DIVERSIDADE VIVA

Representatividade Trans: Brasil pode ficar fora do Miss Universe Trans 2025 na Índia

Fabiano Biazzon do MUT Brasil fala das dificuldades e critica a falta de patrocínio nacional

No audio source provided.
Stephany Fonttine conquistou o título nacional em agosto deste ano
Stephany Fonttine conquistou o título nacional em agosto deste ano | Crédito: Divulgação MUT

O Brasil consolidou-se no cenário internacional de diversidade e representatividade ao alcançar feitos inéditos, como a vitória histórica de Luanna Isabelly no Miss Universe Trans em 2023 e a conquista de oito prêmios internacionais, que posicionam o Miss Universe Trans Brasil (MUT Brasil) como uma das principais plataformas de formação e projeção global de pessoas trans.

Nos bastidores desses reconhecimentos, porém, o projeto enfrenta uma realidade dura de ausência de financiamento e apoio institucional dentro do país – situação que ameaça inviabilizar a participação da delegação brasileira no mundial de 2025, marcado para acontecer entre 3 e 9 de dezembro, na Índia.

Há, no entanto, um novo movimento político em curso. No dia 24 de novembro, o gabinete do presidente Lula emitiu um ofício tratando do apoio ao evento internacional que o Brasil sediará em 2026, incluindo a possibilidade de suporte à delegação nacional. Embora o documento dê fôlego para o próximo ano, não há tempo hábil para garantir a ida brasileira ao mundial de 2025, segundo o diretor da MUT Brasil Fabiano Biazzon. Ainda assim, ele celebra: “Ganhamos força para 2026”.

O MUT Brasil também destaca que contou com apoio institucional da Secretaria da Cultura do Rio Grande do Sul e da Unisinos na realização da etapa nacional, o que foi fundamental para manter viva a edição brasileira do projeto em 2024. “Sem esses apoios, não teríamos conseguido realizar a etapa nacional”, afirma Biazzon.

Diretor nacional do MUT Brasil – e reconhecido, ao lado de Mateus Ahlert, como um dos melhores diretores do mundo – Fabiano Biazzon é empresário artístico há 24 anos e reforça que o concurso vai muito além dos palcos: trata-se de uma plataforma de formação, acolhimento, incidência política e liderança trans, alinhada à Agenda 2030 da ONU.

A seguir, a entrevista exclusiva com Fabiano Biazzon.

Brasil de Fato RS: O MUT Brasil acumula oito prêmios internacionais e fez história com a vitória de Luanna Isabelly em 2023. Como tu explicas o contraste entre esse prestígio internacional e a falta de apoio no Brasil?

Fabiano Biazzon: O que o reconhecimento internacional diz, na prática, é que o problema não está na qualidade do projeto, mas na nossa dificuldade, enquanto país, de transformar discurso sobre diversidade em investimento concreto em vidas, carreiras e cidadania trans.

A trajetória do MUT Brasil fora do país mostra algo muito simples: quando o trabalho é avaliado com critérios técnicos, de inovação e impacto social, ele é reconhecido. Nossos oito prêmios internacionais e o título histórico da Luanna Isabelly são o resultado de um projeto sério, com metodologia, propósito claro e capacidade de reposicionar a narrativa sobre pessoas trans no mundo.

O contraste aparece quando voltamos para o Brasil e esbarramos em duas barreiras principais: o preconceito estrutural e a resistência em investir de forma consistente em diversidade. Ainda existe, em muitos setores, uma compreensão limitada de que a pauta trans seria “sensível demais”, “arriscada” ou “não prioritária”. Em outras palavras, o Brasil se orgulha quando um título internacional chega, mas ainda hesita em financiar o processo que torna esse título possível.

Quando vocês procuram marcas, empresas e agências que falam em diversidade, quais são as principais resistências ou justificativas que recebem para não apoiarem o projeto?

As justificativas são quase sempre muito semelhantes, independentemente do porte ou do segmento da empresa. Ouvimos com frequência: “não está no planejamento deste ano”, “não temos verba disponível”, “já esgotou o recurso”, ou ainda que “o tema é delicado para o nosso público”.

Na prática, isso revela duas coisas. A primeira é que a pauta trans ainda é tratada como algo periférico, e não como parte da estratégia central de negócios, reputação e responsabilidade social. A segunda é que muitas marcas ainda operam num lugar de medo: medo de perder consumidores conservadores, medo de enfrentar ataques nas redes, medo de assumir um compromisso que vá além de uma campanha pontual.

Quando mostramos nossos resultados, indicadores e o alinhamento com a Agenda 2030, fica claro que o MUT Brasil não é um “evento” para gerar uma foto bonita, mas uma plataforma consistente de impacto social. É justamente aí que muitas empresas ainda recuam: apoiar diversidade exige continuidade, transparência e coragem – e não apenas comunicação.

O MUT Brasil se define como uma plataforma de formação, acolhimento e liderança trans. De forma concreta, como o projeto articula cultura, comunicação e impacto social no dia a dia?

Na prática, usamos o imaginário dos concursos de miss – algo profundamente enraizado na cultura brasileira – como porta de entrada para algo muito maior: formação, acolhimento e liderança trans. Isso se traduz em três frentes concretas.

Formação e acolhimento: mentoria, oficinas, apoio psicológico, rodas de conversa e capacitação profissional. Não escolhemos apenas uma miss; fortalecemos trajetórias, autoestima, fala pública, empregabilidade e rede de apoio. Comunicação e narrativas: produzimos conteúdo, conectamos as misses à imprensa e estimulamos que cada participante leve sua pauta – saúde, educação, maternidade trans, mercado de trabalho, direitos humanos – ao centro do debate. Impacto social e articulação institucional: atuamos como ponte entre comunidade trans, empresas, poder público e organizações sociais, articulando parcerias e incidindo no debate sobre políticas públicas e inclusão.

