PADROEIRA DO RECIFE

Símbolo da fé católica popular em Pernambuco, Festa do Morro da Conceição começa nesta sexta-feira (28)

A celebração retorna após reconstrução do santuário, que desabou em 2024; tema deste ano remete a reacender a esperança

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Festa do Morro da Conceição na zona Norte do Recife é dedicada à Virgem da Conceição, padroeira afetiva do Recife
Festa do Morro da Conceição na zona Norte do Recife é dedicada à Virgem da Conceição, padroeira afetiva do Recife | Crédito: Andréa Rêgo Barros/PCR

Começa nesta sexta-feira (28) a Festa de Nossa Senhora da Conceição, popular Festa do Morro, principal festividade religiosa de Pernambuco e um dos símbolos do aspecto comunitário e coletivo que a fé católica possui no estado. O festejo segue até o dia oito de dezembro e celebra a padroeira afetiva, mas não oficial, do Recife. O evento desloca milhares de católicos para o bairro periférico na zona norte da cidade, fortalece as conexões da igreja com comunidades do entorno e resgata a memória de figuras emblemáticas do compromisso da fé com a justiça social.

A solenidade de abertura inicia com a procissão com trajeto de pouco mais de dois quilômetros, partindo do Parque da Macaxeira em direção ao Morro da Conceição. A saída está marcada para as 18h e a chegada é esperada para as 19h. A caminhada se encerra diante do Santuário de Nossa Senhora, reconstruído após desabamento que fez 19 vítimas, entre mortos e feridos, em 2024. Este ano a celebração adotou como tema Com o olhar voltado à Imaculada, reacendemos a chama da esperança, reafirmando a força da fé popular que acompanha as histórias da paróquia e do próprio bairro há décadas.

O padre Emerson Borges, pároco do Morro, celebra a proximidade entre aquele santuário e a comunidade. “Santuários costumam estar em lugares afastados da cidade. Mas aqui temos esse privilégio de estar num bairro periférico, com uma dinâmica em que a fé e a devoção a Nossa Senhora da Conceição se misturam com vida da comunidade e acaba transformando-a. Então a fé é também uma força para lidar com os desafios do dia a dia da vida na periferia”, afirma o reitor do santuário, que também cita a tragédia do ano passado. “Aquele momento difícil nós atravessamos de mãos dadas”, complementa. 

O padre Emerson Borges, pároco do Morro da Conceição e reitor do Santuário de Nossa Senhora da Conceição
O padre Emerson Borges, pároco do Morro da Conceição e reitor do Santuário de Nossa Senhora da Conceição | Crédito: PhotSacra / Divulgação

Um dos exemplos de conexão entre fé, vida e compromisso comunitário é a fonoaudióloga Alba Lopes, nascida e criada no Morro, devota de Nossa Senhora da Conceição e fruto de uma geração de mulheres como sua mãe e avó, que sempre acompanharam de perto as interseções entre igreja, comunidade e compromisso social que compõem a dinâmica local. “Acredito que não existe oração sem ação. A relação com a igreja só tem sentido se a fé for para ajudar as pessoas. Jesus mostrou os caminhos de como podemos fazer isso”, pontua.

“Minha fé, por exemplo, é voltada para ajudar as pessoas com deficiência na luta contra o preconceito e o capacitismo. Gosto de trabalhar com os excluídos”, afirma Alba, que é fundadora do Centro de Reabilitação e Valorização da Criança (Cervac), com mais de três décadas de atuação no Morro da Conceição. 

Entre os desafios superados com ajuda da devoção, Alba dá graças a Nossa Senhora o enfrentamento bem-sucedido a um câncer de mama em 2018. Alba também viu seu marido, Marcos Ferreira, entre os feridos do desabamento do teto em 2024. “Foi algo muito angustiante ver: a igreja desabar e um parente meu estar ali embaixo. Mas também foi muito forte acompanhar esse reerguer, ver a igreja se recuperar e ressurgir”, recorda Lopes.

Hoje integrante da equipe de liturgia do santuário, Lopes tem sua vida atravessada pela religiosidade desde os tempos em que o santuário ainda era uma capela e as ruas do Morro não eram calçadas. Sua avó, Vanda Lopes, foi tesoureira da igreja e acolheu os padres em casa durante muitos anos. Hoje, a família também acaba acolhendo devotos que sobem o Morro, oferecendo um ponto para descanso e comercializando alimentos.

A família Lopes foi muito próxima da emblemática figura de Reginaldo Veloso, falecido em 2022 e um dos primeiros administradores da então Paróquia de Nossa Senhora da Conceição. Veloso foi perseguido pela ditadura militar e, posteriormente, por lideranças conservadoras da Igreja Católica em Pernambuco, principalmente após a saída de Dom Helder Câmara da Arquidiocese de Olinda e Recife. O padre Reginaldo desenvolveu um trabalho que unia fé e luta pela emancipação social e política do povo trabalhador. Em 1989, sua ordenação foi suspensa, mas ele manteve seu trabalho de devoção e compromisso social.

Na última quinta-feira (27), o padre Reginaldo Veloso foi homenageado com um busto em sua memória na Praça do Morro. “Para cada época, a Igreja Católica vivencia diferentes desafios, que são atravessados por todos nós padres. Figuras como Dom Helder Câmara se tornam marcos importantes da Igreja, e trabalhos como o do padre Reginaldo acabam deixando uma marca positiva no Santuário e na vida da comunidade. Esta igreja não tem uma fé voltada para uma espiritualidade distante e individualizada, mas ligada ao povo e à sua história. Cabe à Igreja manter esse legado, se envolver em temas como a questão climática e ter esse cuidado com nossa casa comum, obra da criação. É tornar as coisas mais concretas a partir de nossa fé”, conclui o Padre Emerson.

Missas e shows

A programação da festividade inclui shows musicais de artistas como Almir Rouche (no sábado, 29), Dudu do Acordeon e Banda Sanfonada (dia 30), Cristina Amaral (1º), Nádia Maia (2), artistas locais (3), DJ Roony Moura (4), Eliana Ribeiro e Rômulo Pereira (5) e Padre João Carlos (7), além de dezenas de missas ao longo dos 12 dias de festa. Confira a programação completa abaixo.

Editado por: Vinicius Sobreira

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