redes sociais “preservar o passado também é cuidar do futuro”. O projeto “Restauração do acervo museológico atingido pelas enchentes em São Leopoldo” é realizado pela produtora proponente Luísa Maciel e Ministério da Cultura/Governo Federal, com patrocínio de Zaffari, por meio da Lei Rouanet e com recursos da Política Nacional Aldir Blanc, via Pró-Cultura RS.

A produtora cultural destaca que, além de grandes nomes da restauração (Társis Gradaschi, Magda Villanova e Isis Fófano da Gama), a equipe envolve uma rede criativa de cerca de 25 profissionais,  “desenvolvendo ações que conversam entre si, com o objetivo de aproximar a comunidade do patrimônio. Entre os produtos, estão o documentário, que terá um tom poético sobre reconstrução e resiliência e será produzido pela Black Picasso, liderada por Marcelo Pino e Fabiano Blauth”.

Já o catálogo terá curadoria de José Francisco Alves, doutor em História da Arte. O site, por sua vez, reunirá conteúdos acessíveis e materiais educativos, produzido pela Impactamídia. 

“Temos um programa robusto de educação patrimonial, que inclui oficinas de recepção e conservação, visitas guiadas a escolas e cursos sobre conservação de obras de arte, com materiais e manuais acessíveis. A ideia é que, ao integrar restauração, documentação e educação, o projeto transforme a recuperação do acervo em ferramenta de conhecimento”, completa Luísa.

A história do lugar de memória

Hamburgberg foi o primeiro nome da região quando da chegada dos imigrantes alemães – Nilton Santolin

O acervo museológico São Leopoldo começou a ser organizado em 20 de setembro de 1959. Nasceu para salvar do esquecimento e da perda objetos, livros, cartas, jornais, documentos e outros elementos que se referiam à história da imigração e colonização alemãs na região (a então Colônia de São Leopoldo nos vales do Sinos e Caí).

Desde então, o acervo é composto por cerca de 10 mil objetos (como uma vitrola e a caixa de agulhas encontrada preservada), 25 mil livros, 85 mil fotos, 9 mil periódicos e 12 mil documentos únicos e raros sobre a imigração alemã e a história de São Leopoldo. A exposição permanente apresenta uma seleção do acervo e mostras itinerantes contam sobre diversos temas e curiosidades.

“Por que é importante restaurar o acervo? Ao devolver a um item danificado, reconhecemos nele não apenas o seu valor material, mas também o peso simbólico e a riqueza histórica que ele carrega”, diz a proposição do projeto de restauro, que nasceu da urgência de restaurar o acervo do Museu Histórico Visconde de São Leopoldo, com o argumento de valorizar a memória coletiva da cidade.

Luísa Maciel relata que, após a enchente, os objetos estavam vulneráveis a riscos de deterioração irreversível. Parte do acervo ficou submerso em aproximadamente 1,50m de água por cerca de 10 dias e, após esse período, foram meses de limpeza e avaliação dos danos, de acordo com Rodrigo dos Santos, à época historiador do museu. 

“O acervo que não ficou submerso também foi exposto a altos níveis de umidade e proliferação de fungos, por exemplo. Esse acervo é relevante para a preservação da história da migração alemã no Rio Grande do Sul, reunindo móveis, utensílios e obras pictóricas de grande valor histórico e artístico, como as de Vasco Prado e Pedro Weingärtner.” A proponente do processo de restauração detalha que grande parte do acervo foi doado por famílias descendentes de imigrantes e retrata a sua vinda dos para região, seus costumes e cotidiano, em diferentes épocas.

No final do século XIX, famílias e empresas guardavam dinheiro em cofres feitos pelos próprios imigrantes alemães – Thiele Elissa

Luísa esclarece que, em acordo com os pesquisadores do projeto, a equipe entendeu que a presença de cofres no acervo se explica pelo contexto histórico do final do século XIX e início do XX no Rio Grande do Sul: “Na época, muitas empresas, órgãos públicos e famílias mantinham cofres próprios para guardar dinheiro e documentos importantes. Alguns foram produzidos por empresas fundadas ou administradas por imigrantes alemães, conectando esses objetos à comunidade local. A necessidade de manter objetos de valor em cofres foi diminuindo à medida que os bancos foram implementados na região”. 

Além dos instrumentos musicais e móveis, há outras curiosidades interessantes no acervo, segundo a produtora. Uma delas é a cadeira de dentista de Wilhelm Ernst Doering, imigrante alemão que chegou em 1926 à região. A peça era desmontável e transportada no carro para atender moradores do interior, “mostrando um pouco sobre a vida cotidiana e as práticas profissionais dos imigrantes, conforme registros e publicações do Museu Histórico Visconde de São Leopoldo”.

