PALESTINA LIVRE

Marcha e mostra cultural marcam o Dia Internacional de Solidariedade ao Povo Palestino em Porto Alegre

'Sumud: A Resistência Inabalável' celebrou a cultura palestina com música, dança e diversas expressões artísticas

No audio source provided.
Evento foi organizado pelo grupo folclórico Palestino Terra e realizada no Memorial Luiz Carlos Prestes
Evento foi organizado pelo grupo folclórico Palestino Terra e realizada no Memorial Luiz Carlos Prestes | Crédito: Rafa Dotti

No Dia Internacional de Solidariedade ao Povo Palestino, celebrado na sexta-feira (29), ocorreram manifestações em diversas cidades do mundo. A capital gaúcha teve dois atos organizados pela Frente Gaúcha de Solidariedade à Palestina: uma marcha pela manhã e uma mostra cultural à noite. A atividade, chamada “Sumud: A Resistência Inabalável”, celebrou a cultura palestina com música, dança e diversas expressões artísticas. A segunda edição foi organizada pelo grupo folclórico Palestino Terra e realizada no Memorial Luiz Carlos Prestes.

A integrante da Frente Gaúcha de Solidariedade ao Povo Palestino e do grupo folclórico Palestino Terra, Cláudia dos Santos, explicou que a marcha iniciou na Praça Garibaldi e seguiu até a sede do Grupo RBS. Segundo ela, durante os 25 meses de ofensiva israelense, 277 jornalistas foram assassinados em Gaza, e nenhuma dessas histórias foi retratada pela RBS. “A maioria tinha menos de 23 anos. Eles estão sendo mortos porque registram os crimes que acontecem agora. É uma tentativa de apagar a verdade”, afirmou.

A atividade, chamada “Sumud: A Resistência Inabalável” lotou o Memorial Luiz Carlos Prestes – Foto: Rafa Dotti

Santos também criticou a forma como a mídia brasileira aborda a situação, “chamando de conflito ou guerra o que é uma colonização de povoamento e um processo de roubo dos recursos naturais de Gaza”. Ela citou o aumento da exportação de gás dos Estados Unidos e a atuação da Chevron, que extrai gás na costa palestina enquanto a população de Gaza enfrenta fome e ataques constantes.

A coordenadora ainda denunciou a presença em Porto Alegre da AEL Sistemas, subsidiária da israelense Elbit Systems, localizada na zona norte. Segundo ela, a empresa fornece dispositivos para caças, drones e obuseiros usados nos ataques contra civis palestinos. “O Brasil, ao manter acordos comerciais e isenções fiscais, acaba financiando o genocídio, o apartheid e a expansão dos assentamentos ilegais”, afirmou. Santos destacou que drones produzidos pela Elbit foram utilizados em massacres como o de Nuseirat, conhecido como “massacre da Farinha”, já documentado por investigações internacionais.

Ela reforçou a cobrança para que o governo brasileiro “rompa a cumplicidade”, imponha sanções às empresas envolvidas e responsabilize multinacionais que operam no país.

A data foi criada em 1977 pela Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU), dias após condenar a manutenção da ocupação militar de Israel nos territórios palestinos, para lembrar o aniversário da Resolução 181, de 29 de novembro de 1947, que aprovou, sem consulta aos habitantes locais, o Plano de Partição da Palestina.

“O Brasil, ao manter acordos comerciais e isenções fiscais, acaba financiando o genocídio, o apartheid e a expansão dos assentamentos ilegais”, enfatiza Cláudia dos Santos – Foto: Santiago Rodrigues

Mostra cultural destaca história palestina e resistência

À noite, a programação da mostra “Sumud: A Resistência Inabalável” reuniu exposições, apresentações de dança e música, declamação de poesias e culinária palestina. Durante o evento, ocorreu também uma palestra com Mansur Peixoto, que integrou o Global Summit da flotilha humanitária.

A exposição apresentou um mapa histórico da Palestina, relatos de massacres ocorridos ao longo de oito décadas e fotografias antigas de Gaza, incluindo imagens de famílias, plantações de oliveiras, casamentos e cenas do cotidiano, na mostra Gaza Remains the History. Também foram exibidos trabalhos da exposição Minha Gaza, Minha Vida, com charges produzidas por artistas gaúchos em solidariedade ao povo palestino, além de folders e artes criadas por palestinos. A programação incluiu ainda apresentações de dabke, dança tradicional palestina.

O evento contou com a participação do professor de música de Gaza, Ahmed Muin Abu Amsha, que enviou vídeos de apresentações feitas por ele e por um grupo de estudantes. Entre as músicas enviadas estava Shel Shel, gravada especialmente para a mostra, com o som de drones sobrevoando o local durante a gravação.

