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Nas Filipinas, destruição causada por tufão expõe corrupção e onda de protestos pede renúncia do governo

Mortes provocadas pelo tufão Kalmaegi e escândalos de corrupção em obras de drenagem desencadeiam insatisfação

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Manifestantes exibem cartazes e faixas com fotos de Marx e Lenin durante um protesto em Manila, Filipinas em 21 de setembro de 2025.
Manifestantes exibem cartazes e faixas com fotos de Marx e Lenin durante um protesto em Manila, Filipinas em 21 de setembro de 2025. | Crédito: EPA/FRANCIS R. MALASIG

As Filipinas vivem a maior onda de mobilizações sociais em uma década. Desencadeada depois dos impactos do tufão Kalmaegi que devido as enchentes causadas, deixou, até o momento, pelo menos 142 mortos e dezenas de desaparecidos, além da destruição de milhares de residências, segundo o Philippine National Disaster Risk Reduction and Management Council (NDRRMC).

As manifestações ganharam tração após as consequências do tufão, mas não surgiram apenas da tragédia natural. Elas refletem sobretudo a indignação da população diante de um escândalo de corrupção sistêmica em obras de contenção de enchentes, que deixou comunidades vulneráveis e agora pressiona o governo.

Devido ao aquecimento global, a região do sudeste asiático tem sofrido um aumento de quantidade e força de tufões e enchentes levando os governos a terem que adotar medidas de contenção a desastres como prioridades em suas gestões.

Corrupção em larga escala

Milhares de moradores ficaram desprotegidos diante das enchentes provocadas pelo tufão Kalmaegi, enquanto projetos essenciais de controle de enchentes não foram concluídos. Autoridades confirmaram que 9.855 obras estão sob investigação em todo o país. Muitos diques, sistemas de drenagem e contenções de rios foram declarados concluídos, mas apresentam falhas graves ou sequer chegaram a ser construídos.

Entre 2022 e 2025, o orçamento destinado a essas obras ultrapassou US$ 9 bilhões, segundo dados da Comissão de Auditoria (COA) das Filipinas. Parte desses recursos, pode ter se perdido devido à corrupção, e US$ 210 milhões já foram congelados em ativos ligados a empresas e agentes públicos. Alguns ex-funcionários devolveram US$ 1,9 milhão que tinham recebido em propina.

Investigações e denúncias apontam irregularidades como o uso de materiais de baixa qualidade, descumprimento de especificações técnicas, sobrepreços e concentração de contratos em empresas com capital mínimo declarado.

Ex‑engenheiros relataram que muitas obras foram executadas com materiais inferiores aos aprovados, comprometendo a proteção das comunidades.

As obras sob suspeita se estendem por várias províncias, incluindo áreas historicamente vulneráveis a enchentes, como Bulacan e Central Luzon. Organizações de direitos humanos, como a Karapatan, alertam que milhões de pessoas permanecem expostas a riscos, tornando evidente a relação direta entre corrupção e vidas perdidas durante desastres naturais.

Renúncia do presidente

O presidente Ferdinand Marcos Jr. enfrenta a maior pressão desde sua posse, diante da crescente insatisfação popular. Protestos em Manila e em outras cidades expressam indignação com a gestão do governo e a percepção de falta de responsabilidade na administração de obras públicas essenciais.

Pesquisas de opinião de 2025 mostram uma queda significativa na aprovação do presidente, com índices em torno de 33% enquanto a desaprovação alcança 44%, refletindo a insatisfação de parcelas expressivas da população. Mais de 80% dos moradores da área metropolitana de Manila consideram que a corrupção piorou sob a atual administração, reforçando a percepção de impunidade.

A aliança de Marcos Jr. com parlamentares e empresários ligados a contratos suspeitos aumenta a cobrança por mudanças imediatas. Analistas políticos e organizações civis destacam que a combinação de descontentamento social, denúncias de corrupção e má gestão torna a pressão por sua renúncia uma das mais sérias desde sua eleição.

O movimento popular sugere que a crise política pode ter reflexos diretos em decisões legislativas e futuras nomeações, reforçando a necessidade de responsabilização de autoridades e reformas administrativas.

Mobilizações históricas e recentes

As manifestações de 2025 começaram antes mesmo do tufão Kalmaegi. Ao longo do ano, estudantes, sindicatos, organizações civis e movimentos populares já ocupavam as ruas para protestar contra cortes sociais, inflação e a má gestão de recursos públicos. O descontentamento acumulado encontrou nas enchentes e no escândalo de obras de controle hídrico um catalisador para se intensificar.

Em setembro, a marcha Baha sa Luneta reuniu cerca de 100 mil pessoas em Manila, capital filipina, segundo informações da Al Jazeera. O ato denunciou os chamados “projetos‑fantasma”, que deixaram comunidades vulneráveis, e exigiu maior transparência no uso de verbas públicas. Por outro lado, em novembro, a Iglesia ni Cristo (INC) organizou um protesto de três dias na capital, estimado em 600 mil a 650 mil participantes, tornando-se um dos maiores eventos de mobilização recente. A pauta principal era justiça e responsabilidade no escândalo de obras de drenagem e contenção de enchentes.

