Ao longo da minha vida profissional, tive a oportunidade de desenvolver um projeto em Timor Leste no período posterior ao conflito pela independência do país em relação à Indonésia. Por meio dessa experiência, sei que conflitos e guerras deixam sequelas profundas nos países, não apenas destruindo vidas, mas também deixando marcas psicológicas nas populações.
Essas marcas geram traumas coletivos, ansiedade e depressão, comprometendo o desenvolvimento de crianças e jovens. Esses efeitos se estendem aos países por meio do colapso de serviços básicos, ciclos de violência e de uma memória coletiva de trauma, dificultando a reconstrução social e a paz duradoura.
Nos últimos dez dias, tenho acompanhado mais de perto a crise humanitária no Sudão, e as informações às quais tive acesso, confirmaram que o país é, atualmente, o epicentro mundial de um conflito brutal e implacável que ceifa vidas e esperanças, deixando cicatrizes que atravessarão gerações. Infelizmente, essa guerra não é a única no mundo, e não podemos esquecer o que vem ocorrendo na Palestina, na Ucrânia ou em outros países de várias regiões da África.
De acordo com dados de diferentes agências das Nações Unidas, os conflitos armados na África já provocaram mais de 15 milhões de deslocados em países como República Democrática do Congo, Mali, Burkina Faso, Níger, Nigéria, Somália, Moçambique, República Centro-Africana e Etiópia.
Nesses países, as populações enfrentam massacres contra civis, ataques a vilarejos, recrutamento forçado, violência sexual e destruição de infraestruturas, o que resulta em fome aguda, colapso de serviços básicos e traumas profundos nas comunidades.
No Sudão, segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), cerca de 10 milhões de pessoas estão deslocadas internamente e mais de 4 milhões buscaram refúgio em países vizinhos, como Chade, Egito, Sudão do Sul e Etiópia. Isso representa um total de 14 milhões de pessoas deslocadas.
Diante dessa realidade que aflige a população sudanesa, tive a oportunidade de conversar com o médico Ahmed*, de 42 anos, especialista em emergências de saúde, que trabalha na área de desenvolvimento humanitário durante a maior parte de sua vida profissional. Sua última atividade profissional no Sudão foi no Emergency Response Rooms (ERRs)** e atualmente vive em Nairóbi, no Quênia.
Confira a entrevista:
Brasil de Fato RS: Como era a sua vida no Sudão antes de decidir sair do país?
Ahmed: A vida no Sudão era boa. Estávamos felizes porque a revolução de dezembro de 2018 finalmente derrubou o ditador de longa data, Omar Al-Bashir, e seu aparato de segurança. Havia um sentimento de união entre as pessoas. Os jovens se organizavam. Os direitos das mulheres eram defendidos. As liberdades começaram a ser concedidas. Era o período mais promissor da história recente do Sudão.
A situação estava melhorando sob o governo civil de transição, até que o aparato de segurança (SAF, sob o comando de Burhan, e RSF, sob o comando de Hemedti) assumiu o controle em um golpe de Estado, em 2021. Suas esperanças de controlar o governo e os recursos resultaram na guerra de 2023.
O que motivou sua decisão de deixar o país?
Segurança para mim e para os meus entes queridos. Vimos confrontos armados, tiros e fogo antiaéreo em nossos bairros. Tivemos que fugir para encontrar segurança. Não nos permitiram levar nada conosco. Saímos praticamente sem nada e perdemos todos os nossos pertences.
Quais foram os maiores desafios enfrentados por você como refugiado?
O maior desafio foi encontrar maneiras de reconstruir nossas vidas e obter passaportes e documentos, pois perdemos todos os nossos certificados e papéis. Além disso, viver legalmente em outro lugar era caro e demorado.
Qual foi a rota que vocês usaram para sair do Sudão e em qual país vocês estão neste momento?
Fiquei em Cartum por cerca de um mês, sem eletricidade, água ou sinal de celular. Depois, seguimos por estrada até o estado do Nilo Branco, cruzamos a fronteira com o Sudão do Sul e chegamos à cidade de Renk. Fiquei em Juba por dois meses antes de chegar a Nairóbi.
É irônico que, embora eu trabalhasse na fronteira com o Sudão do Sul recebendo refugiados sul-sudaneses, alguns anos depois eu mesmo estava cruzando a fronteira para o outro lado.
O que você gostaria que o mundo entendesse melhor sobre os sudaneses que vivem essa realidade?
Gostaria que se compreendesse que ninguém ganha uma guerra. Todos são afetados, e a comunidade internacional não está fazendo sua parte para impedir a influência regional que continua financiando os lados em conflito.
* Ahmed é um nome fictício utilizado para preservar a segurança do entrevistado.
** A Mutual Aid Sudan Coalition foi criada em abril de 2023, logo após o início da guerra no Sudão, e articula as Emergency Response Rooms (ERRs), que são redes comunitárias de voluntários inspiradas em práticas tradicionais sudanesas de solidariedade, como o nafeer. O nafeer é uma forma ancestral de mobilização coletiva na qual vizinhos e parentes se unem para enfrentar tarefas urgentes; as redes de parentesco funcionam como sistemas informais de proteção social. Essa lógica cultural de ajuda mútua, adaptada às condições de guerra, resultou em cozinhas comunitárias, clínicas improvisadas e evacuações médicas, tornando-se a espinha dorsal da resposta humanitária em regiões de difícil acesso para grandes organizações. Com mais de 26 mil voluntários, a coalizão atendeu cerca de 657 mil pessoas entre 2024 e 2025, oferecendo alimentos, água, medicamentos e apoio hospitalar. Em outubro de 2025, a coalizão foi indicada ao prêmio Holiday Impact Prize pelo jornalista Nicholas Kristof, do New York Times. A premiação ocorrerá em dezembro. A coalizão atua em coordenação com agências da ONU e Médicos Sem Fronteiras, mostrando como as tradições comunitárias podem se transformar em uma resposta humanitária vital.