Antes de outubro de 2023, Amsha trabalhava na Escola Americana de Gaza e no Conservatório Nacional de Música Edward Said, além de manter seu próprio estúdio. Após perder tudo, criou o projeto Gaza Birds Singing, que busca ajudar jovens e crianças palestinas a lidar com os traumas da guerra por meio da música.

Ahmed Muin Abu Amsha, cantor palestino – Foto: Reprodução Instagram

“Quando decidimos entrar em contato com o professor Ahmed Muin, estávamos receosas por toda a situação do genocídio, deslocamento, fome, frio e enchente que o povo de Gaza enfrenta. Mas o desejo de tê-los conosco no segundo evento sobre Gaza foi mais forte, por ser um trabalho com crianças e jovens que, através da música, tenta amenizar um pouco o sofrimento, as perdas, a mutilação e o abalo psicológico que enfrentam”, relatou Soraia Saleh, integrante do grupo Palestino Terra.

Segundo ela, o professor realiza um trabalho admirável e sem pedir nada em troca. “Quem o conhece pelas redes faz doações espontâneas para que ele possa adquirir instrumentos e outras necessidades. Queríamos que ele e as crianças gravassem um vídeo para que aqui as pessoas pudessem conhecer um pouco do nosso povo, que é forte, solidário, tem fé inabalável e uma enorme vontade de justiça, soberania e autodeterminação.”

Saleh contou que, enquanto o professor e os alunos tentavam cantar e gravar, havia um drone israelense sobrevoando suas cabeças. “Mesmo assim, continuaram cantando, só que mais alto, para que o som do drone não abafasse suas vozes ou seus instrumentos.”

Ela afirmou que Ahmed descreveu as condições em Gaza: destruição total, falta de alimentos e medicamentos e a vida em tendas, com calor extremo no verão e frio intenso no inverno. Para ela, apoiar iniciativas como a de Ahmed é essencial. “É tão importante que o mundo abrace projetos como o dele, para que ao menos naquele momento as crianças esqueçam o som das bombas e o terror da limpeza étnica que vivem diariamente.”

A organização pretende transformar a mostra em uma atividade anual, ampliando o conteúdo a cada edição. Um painel especial do movimento BDS (Boicote, Desinvestimento e Sanções) apresentou as multinacionais envolvidas no saque de recursos e na ocupação dos territórios palestinos.

Também fizeram apresentações artísticas: Guapas 60+ em parceria com o Palestino Terra, Percussão Samai, Grupo Al Raqs, Sofia Zaki, Fernanda Zahira Razi, Ciro Ferreira e No Rest.

Evento contou com apresentações artística como da Percussão Samai- Foto: Rafa Dotti

Flotilha humanitária e solidariedade internacional

Ao Brasil de Fato RS, o pesquisador Mansur Peixoto, criador do Projeto História Islâmica, relatou sua recente experiência na flotilha humanitária Global Sumud. A embarcação, com cerca de 500 ativistas, tentou romper o cerco a Gaza durante um dos períodos mais críticos de fome na região. Após 30 dias de navegação, o grupo foi atacado, preso e levado ao presídio de Kitsyot, no deserto do Sinai, onde passou uma semana sob custódia do Exército israelense antes de ser deportado para a Jordânia.

Segundo ele, a experiência foi marcada por racismo, violência e agressões dentro do que descreve como “um Estado de apartheid”. Soldados exigiam sobrenomes e origens étnicas, e pessoas com ascendência árabe sofriam ainda mais violência. Mesmo sem origem árabe, Peixoto afirma que sua identidade muçulmana o colocou sob suspeita, incluindo privação de sono e espancamentos.

Apresentação de danças típicas pelo grupo Palestino Terra – Foto: Rafa Dotti

Israel não respeita direitos humanos no nível mais básico. E nada do que passamos se compara ao que vive um palestino, que sofre agressões com total liberdade por parte das forças israelenses”, declarou.

Sobre o Dia Internacional de Solidariedade ao Povo Palestino, Peixoto destacou que a humanidade não é garantida, precisa ser exercitada. “Todos os dias devemos lutar pela libertação desse povo, com as ferramentas que temos: informação, ativismo e pressão internacional.”

Ele também criticou a narrativa de que haveria cessar-fogo. “O cessar-fogo é uma piada. Israel nunca respeita. Nesse suposto período, mais de 200 pessoas foram mortas, a maioria crianças.”

Peixoto concluiu com um alerta: “O palestino de amanhã pode ser você. Enquanto o choro é em árabe, muita gente finge não ouvir. Quando for em português, talvez já seja tarde demais.”

Presente ao evento, o vereador Pedro Ruas (Psol) afirmou que a realização do ato em Porto Alegre “já é uma alegria diante da tragédia palestina e do genocídio promovido pelo Estado de Israel”. Para ele, o 29 de novembro deve ser marcado internacionalmente.

