Formar lideranças e coletivos comunitários com atuação voltada para a saúde e o fortalecimento da relação com o SUS. Este foi um dos objetivos centrais do projeto que, ao longo de quase um ano, conduziu turmas em 18 municípios, do litoral ao Sertão de Pernambuco. A partir da metodologia de educação popular e contando com o apoio de organizações da sociedade civil, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), através do Instituto Aggeu Magalhães, formou 356 agentes populares de saúde com o apoio do Ministério da Saúde.
Nos encontros formativos, os participantes do curso nos territórios aprenderam sobre história e formação social do Brasil, as práticas populares e tradicionais de saúde, segurança alimentar e soberania, comunicação e saúde, o processo de educação popular. Na parte prática, criaram planos de ações territoriais, além de terem realizado visitas a equipamentos de saúde dos respectivos municípios. Pernambuco foi o estado brasileiro onde o curso teve maior alcance: foram 35 turmas formadas em comunidades rurais, quilombolas e periferias urbanas. O evento de formatura e entrega de certificados aconteceu no dia 22 de novembro, na Cidade Universitária.
A pedagoga Beatriz Costa foi uma das responsáveis pelo curso de agentes populares de saúde (apelidado de AgPopSUS) no município de Pesqueira, Agreste do estado. “Os educandos mostraram interesse em repassar o conhecimento e estudar mais as questões relativas à saúde e ao SUS. Foi um aprendizado enorme”, resume. Ao lado da sanitarista Paloma Costa e tendo como base o povoado de Santa Luzia, Beatriz reuniu moradores de três comunidades e fez visitas de campo a centros de saúde locais. Estudante desta turma, Vítor Maciel destaca a possibilidade de contribuir com a rede SUS. “Temos direito a sermos ouvidos para a tomada de decisão”, diz o jovem.
A liderança quilombola Edna Paixão, nascida no Quilombo Boa Vista, foi a facilitadora de uma das turmas do curso. “Eu vi lágrimas de alegria e abraços apertados de gente dizendo que agora sabe como defender a comunidade no SUS. Vi também o despertar de um conhecimento que é nosso, dos nossos mais velhos, mas que estava adormecido”, diz a educadora popular natural de Afrânio, Sertão pernambucano. Ela afirmou o desejo de continuidade do programa “para que outros quilombos pernambucanos tenham essa mesma oportunidade”.

Rosângela Freitas, assentada rural e integrante do setor de saúde do Movimento Sem Terra (MST), disse que sua turma teve a oportunidade de conhecer unidades de saúde, entender como funcionam e suas carências. “Agora defendemos o SUS mais do que nunca”, pontua. Ela destaca o aprendizado de que “às vezes, o nosso remédio está no quintal”. Ideia endossada por Edna Paixão. “Foi negado aos nossos ancestrais o direito de acessar a medicina tradicional. Mas eles desenvolveram e nos ensinaram muitos dos nossos saberes. O curso nos ajudou a nos reconectar a estes saberes”, comemorou.
A advogada e sanitarista Vera Baroni prestigiou a formatura dos agentes populares de saúde. “Acredito que esse SUS construído a muitas mãos se faz muito forte e jamais será derrubado. Ele sofre ataques desde sua criação, mas com uma iniciativa como esta e com a coragem do povo, seguiremos avançando para que este país um dia seja de verdadeira igualdade”, discursou Baroni, que é integrante da Rede de Juristas Negras de Pernambuco e fundadora da Sociedade de Mulheres Negras Uiala Mukaji.
O coordenador do movimento Mãos Solidárias, Paulo Mansan, diz que a formatura das turmas “é um sonho que vira realidade”. A ideia dos agentes populares de saúde surgiu no Recife, durante a pandemia da Covid-19. “Lembro quando éramos só nós, do movimento social. Não havia estrutura, mas fomos fazer porque tínhamos que cuidar do povo naquele cenário de risco. Fico muito feliz que a Fiocruz e o ministério abraçaram a ideia. Esses 18 municípios foram importantes, mas queremos fechar o mapa do estado”, provoca Mansan, que fala em 50 mil agentes populares no Brasil. O Mãos Solidárias conduziu quatro turmas em Pernambuco.
“Uma nova forma de fazer política pública” terá continuidade
E o pedido foi respondido pelo ministério, através do seu secretário de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde, Felipe Proenço. “Sei que os agentes populares começaram aqui em Pernambuco, então anuncio aqui, em primeira mão, que teremos uma segunda edição do AgPopSUS. Ainda não chegaremos aos 50 mil, mas teremos mais 9 mil cidadãos em formação em todo o país em 2026”, garantiu o gestor público, recebendo os aplausos das centenas de agentes presentes. “No mês de dezembro o edital deve ser publicado e contamos com a participação de vocês”, informou.