Manifestante é imobilizado no chão por policiais. Jose Monsieur Santos/ZUMA Press Wire/Shutterstock
Manifestante é imobilizado no chão por policiais | Crédito: Jose Monsieur Santos/ZUMA Press Wire/Shutterstock

A mobilização não se limitou à capital. Cidades como Cebu e Davao também registraram atos de protesto, demonstrando que a indignação se espalha por várias regiões do país. O clima de insatisfação revela que a crise vai além das tragédias naturais: é resultado de anos de denúncias de corrupção, impunidade e políticas públicas ineficazes, agora refletido em uma explosão de participação popular.

Negligência e crise climática

O tufão Kalmaegi atingiu principalmente a região central das Filipinas, provocando alagamentos, deslizamentos e destruição de comunidades. Milhares de famílias foram evacuadas para abrigos temporários que enfrentam escassez de alimentos, água potável e medicamentos.

O desastre evidencia a vulnerabilidade das comunidades, agravada pela execução incompleta ou inadequada de obras de contenção de enchentes. Estudos climáticos indicam que tufões na região têm se tornado mais intensos e frequentes, possivelmente relacionados ao aquecimento global, tornando a população ainda mais exposta a riscos evitáveis.

O impacto econômico é significativo: perdas estimadas em centenas de milhões de dólares incluem casas, plantações e infraestrutura, reforçando a urgência de políticas públicas eficazes em mitigação de desastres e adaptação climática, como mostrou reportagem do The Philippine Star.

tensão aumentou em 21 de setembro de 2025, quando um grupo de manifestantes que tentava chegar à Ponte Mendiola foi impedido pela polícia na Ponte Ayala. O impasse terminou em repressão e violência.
Policiais fazem um cordão de isolamento e impedem que o protesto siga; ação terminou em forte repressão estatal | Crédito: J. GERARD SEGUIA

A tensão aumentou em 21 de setembro de 2025, quando um grupo de manifestantes que tentava chegar à Ponte Mendiola foi impedido pela polícia na Ponte Ayala. O impasse terminou em repressão e violência das forças policiais. Nesta mesma manifestação, em Manila, a polícia deteve 216 manifestantes, entre eles menores de idade, enquanto dispersava os atos com força excessiva, de acordo com o Philippine Daily Inquirer.

Relatos de organizações de direitos humanos apontam que manifestantes — incluindo jovens — foram atingidos com cassetetes, socos e empurrões, e muitos permaneceram sob custódia por dias sem acesso adequado à família ou defesa legal. Além dos detidos, diversos participantes e policiais ficaram feridos, evidenciando o clima de repressão estatal que acompanha a mobilização popular e reforça a pressão por responsabilização e proteção ao direito de protestar pacificamente.

Reconstrução lenta e futuro incerto

Após o tufão Kalmaegi, mais de 45 mil famílias ainda vivem em abrigos temporários, muitas sem acesso adequado a água potável, eletricidade ou saneamento básico, como aponta o Manila Bulletin. O ritmo da reconstrução tem sido lento, afetado por disputas políticas locais, limitações logísticas e falta de recursos financeiros, com perdas estimadas em centenas de milhões de dólares em infraestrutura e propriedades.

Organizações humanitárias locais e internacionais continuam a fornecer assistência emergencial, incluindo distribuição de alimentos, medicamentos e materiais de abrigo, mas a cobertura é insuficiente frente à escala da devastação. A situação evidencia que, sem investimentos estruturais e reformas na prevenção de desastres, a população permanecerá vulnerável a futuros tufões e enchentes.

O cenário de fragilidade reforça a percepção de insegurança e mantém a população em alerta, enquanto autoridades locais buscam acelerar a reconstrução e implementar políticas de mitigação, ainda que o progresso seja desigual entre regiões.

Aliança estratégica com os EUA sob críticas

A crise política e social nas Filipinas ocorre em meio à intensificação da parceria militar com os Estados Unidos, consolidada pelo Enhanced Defense Cooperation Agreement (EDCA). O acordo permite o acesso rotativo de tropas, navios e aviões estadunidenses a bases filipinas. Recentemente, o governo ampliou os locais acordados de cinco para nove bases, incluindo áreas estratégicas na região central e sul do país.

Exercícios militares conjuntos, como os anuais Balikatan, permanecem intensos, envolvendo milhares de soldados e dezenas de equipamentos avançados. Enquanto o governo argumenta que a parceria fortalece a segurança nacional e a capacidade de resposta a desastres, críticos destacam que o acesso militar não se traduz em proteção direta às comunidades afetadas por enchentes e outros desastres naturais.

Além disso, a aliança com os EUA tem sido associada a setores do governo ligados a contratos suspeitos e obras públicas questionadas, reforçando a percepção de impunidade e insatisfação popular. Parte da população também vê a presença militar estadunidense como influência externa sobre decisões internas, embora o foco central dos protestos permaneça na má gestão governamental e na corrupção sistêmica.

O cenário evidencia que, mesmo com o reforço militar, as comunidades mais vulneráveis continuam expostas a riscos evitáveis, o que alimenta críticas sobre prioridades governamentais e a necessidade de políticas públicas mais eficazes na mitigação de desastres.

Editado por: Maria Teresa Cruz

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