Ruas lembrou que preside a Frente Parlamentar de Solidariedade ao Povo Palestino na Câmara Municipal, cuja criação enfrentou resistência de uma maioria “de direita e sionista”. Mesmo assim, a frente foi instalada e articulou, junto à Igreja Católica, o envio de apoio financeiro direto a contatos em Gaza, medida que tem surtido efeito mesmo com as dificuldades de entrada de ajuda humanitária.

“O palestino de amanhã pode ser você. Enquanto o choro é em árabe, muita gente finge não ouvir. Quando for em português, talvez já seja tarde demais”, frisa Mansur Peixoto – Foto: Rafa Dotti

“Sou uma mulher de dois corações”

A palestina Suzana Samhan (nome de batismo Ferial) vive no país desde 1983. Ela nasceu em uma aldeia próxima a Ramallah e deixou a Palestina aos 15 anos, quando veio ao encontro do noivo, com quem se casou e formou família no Brasil. Aos 57 anos, mãe de três filhos e avó de três netos, ela relata ter vivido um casamento de 35 anos, hoje encerrado, “com seus frutos bons e também momentos ruins”.

Samhan conta que sua infância na Palestina foi marcada pela escassez e pelas restrições impostas pela ocupação. “Tudo era escasso também, por conta dessa colonização. A gente não tinha acesso a ir, a vir. Até a escola era muito difícil. Tanto é que eu não terminei nem o fundamental”, diz. Já no Brasil, concluiu o Ensino de Jovens e Adultos (EJA) aos 32 anos e chegou a ingressar na faculdade de psicologia, que está temporariamente trancada.

Embora se considere “mais brasileira do que árabe”, ela afirma carregar uma identidade dividida. “Sou uma mulher de dois corações: meio brasileira, meio palestina”.

Família dividida e dor diária

Samhan é a mais velha entre 12 irmãos. Apenas ela e mais dois vivem no Brasil, o restante está na Palestina. A conexão é constante, e angustiante. “Nós estamos o tempo todo preocupados com eles. Todos os dias a gente se comunica, praticamente o dia todo, querendo saber o que está acontecendo”, relata.

Sua família vive na Cisjordânia, onde os conflitos são permanentes. “Não é tão intenso como na Faixa de Gaza, mas não deixa de ser conflito. Todos os dias tem demolições, todos os dias tem jovens que morrem por nada ou por coisa alguma. E a dor é diária, tanto para nós que estamos aqui sem saber o que fazer como para eles.”

“Que tipo de castigo um colonizador impõe sobre o colonizado dentro da própria terra?”, indaga Suzana Samhan – Foto: Rafa Dotti

Distância curta, fronteiras imensas

Apesar de Gaza estar a cerca de 30 quilômetros de distância de sua aldeia, Samhan só conseguiu entrar no território uma única vez na vida. “Morei até os 15 anos na Palestina e só pude ir uma vez à Faixa de Gaza, atravessando uma fronteira onde você é revistada, tem que apresentar documentação, dizer por que está indo e quem vai visitar.”

Segundo ela, a restrição de circulação é um dos pilares da colonização. “Que tipo de castigo um colonizador impõe sobre o colonizado dentro da própria terra? Somos colonizados e bombardeados dentro da nossa terra, e ao mesmo tempo somos vistos como terroristas. Como é que chamam de terrorista alguém que está sendo morto dentro da sua própria casa e luta pela própria liberdade?”

Dia Internacional de Solidariedade ao Povo Palestino

Emoção, arte e solidariedade marcaram a noite de sábado – Foto: Rafa Dotti

Para Samhan, o 29 de novembro, data reconhecida pela ONU, é um dia de memória amarga. “Lembra a Nakba, a catástrofe do povo palestino. Foi mais ou menos quando tudo se deu início e o mundo passou a fechar os olhos para a nossa causa.”

Ela afirma que os líderes mundiais que poderiam agir “não fazem nada” e, muitas vezes, “são colaboradores com esse invasor, que é um braço armado dentro da Palestina e do Oriente Médio”.

Sobre a expressão “Palestina livre do rio ao mar”, ela explica: “Estamos presos no meio do rio ao mar, enclausurados. Precisamos dessa liberdade de poder circular entre o rio e o mar e ter nossa terra livre. A gente não tem acesso, a não ser que o colonizador permita”.

Esperança apesar de tudo

Questionada se ainda mantém esperança, Samhan responde sem hesitar: “Quero ter essa esperança. Acredito que vai acontecer uma solução, talvez não seja hoje, amanhã ou daqui a uma década. Mas enquanto eu estiver aqui lutando, meus filhos e meus netos estiverem lutando, com certeza teremos a vitória um dia, e o nosso retorno.”

Para ela, a história demonstra que nenhum império resiste para sempre. “Já tivemos outros impérios que corroeram, mesmo com séculos de dominação. E com certeza vai acontecer com Israel. Não é possível que isso vá durar por toda uma eternidade. Eu espero.”

Editado por: Katia Marko

|

Newsletter