No ano passado, as enchentes no estado atingiram também a nossa história, pois alagaram instituições culturais e lugares de memória do Rio Grande do Sul. Com o Museu Histórico Visconde de São Leopoldo (MHVSL), localizado no município que leva seu nome e é um espaço de preservação da história da imigração alemã no Vale do Sinos, não foi diferente: a água chegou ao nível de até um metro e meio de altura.
Parte do acervo museológico de São Leopoldo foi duramente prejudicado. E com ele, uma fração da memória de toda uma comunidade, especialmente a herdeira da colonização alemã.
No perfil @restauracaoacervosaoleo, é possível acompanhar o trabalho coletivo de restauração desse patrimônio, lançado em setembro, durante a 19ª Primavera nos Museus. As postagens de Instagram mostram como objetos, documentos e histórias estão sendo recuperados com cuidado, técnica e afeto.
A iniciativa tem como lema nas redes sociais “preservar o passado também é cuidar do futuro”. O projeto “Restauração do acervo museológico atingido pelas enchentes em São Leopoldo” é realizado pela produtora proponente Luísa Maciel e Ministério da Cultura/Governo Federal, com patrocínio de Zaffari, por meio da Lei Rouanet e com recursos da Política Nacional Aldir Blanc, via Pró-Cultura RS.
A produtora cultural destaca que, além de grandes nomes da restauração (Társis Gradaschi, Magda Villanova e Isis Fófano da Gama), a equipe envolve uma rede criativa de cerca de 25 profissionais, “desenvolvendo ações que conversam entre si, com o objetivo de aproximar a comunidade do patrimônio. Entre os produtos, estão o documentário, que terá um tom poético sobre reconstrução e resiliência e será produzido pela Black Picasso, liderada por Marcelo Pino e Fabiano Blauth”.
Já o catálogo terá curadoria de José Francisco Alves, doutor em História da Arte. O site, por sua vez, reunirá conteúdos acessíveis e materiais educativos, produzido pela Impactamídia.
“Temos um programa robusto de educação patrimonial, que inclui oficinas de recepção e conservação, visitas guiadas a escolas e cursos sobre conservação de obras de arte, com materiais e manuais acessíveis. A ideia é que, ao integrar restauração, documentação e educação, o projeto transforme a recuperação do acervo em ferramenta de conhecimento”, completa Luísa.
A história do lugar de memória

O acervo museológico São Leopoldo começou a ser organizado em 20 de setembro de 1959. Nasceu para salvar do esquecimento e da perda objetos, livros, cartas, jornais, documentos e outros elementos que se referiam à história da imigração e colonização alemãs na região (a então Colônia de São Leopoldo nos vales do Sinos e Caí).
Desde então, o acervo é composto por cerca de 10 mil objetos (como uma vitrola e a caixa de agulhas encontrada preservada), 25 mil livros, 85 mil fotos, 9 mil periódicos e 12 mil documentos únicos e raros sobre a imigração alemã e a história de São Leopoldo. A exposição permanente apresenta uma seleção do acervo e mostras itinerantes contam sobre diversos temas e curiosidades.
“Por que é importante restaurar o acervo? Ao devolver a um item danificado, reconhecemos nele não apenas o seu valor material, mas também o peso simbólico e a riqueza histórica que ele carrega”, diz a proposição do projeto de restauro, que nasceu da urgência de restaurar o acervo do Museu Histórico Visconde de São Leopoldo, com o argumento de valorizar a memória coletiva da cidade.
Luísa Maciel relata que, após a enchente, os objetos estavam vulneráveis a riscos de deterioração irreversível. Parte do acervo ficou submerso em aproximadamente 1,50m de água por cerca de 10 dias e, após esse período, foram meses de limpeza e avaliação dos danos, de acordo com Rodrigo dos Santos, à época historiador do museu.
“O acervo que não ficou submerso também foi exposto a altos níveis de umidade e proliferação de fungos, por exemplo. Esse acervo é relevante para a preservação da história da migração alemã no Rio Grande do Sul, reunindo móveis, utensílios e obras pictóricas de grande valor histórico e artístico, como as de Vasco Prado e Pedro Weingärtner.” A proponente do processo de restauração detalha que grande parte do acervo foi doado por famílias descendentes de imigrantes e retrata a sua vinda dos para região, seus costumes e cotidiano, em diferentes épocas.