    Tu disseste que “falar sobre diversidade é fácil; difícil é investir nela”. Como avalia a distância entre o marketing da diversidade e as práticas reais das empresas no Brasil?

    Hoje existe um descompasso claro entre discurso e prática. Muitas empresas já entenderam que a linguagem da diversidade é bem-vista e melhora reputação. O problema é quando essa linguagem não se traduz em orçamento, metas e transformação concreta.

    O chamado “marketing da diversidade” funciona, em muitos casos, como vitrine: campanhas em datas simbólicas, posts nas redes, imagens diversas nas peças publicitárias. Mas, quando perguntamos quantas pessoas trans estão contratadas, quantas lideram equipes, qual é o investimento em formação, saúde mental e segurança, a resposta costuma ser frágil.

    Investir em diversidade é o oposto de performar diversidade: envolve decisões difíceis, revisão de políticas internas e compromissos de longo prazo.

    O MUT Brasil está alinhado à Agenda 2030 e à ODS 5 sobre igualdade de gênero. Como esse alinhamento orienta a geração de oportunidades para a cidadania trans?

    A ODS 5 assume uma dimensão concreta diante da realidade trans no Brasil: falta de acesso a trabalho, evasão escolar, violência, expulsão familiar e invisibilidade. Ao alinhar o MUT Brasil à Agenda 2030, deixamos claro que o palco é apenas a superfície de um trabalho que dialoga com direitos básicos. Isso orienta ações como: criação de oportunidades de formação, visibilidade e empregabilidade; construção de espaços seguros de fala e participação; parcerias com empresas e órgãos públicos interessadas em inclusão real.

    O MUT não é entretenimento isolado, mas parte de um esforço global por justiça social e redução de desigualdades.

    Sem patrocínio, o Brasil corre o risco de não participar do mundial de 2025, na Índia. Qual seria o impacto dessa ausência?

    Seria um retrocesso simbólico profundo. O Brasil lidera o ranking de assassinatos de pessoas trans e, ao mesmo tempo, é referência global em protagonismo dessa população. Não participar do mundial enviaria a mensagem de que, mesmo quando damos certo, nossa continuidade não está garantida.

    Seria silenciar vozes que já provaram sua potência. Seria perder a chance de mostrar ao mundo uma narrativa que não reduz pessoas trans à violência.

    E há um paradoxo: o Brasil vai sediar o mundial em 2026, mas pode não conseguir garantir a presença da própria delegação em 2025. Isso expõe o abismo entre orgulho e compromisso.

    Como a falta de apoio afeta a formação de novas lideranças trans?

    Cada pessoa trans que vê uma miss subir ao palco com dignidade recebe a mensagem: “é possível existir e ocupar espaços”. Quando esse processo é interrompido, perde-se muito mais do que um evento, perde-se inspiração, fortalecimento e proteção social.

    Sem apoio, oferecemos menos mentoria, menos acolhimento psicológico, menos formação profissional, menos oportunidades de vida.

    O preconceito se combate com políticas públicas, mas também com referências. O MUT Brasil é uma dessas ferramentas.

    O Brasil será sede do mundial em 2026. Qual é a proposta para este evento?

    Queremos mais do que uma final de concurso: um fórum internacional sobre diversidade, futuro do trabalho e direitos humanos. Isso inclui: Turismo e economia criativa: delegações de 35 países movimentando setores inteiros; Fórum de futuros inclusivos: painéis, debates, workshops, encontros entre empresas e lideranças trans; Investimentos e inovação social: articulação com marcas, fundos e instituições internacionais.

    No dia 24 de novembro, recebemos a notícia de que o gabinete do presidente Lula emitiu ofício para tratar de apoio ao evento de 2026, inclusive à delegação. Para 2025, talvez não haja tempo, mas ganhamos força.

    Também tivemos apoio institucional da Secretaria da Cultura do Estado e da Unisinos para a etapa nacional. Sem esses apoios, o projeto não aconteceria.

    Quais indicadores vocês apresentam às empresas?

    Entre os principais estão alcance de comunicação: mais de 30 milhões de pessoas na imprensa em 2025; Redes sociais: mais de 5 milhões de pessoas alcançadas nos meses da final nacional; Transmissões ao vivo: cerca de 38 mil visualizações; Casos reais de transformação: emprego, formação, palestras, empreendimentos, liderança comunitária; Reconhecimento internacional: oito prêmios que atestam inovação e impacto.

    Nosso diferencial é simples: não somos um concurso que inclui pessoas trans; somos uma plataforma criada por e para pessoas trans, com foco em formação, acolhimento, comunicação e articulação política.

    Qual é o seu apelo final ao setor privado e às instituições públicas?

    O meu apelo é direto: apoiar o MUT Brasil não é patrocinar um evento – é investir em vida, cidadania e futuro. O setor privado tem a chance de ir além do discurso e se posicionar ao lado de um projeto que já provou sua relevância e impacto.

    A participação no mundial de 2025 é essencial para manter viva essa trajetória e preparar o país, com coerência, para sediar o mundial em 2026.

    Não pedimos caridade, mas parceria, continuidade, recursos, compromisso. O legado que queremos é simples: um Brasil onde a representatividade trans não seja exceção, mas estrutura.

    Editado por: Katia Marko

    |

    Newsletter