Trabalhos da iniciativa seguirão até 2027

Entre os itens que já começaram a ser recuperados, está o piano alemão Schiedmayer (cerca de 120 anos) – Thiele Elissa

“Restauração do acervo museológico atingido pelas enchentes em São Leopoldo” foi lançado no dia 25 de setembro, na semana em que se celebra nacionalmente a Primavera nos Museus. A iniciativa, criada pelo @museusbr, convida a refletir sobre o papel dos museus diante da crise climática. O projeto conecta-se diretamente a esse tema, enfrentando os danos causados pelas enchentes recentes e reafirmando o museu como esse espaço de preservação e conservação.

O objetivo é restaurar aproximadamente 143 peças danificadas. Entre os itens, que já começaram a ser recuperados, estão o piano alemão Schiedmayer (com cerca de 120 anos), outros instrumentos musicais, vitrola, cofres, peças de mobiliário, objetos de uso cotidiano e de representação simbólica, indumentária e acessórios têxteis, além de obras de arte de grande relevância, como pinturas de Pedro Weingärtner e retratos de personalidades locais, alguns elaborados a partir de fotografias.

A produtora proponente ressalta: “A restauração do acervo da imigração alemã em São Leopoldo busca recuperar o que foi atingido e contribuir para que a história da comunidade siga preservada e disponível no futuro. Junto ao restauro do acervo, serão realizadas ações de educação, acessibilidade e formação em conservação preventiva, além de produção audiovisual e editorial que reforçam a importância da preservação da nossa memória cultural”.

Társis Gradaschi, da Mestres da Restauração Brasil, é responsável pela restauração dos objetos tridimensionais (como o piano, instrumentos musicais e peças de mobiliário). “Como leopoldense, estou muito feliz de participar desse projeto”, afirma Gradaschi, que diz se sentir gratificado de entregar os itens restaurados para a comunidade. Contudo, ele explica que a iniciativa é um grande desafio, que mobiliza uma equipe numerosa para que os objetos voltem funcionais para o museu.

Endossando a fala do restaurador, a Diretora de Relações Institucionais do MVSL, Ingrid Marxen, afirma que o projeto faz um grande bem para o espaço, já que vai recolocar as peças antigas e importantes para instituição de pé novamente, com apreço pela história e pela arte. “É uma entrega para a comunidade de São Leopoldo e para os visitantes. Esses objetos de novo em nosso Museu são uma mensagem de esperança”, avalia.

Conforme Luísa, um exemplo de peça emblemática do acervo é o piano Schiedmayer, importado da Alemanha em 1902 e doado ao museu em 2006, após a mudança da família proprietária. “O instrumento continuou sendo utilizado em apresentações musicais no local, sendo uma referência para a comunidade. Em 2024, o piano ficou submerso, sofrendo danos severos à madeira, às cordas e à mecânica interna. Sua restauração é particularmente complexa, exigindo técnicas especializadas para recuperar tanto a integridade estrutural quanto a sonoridade, preservando seu valor histórico e cultural.”

Quadros de cavalete serão restaurados na sua íntegra, tanto a pintura quanto a moldura – Thiele Elissa

Também estão envolvidas na iniciativa as restauradoras Magda Villanova em peças têxteis e Isis Fófano da Gama, da Magenta Conservação e Restauração, que trabalha na restauração das obras bidimensionais pictóricas (pinturas e retratos).

Isis conta no Instagram por que o acervo museológico é tão relevante e merece ser cuidado peça por peça: “Vou ser responsável pela restauração de gravuras e desenhos. O que acho importante falar sobre esses itens, que por mais que nem todos estejam em exposição e talvez a maior parte esteja em reserva técnica, esse recorte do projeto acaba tendo uma importância porque ele visa também a conservação e a projeção dessas obras, numa escala de tempo”. 

Ainda segundo a profissional, parte delas terá somente ações de conservação preventiva (higienização, confecção de novos acondicionamentos e procedimentos que visam estabilizá-las durante o seu período de armazenamento). “Tem outra parte dos objetos, principalmente as telas de cavalete, que vão ser restauradas na sua íntegra, tanto a pintura em si quanto a moldura. Isso vai ser importante porque vai estabilizar a degradação dessas obras, que acabaram se intensificando com as enchentes que ocorreram no ano passado.”

Todo o processo será documentado e vai resultar na produção de um catálogo e de um documentário, que serão lançados no final dos trabalhos, em 2027.

Editado por: Vivian Virissimo

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