Proenço também elogiou o programa. “Essas pessoas são referências nos seus territórios, que discutem os problemas das comunidades e possuem uma interlocução importante. Ao participarem deste processo formativo, abre-se uma nova possibilidade de atuação. Com certeza elas e eles agregarão muito para melhorar as condições de saúde das comunidades, interagindo com as políticas públicas e articulando-as para o fortalecimento do SUS”, disse ele em conversa com o Brasil de Fato.
A principal responsável pelo projeto foi a médica Paulette Cavalcanti, professora adjunta da UFPE e coordenadora do grupo de pesquisa Redes Integradas em Saúde: Acesso, Gestão do Trabalho e da Educação, da Fiocruz. “Algumas lideranças criaram associações, outras criaram comitês ou conselhos locais de saúde, ou ainda processos de cuidado dentro das comunidades. Então é um saldo muito positivo de organização e de fortalecimento da relação da comunidade com o SUS. Os certificados que entregamos hoje são uma repercussão individual do projeto, mas há uma repercussão coletiva que ainda não conseguimos dimensionar”, discursou a profissional.
Cavalcanti participou ativamente daquele gérmen plantado durante a pandemia e abraçado em 2023 pela Fiocruz. “Tínhamos um programa só em Pernambuco, com um protagonismo importante dos movimentos sociais, mas a gente não imaginava o que viria a se tornar o AgPopSUS. Não são só os agentes que formamos, mas alcançamos suas famílias e comunidades, as unidades de saúde dos seus bairros e as pessoas atendidas por elas”, comemora Paulette. “Este é o exemplo de uma nova forma de fazer política pública, junto à população e suas organizações. E isso repercute noutros ministérios”, completou.
A coordenação do AgPopSUS em Pernambuco ficou sob a responsabilidade de Isabel Passos. A psicóloga aponta o potencial de que esses agentes “dialoguem com suas comunidades e com outras políticas públicas além da saúde, criando alternativas, redes e tecnologias sociais nas áreas de segurança alimentar, educação, cultura e economia solidária”, avalia ela, em entrevista ao Brasil de Fato. “Isso também fortalece o Sistema Único de Saúde”, completa Passos.

A médica Naíde Teodósio, coordenadora de Promoção à Saúde no Instituto Aggeu Magalhães – Fiocruz Pernambuco, destaca que a formação de agentes populares “está dentro do nosso compromisso enquanto SUS, de fortalecer os territórios e as ações coletivas em defesa da saúde. É um movimento educativo em defesa da vida”, pontua.
Além dos encontros, o curso teve o chamado “tempo comunidade”, quando os estudantes aplicam o conhecimento obtido para pensar soluções para os problemas de suas comunidades. As 35 turmas do AgPopSUS estiveram espalhadas por Recife, Olinda, Jaboatão dos Guararapes e Paulista (todos na Metropolitana); Aliança e Gameleira (ambos na Zona da Mata); Caruaru, Bezerros, Pesqueira e São João (no Agreste); Afogados da Ingazeira, Serra Talhada, São José do Belmonte, Santa Cruz, Ouricuri, Santa Maria da Boa Vista, Afrânio e Petrolina (todas no Sertão).
Autoridades estaduais também participaram da cerimônia. “Como prefeito do Recife, a nossa principal preocupação era chegar à ponta. Por isso tivemos a primeira experiência no Brasil de efetivação de agentes comunitários de saúde, com 2,7 mil agentes”, recorda o hoje deputado João Paulo (PT), lembrando do desafio que é fazer os serviços de saúde chegarem ao cidadão. “Antes, eles não eram concursados, mas organizados a partir de cooperativas”, explica o parlamentar, que geriu a capital pernambucana de 2001 a 2008.
A deputada Rosa Amorim (PT), que atuou junto aos agentes populares na pandemia, diz que “passa um filme na cabeça”. “Eram os movimentos que estavam – e ainda hoje estão – onde o Estado brasileiro não consegue chegar. Foi a auto-organização do povo, agora com apoio governamental, que formou essa linha de frente do cuidado, da dignidade e da esperança nos territórios. São vocês que seguirão protegendo vidas e construindo justiça social no Brasil”, discursou.
Amorim relacionou a formatura a algo que acontecera, horas antes, em Brasília. “O grande culpado pelas mortes na pandemia e por um dos momentos mais terríveis na história do Brasil foi preso hoje. E nós estamos aqui, celebrando essa tecnologia social construída para salvar vidas”, comemorou, sob aplausos do público.