Luísa esclarece que, em acordo com os pesquisadores do projeto, a equipe entendeu que a presença de cofres no acervo se explica pelo contexto histórico do final do século XIX e início do XX no Rio Grande do Sul: “Na época, muitas empresas, órgãos públicos e famílias mantinham cofres próprios para guardar dinheiro e documentos importantes. Alguns foram produzidos por empresas fundadas ou administradas por imigrantes alemães, conectando esses objetos à comunidade local. A necessidade de manter objetos de valor em cofres foi diminuindo à medida que os bancos foram implementados na região”.
Além dos instrumentos musicais e móveis, há outras curiosidades interessantes no acervo, segundo a produtora. Uma delas é a cadeira de dentista de Wilhelm Ernst Doering, imigrante alemão que chegou em 1926 à região. A peça era desmontável e transportada no carro para atender moradores do interior, “mostrando um pouco sobre a vida cotidiana e as práticas profissionais dos imigrantes, conforme registros e publicações do Museu Histórico Visconde de São Leopoldo”.
Trabalhos da iniciativa seguirão até 2027

“Restauração do acervo museológico atingido pelas enchentes em São Leopoldo” foi lançado no dia 25 de setembro, na semana em que se celebra nacionalmente a Primavera nos Museus. A iniciativa, criada pelo @museusbr, convida a refletir sobre o papel dos museus diante da crise climática. O projeto conecta-se diretamente a esse tema, enfrentando os danos causados pelas enchentes recentes e reafirmando o museu como esse espaço de preservação e conservação.
O objetivo é restaurar aproximadamente 143 peças danificadas. Entre os itens, que já começaram a ser recuperados, estão o piano alemão Schiedmayer (com cerca de 120 anos), outros instrumentos musicais, vitrola, cofres, peças de mobiliário, objetos de uso cotidiano e de representação simbólica, indumentária e acessórios têxteis, além de obras de arte de grande relevância, como pinturas de Pedro Weingärtner e retratos de personalidades locais, alguns elaborados a partir de fotografias.
A produtora proponente ressalta: “A restauração do acervo da imigração alemã em São Leopoldo busca recuperar o que foi atingido e contribuir para que a história da comunidade siga preservada e disponível no futuro. Junto ao restauro do acervo, serão realizadas ações de educação, acessibilidade e formação em conservação preventiva, além de produção audiovisual e editorial que reforçam a importância da preservação da nossa memória cultural”.
Társis Gradaschi, da Mestres da Restauração Brasil, é responsável pela restauração dos objetos tridimensionais (como o piano, instrumentos musicais e peças de mobiliário). “Como leopoldense, estou muito feliz de participar desse projeto”, afirma Gradaschi, que diz se sentir gratificado de entregar os itens restaurados para a comunidade. Contudo, ele explica que a iniciativa é um grande desafio, que mobiliza uma equipe numerosa para que os objetos voltem funcionais para o museu.
Endossando a fala do restaurador, a Diretora de Relações Institucionais do MVSL, Ingrid Marxen, afirma que o projeto faz um grande bem para o espaço, já que vai recolocar as peças antigas e importantes para instituição de pé novamente, com apreço pela história e pela arte. “É uma entrega para a comunidade de São Leopoldo e para os visitantes. Esses objetos de novo em nosso Museu são uma mensagem de esperança”, avalia.
Conforme Luísa, um exemplo de peça emblemática do acervo é o piano Schiedmayer, importado da Alemanha em 1902 e doado ao museu em 2006, após a mudança da família proprietária. “O instrumento continuou sendo utilizado em apresentações musicais no local, sendo uma referência para a comunidade. Em 2024, o piano ficou submerso, sofrendo danos severos à madeira, às cordas e à mecânica interna. Sua restauração é particularmente complexa, exigindo técnicas especializadas para recuperar tanto a integridade estrutural quanto a sonoridade, preservando seu valor histórico e cultural.”

Também estão envolvidas na iniciativa as restauradoras Magda Villanova em peças têxteis e Isis Fófano da Gama, da Magenta Conservação e Restauração, que trabalha na restauração das obras bidimensionais pictóricas (pinturas e retratos).
Isis conta no Instagram por que o acervo museológico é tão relevante e merece ser cuidado peça por peça: “Vou ser responsável pela restauração de gravuras e desenhos. O que acho importante falar sobre esses itens, que por mais que nem todos estejam em exposição e talvez a maior parte esteja em reserva técnica, esse recorte do projeto acaba tendo uma importância porque ele visa também a conservação e a projeção dessas obras, numa escala de tempo”.
Ainda segundo a profissional, parte delas terá somente ações de conservação preventiva (higienização, confecção de novos acondicionamentos e procedimentos que visam estabilizá-las durante o seu período de armazenamento). “Tem outra parte dos objetos, principalmente as telas de cavalete, que vão ser restauradas na sua íntegra, tanto a pintura em si quanto a moldura. Isso vai ser importante porque vai estabilizar a degradação dessas obras, que acabaram se intensificando com as enchentes que ocorreram no ano passado.”
Todo o processo será documentado e vai resultar na produção de um catálogo e de um documentário, que serão lançados no final dos trabalhos, em 2027.
